UM ESQUENTA PARA A COP30

O Pará no centro do debate climático

O maior festival de cinema socioambiental da América Latina esteve em solo paraense entre os dias 28 de agosto e 3 de setembro 

Com menos de três meses para a COP30, o Pará foi o palco de mais um grande evento na agenda socioambiental: a Mostra Ecofalante, que esteve presente em seis cidades: Belém, Ananindeua, Marituba, Benevides, Tomé-Açu e Breves. Em duas semanas, o festival exibiu 45 filmes e promoveu debates em escolas, cinemas e espaços culturais. 

A Mostra 

Criada há 12 anos, com o objetivo de democratizar o acesso ao cinema e estimular os debates climáticos, a Mostra Ecofalante é um projeto que nasce em São Paulo e faz itinerâncias pelo Brasil: já esteve em vários estados como Bahia, Rio Grande do Sul, Goiás, Amazonas e Rio de Janeiro. 

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, Patricia Lio, produtora cultural e promotora local da Mostra, comenta: “quando eu morava em São Paulo, eu acompanhava o evento e ficava com muita vontade de trazer aquilo para a minha terra. Apesar de ainda ser a segunda edição aqui no Pará, a adesão do público já foi forte e espero que seja um projeto que se renove no futuro”.  

Quase 60% da programação são obras dirigidas por mulheres
Crédito: Equipe Ecofalante

Patricia explica que, apesar da Mostra ser nacional, o processo de curadoria dos filmes busca entender as principais pautas e especificidades de cada território. No caso do Pará, as principais discussões giraram em torno da desinformação climática, conflitos agrários e protagonismo feminino.  

O novo centro das discussões 

O ano de 2025 é simbólico para o debate socioambiental por reafirmar o que ativistas apontam como obviedade há décadas: regiões tradicionalmente associadas à questão ecológica precisam estar no centro do debate climático. A realização da COP30 e da Mostra Ecofalante no Pará são vitórias dos movimentos locais e a mensagem ecoa: os poderes econômicos de São Paulo, turístico do Rio de Janeiro e político de Brasília não podem mais monopolizar as decisões que afetam toda a população brasileira. 

Ao longo dos últimos anos, o Brasil tenta se consolidar como potência ambiental, tendo a Região Norte como ponto central nesse plano. O cenário geopolítico atual engloba 5 fatores principais dentro da temática ecológica: i) as mudanças climáticas já estão causando tragédias ao redor do mundo; ii) faltam apenas cinco anos para o prazo da Agenda 2030 da ONU; iii) a União Europeia reivindica a transição energética (muitas vezes, com projetos questionáveis e de greenwash); iv) o narcotráfico expande pelas fronteiras da floresta; v) o Sul global vive um forte momento de reivindicação das soberanias nacionais e o Norte global reage com novos instrumentos neocolonialistas. 

Abundância ecológica coloca estados como o Pará no centro das discussões políticas e socioambientais
Crédito: Renato Ribeiro/Flickr

Nesse tabuleiro geopolítico, o Pará se destaca como um dos estados brasileiros com maior presença de comunidades tradicionais – especialmente povos indígenas e quilombolas – e ampla cobertura da Floresta Amazônica, território disputado tanto internamente quanto na esfera internacional. Por isso, a realização de eventos socioambientais no estado é fundamental: as comunidades tradicionais são, ao mesmo tempo, as principais defensoras da fauna e da flora e o grupo mais vulnerável às decisões climáticas. 

Cinema como instrumento pedagógico 

Além das sessões abertas, a Mostra Ecofalante Pará fechou parceria com escolas e universidades. “Nós conseguimos alcançar 19 escolas da rede pública e não somente frequentar o ambiente escolar, quanto trazer esses estudantes para espaços culturais – uma experiência muito importante para a formação cidadã”, diz Patricia. 

“A Ecofalante é um projeto de cinema, arte, cultura,  

mas está diretamente ligado à educação” 

Patricia Lio  

A produtora explica que o objetivo é “não se restringir a ser uma mostra de filmes de temática socioambiental que apenas fomente o diálogo”. A ideia é ir além: é um projeto que busca aprofundar e qualificar o debate. Ou seja, a Ecofalante não acaba quando o filme acaba; a exibição é, muitas vezes, seguida de conversas, discussões e divulgação nas redes e na imprensa. 

Para Patricia, o cinema é uma ferramenta pedagógica. Por isso, a Mostra mobilizou parcerias desde a educação infantil até o ambiente universitário. Ela destaca que a exibição do curta Águas Turvas (2023), de Gabriel Panazio e Kléber Leão, instigou um forte debate entre estudantes por se aproximar da realidade local. A obra apresenta a trajetória de um pescador da Baía da Guanabara cuja vida transformou-se devido à poluição: onde antes encontrava peixe, passou a encontrar apenas lixo. “Essa é uma realidade que nós já convivemos bastante por aqui e enxergamos em nossos rios. Existe um grau de identificação e percepção do quanto a ação humana já está afetando o cotidiano das pessoas”, aponta a produtora. 

O teor pedagógico e cultural da Mostra já está tão intrínseca à suas exibições que diferentes universidades estão se aproximando do projeto. A Ecofalante USP ocorrerá entre os dias 9 de setembro e 10 de outubro e a Ecofalante Unicamp entre os dias 30 de outubro e 13 de novembro.

Beatriz La Corte é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.