O pensamento estratégico europeu - Le Monde Diplomatique

Disputa de hegemonia

O pensamento estratégico europeu

por Pierre Conesa
2 de novembro de 2009
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Sob a orientação dos Estados Unidos, o mundo militar-intelectual europeu está totalmente influenciado por uma ontologia atlântica, incapaz de pensar na globalização como algo diferente de uma projeção de sua própria imagem, um centro americano e uma periferia mais ou menos remota

Nós vamos lhes fazer o pior dos favores, privá-los de inimigos!”, alertou, em 1989, após a queda do Muro de Berlim, o diplomata soviético Alexander Arbatov. “O inimigo soviético tinha todas as qualidades de um “bom” inimigo: sólido, constante e coerente. Certamente perturbador, mas conhecido e previsível.”1 Seu desaparecimento mergulhou os especialistas em estratégia das democracias ocidentais em uma desordem profunda. Eles insistiram durante algum tempo que “não se baixasse a guarda”, ou “que não se colhessem muito rapidamente os dividendos da paz”, mas o espírito de luta não existia mais. Demorou 20 anos para que a Rússia fosse novamente definida como “ameaça grave”.

A partir daí, não importa que o crime organizado italiano mate mais que o seu homólogo russo, é este último que preocupa. Na mesma linha, o passado de Vladimir Putin, que foi um humilde tenente-coronel da KGB, o Comitê de Segurança de Estado da ex-URSS, interessa muito mais que o de George W. Bush, presidente dos Estados Unidos (1989-1993), embora este seja ex-diretor da Agência Central de Inteligência (CIA).

Nessa construção da imagem de um inimigo, as instâncias de reflexão estratégicas ocupam um papel central para atingir três objetivos: identificar um “outro” ameaçador; justificar o sistema de defesa, estabelecendo a hierarquia dos riscos; e legitimar o uso da força. O escritor Paul Dickson já falava, em 1971, do “complexo militar-intelectual”2 para descrever esta enorme maquinaria herdada da Guerra Fria. Nos Estados Unidos existem de 500 a 1.500 think tanks – instituições públicas ou privadas de pesquisa –, sendo que a mais famosa, a RAND Corporation, emprega cerca de 1.500 pessoas, tem cinco escritórios no país e quatro no exterior, e um orçamento de US$ 130 milhões.3

Não existe nada comparável no restante do Ocidente. A Delegação de Assuntos Estratégicos do Ministério da Defesa francês tem apenas uma centena de pessoas e um orçamento para estudos de 4 milhões de euros. O Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), na Suécia, conta com apenas 50 pesquisadores, e o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), da Grã-Bretanha, com cerca de 40 e um orçamento de 9,2 milhões de euros. Os debates sobre estratégia ocidental são, portanto, essencialmente formulados pelos círculos americanos e conduzidos, depois, pelos outros.

Após a libertação do Kuwait, pensou-se na “ameaça do Sul” para substituir a “do Leste”. Uma simples reorientação geográfica teria permitido manter um quadro estratégico e meios idênticos. Mas o Sul, muito heterogêneo, pouco se adequava a esta generalização, até que surgiu a tese do “Choque de Civilizações”, criada pelo professor americano de ciências políticas Samuel Huntington.4

Continuar a supremacia

Houve preocupação, também, com as “áreas cinzentas” e “Estados fracassados” (failed States) que perderam a regra da lei. The grand chessboard, publicado por Zbigniew Brzezinski.5 ex-assessor do presidente Jimmy Carter, tornou-se a bíblia da visão unilateral dos dirigentes americanos. O importante não é mais o inimigo, mas a continuação da supremacia: “Desde que o poder sem precedentes dos Estados Unidos está fadado ao declínio, a prioridade é controlar a emergência de novas potências mundiais para que não comprometam a supremacia americana”6.

A reconquista, pelos neoconservadores, dessas instâncias de reflexão estratégica, marca uma etapa essencial. Em 1997, eles fundaram o “Projeto para um Novo Século Americano” (PNAC), definido como uma organização de educação que coloca como princípio fundamental que “a liderança americana é boa para a América e boa para o mundo”. O relatório Rebuilding America’s Defenses, escrito por membros do PNAC antes de 11 de setembro de 2001, estabelece os princípios da legitimidade da guerra preventiva e da aceitabilidade do uso das armas nucleares.

Nas democracias, os estrategistas são obrigados a certa transparência e a um discurso público, oficial ou semioficial: O livro branco sobre a Defesa, na França, em 1994 e 2008; Análise da estratégia de Defesa (SDR), em 1998 e SDR, Novo capítulo, de 2002, na Grã-Bretanha; Para uma grande estratégia para um mundo incerto, renovando a parceria transatlântica, nos Estados Unidos, em 2007, entre outros. Todos esses documentos explicavam que não havia mais inimigos maiores, mas que o esforço da defesa deveria ser mantido, justificado por uma semântica estratégica e legitimações variadas: o inimigo, as ameaças, e a destruição de planeta foram substituídos por “desafios”, “incertezas”, “crises”, “riscos”, “mutações” ou “interesses”.

Sem inimigos, o pensamento estratégico americano se dedicou, principalmente, a um “fetichismo tecnológico”: Revolução nos assuntos militares (RMA), lançado pelo Office of Net Assessment, de Andy Marshall, concentra-se em armas chamadas “de precisão” e tenta tornar a guerra aceitável, ao limitar os danos colaterais e reduzir o número de mortes. Há ainda o tema da ciberguerra, a defesa antimísseis, a transparência do campo de batalha etc.

Essa tendência se traduziu na predileção pelo conhecimento baseado na tecnologia e encontrou seus limites nos atentados de 11 de setembro de 2001 e nas guerras no Afeganistão e no Iraque. Todos esses avanços tecnológicos deveriam bater um adversário específico num combate tradicional. E somente Saddam Hussein, na primeira parte da guerra no Iraque (20 de março a 1º de maio de 2003), se enquadrou nessa perspectiva. Depois disso não houve mais combates frontais.

Segredos e conspiração

Os ataques contra o World Trade Center e o Pentágono globalizaram o medo. O presidente George W. Bush declarou guerra aos conceitos: enfrentaria mundialmente o “terrorismo” e a “proliferação nuclear”. Ele definiu de forma arbitrária os inimigos: Irã, Iraque e Coreia do Norte – que não tinha nada a ver com os atentados de 11 de setembro –, esquecendo-se dos aliados que contribuem para a “proliferação” – Israel, Paquistão e Índia – ou que possuem alguns setores do governo próximos ao terrorismo – Arábia Saudita e Paquistão. No entanto, indicar o risco não era suficiente, também tinham que torná-lo uma ameaça. Os estrategistas então reutilizaram três método
s clássicos: a hipertrofia da ameaça, a irracionalidade do adversário e sua selvageria. Acrescentaram a esses temas o segredo e a conspiração (guerra secreta, arquivos secretos) e a demonização (espectro, nebulosa islâmica, zumbis, fanáticos, o inimigo invisível). Por fim, parte do antigo vocabulário da Guerra Fria foi reciclada (Internacional Islâmica, o III totalitarismo, eixo do mal…).

A estratégia do forte e do “louco”, enunciada por François de Rose,7 permitiu incidir sobre a proliferação nuclear. Alguns países que desejavam possuir armas desse porte são descritos como “loucos” (Irã e Coreia do Norte), ao contrário dos Estados “amigos” (Israel e Paquistão), e serviram de espantalhos para explicar as ameaças. É também o caso do Iraque, um bode expiatório onde falsos relatórios de inteligência americanos e britânicos, que anunciavam a existência de programas de armas de destruição em massa, foram usados para atacar o país.

Tendo passado, numa década, da estabilidade garantida por duas superpotências mundiais a crises de dimensões estritamente regionais (Iugoslávia, Somália, Timor e Haiti), como priorizar as situações-limite e seus riscos? Quem decidiu que a Somália foi uma crise em 1993? Quem descobriu que o Iraque de Saddam Hussein, de repente, se tornara uma ameaça iminente? Preparar a agenda é estabelecer os termos do debate.

A Europa tem acompanhado os Estados Unidos tão de perto que não amadureceu sua identidade estratégica. Transformada em ator importante nas crises, a Comissão Europeia não é um Estado e não tem serviço de polícia ou de inteligência, ou qualquer ministério de assuntos estrangeiros capaz de informá-la apropriadamente. O Instituto de Estudos de Segurança da UE (IES), criado em 2002, tem apenas uma dezena de pesquisadores em tempo integral. Sua abordagem é baseada em uma visão eurocêntrica, mas podemos constatar nas missões que lhe são designadas um forte tropismo americano. Não é para menos: sua Carta de fundação aponta como objetivo “reunir acadêmicos, funcionários, peritos e tomadores de decisão dos Estados-Membros, outros países europeus, Estados Unidos e Canadá, para realizar uma análise prospectiva das questões de defesa e enriquecer o diálogo transatlântico sobre todos os assuntos de segurança, para melhorar a relação entre estas duas partes do mundo e ampliar a abordagem dessas questões em ambos os lados do Atlântico”.

O mundo militar-intelectual europeu é, assim, influenciado por uma ontologia atlântica, incapaz de pensar na globalização como algo diferente de uma projeção de sua própria imagem, um centro americano e uma periferia mais ou menos remota.

Problemas institucionais

Na realidade, a perspectiva estratégica europeia deveria se concentrar em um tema central: os Estados Unidos, responsáveis pela crise financeira, estratégica e civilizacional, terão amanhã a mesma legitimidade para garantir uma liderança global? Enredada em seus problemas institucionais, a Europa pode ou deve se tornar um poder mundial? Se sim, em que condições? Pensar nas relações internacionais exclusivamente como os estrategistas norte-americanos, enquanto as instituições europeias foram construídas no consenso e na negociação, demonstra paralisia intelectual.

A Europa deve ter a sua própria capacidade de avaliação de crises. Quais as que poderiam ameaçá-la e quais meios militares e não militares usar para resolvê-las? Deveria ela ter conceitos estratégicos com ênfase na neutralização da ameaça e não na sua destruição? Uma quantidade de estrategistas europeus está se perguntando o que os americanos pensam de um problema e não o que a Europa tem que pensar. Vemos, assim, a ascensão da China e a relação com a Rússia. A última reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em junho de 2009, não apresentou uma visão estratégica clara para a Europa, a não ser garantir a sobrevivência da única organização militar integrada no mundo, a qual a Europa não dispõe de meios suficientes para dirigir.

 

*Pierre Conesa é antigo alto-funcionário da Otan. Autor, entre outros, de Mécaniques du chaos: bushisme, prolifération et terrorisme, editora L’aube, La Tour d’Aigues, 2007.



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