RÚSSIA

O Oreshnik e a intensificação das tensões na Europa

Em um sistema internacional marcado pela intensificação das rivalidades entre grandes potências, certos movimentos estratégicos tendem a passar despercebidos quando não se enquadram no foco imediato da agenda midiática global

Enquanto a atenção internacional se volta para a intervenção militar direta dos Estados Unidos na Venezuela, poucos analistas têm se dedicado a uma mudança substancial na escalada das tensões estratégicas no Leste Europeu: a recente instalação do sistema de mísseis Oreshnik em Belarus. Mais do que um mero deslocamento técnico de capacidades militares, esse movimento expressa uma reconfiguração estrutural da postura de segurança russa, inserida em um contexto mais amplo de rivalidade sistêmica com o Ocidente.

Sob a ótica do realismo ofensivo, formulado por John J. Mearsheimer, tal iniciativa não deve ser interpretada como uma anomalia ou uma escalada irracional, mas como um comportamento esperado de uma grande potência inserida em um sistema internacional anárquico. Para o autor, os Estados buscam maximizar seu poder relativo como forma de garantir a sobrevivência, sobretudo quando percebem ameaças diretas à sua esfera de influência.

A expansão contínua da OTAN em direção ao Leste Europeu constitui, nesse sentido, o principal vetor explicativo das reações russas. Ao posicionar esse sistema em Belarus, Moscou amplia sua profundidade geoestratégica, reduz o tempo de resposta frente a possíveis ameaças e reforça sua capacidade de coerção no flanco oriental da Europa. Esse reposicionamento altera significativamente o cálculo estratégico de países como Polônia, Lituânia e Letônia, ao aproximar capacidades ofensivas de alta precisão de áreas consideradas vitais para a OTAN.

Crédito: Russian Defence Ministry Press Service

Esse cenário expõe, simultaneamente, a vulnerabilidade estrutural da Europa. Apesar de seu peso econômico e normativo, a União Europeia permanece fortemente dependente da arquitetura de segurança liderada pelos EUA, o que limita sua autonomia estratégica e a transforma em palco privilegiado de disputas entre grandes potências. A militarização do Leste Europeu ocorre, assim, em um ambiente no qual decisões centrais são tomadas fora do continente, enquanto os riscos recaem diretamente sobre o território europeu.

Em termos mais amplos, o caso do Oreshnik revela a transição definitiva de uma ordem europeia baseada na promessa de integração e cooperação para uma lógica de competição aberta entre grandes potências. Conforme sustenta Mearsheimer, projetos liberais de expansão institucional tendem a colidir com realidades geopolíticas duras, sobretudo quando ignoram os interesses de segurança das grandes potências.

A Europa encontra-se, portanto, diante de um paradoxo central: ao buscar segurança por meio da ampliação de alianças militares e do reforço de capacidades dissuasórias, acaba por aprofundar a instabilidade que pretendia evitar. Sem a reabertura de canais diplomáticos substantivos, o continente corre o risco de se consolidar novamente como um espaço de fricção permanente entre grandes potências, reproduzindo padrões históricos que se acreditava superados.

 

Cássia Muniz é internacionalista e analista de política internacional, com foco em segurança internacional e geopolítica contemporânea.

 

Referências bibliográficas

MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton, 2001.

MEARSHEIMER, John J. “Why the Ukraine Crisis Is the West’s Fault”. Foreign Affairs, v. 93, n. 5, 2014.

MEARSHEIMER, John J. The Great Delusion: Liberal Dreams and International Realities. New Haven: Yale University Press, 2018.

WALTZ, Kenneth N. Theory of International Politics. Reading: Addison-Wesley, 1979.

 

Leia mais sobre o tema: