O poder global e os desafios da indústria cultural sul-coreana
Com foco no público infantil, Guerreiras do K-Pop não aborda diretamente a questão da desigualdade na Coreia do Sul, mas apresenta críticas às pressões que a sociedade impõe às celebridades do cenário do K-Pop
No dia 20 de Agosto de 2025, o atual presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-Myung, se reuniu com a criadora do filme Guerreiras do K-Pop, Maggie Kang, e com integrantes do grupo feminino do gênero K-Pop Twice para discutir o futuro da indústria cultural sul-coreana, conforme transmitido pela emissora Arirang TV. A escolha dos participantes não foi por acaso: o filme, lançado em junho deste ano, se tornou na mesma data o segundo filme mais visto na na história da plataforma de streaming Netflix, com 210 milhões de visualizações, segundo o relatório Tudum da plataforma. Sua trilha sonora atingiu o topo das paradas musicais nos Estados Unidos, se tornando um dos maiores lançamentos do ano. O grupo Twice, além de participar da trilha sonora, recentemente encabeçou um dos maiores festivais musicais dos Estados Unidos, o Lollapalooza, em Chicago.
O sucesso estrondoso do filme e suas músicas também não é um acidente, e sim uma consequência de anos de investimento do governo sul-coreano, que desde 1994 criou uma pasta em seu Ministério da Cultura, Esportes e Turismo com orçamento destinado exclusivamente à Indústria Cultural (Dincer, 2023). De acordo com dados divulgados à imprensa pelo próprio ministério em 2023, seu orçamento chegou à 6.74 trilhões de wons (aproximadamente R$26,5 bilhões), sendo 12,5% desse valor destinado exclusivamente ‘para criar e promover conteúdo sul-coreano ao longo do ano, com o objetivo de lançar a Coreia como uma cultura de primeira linha, apreciada pelo público e reconhecida pelo resto do mundo’.

Esse fomento à cultura não ocorre somente no ambiente digital, mas é também impulsionado fisicamente pela presença dos centros culturais coreanos, com mais de 37 centros em 30 países, presentes em todos os continentes no mundo, com o primeiro, em Nova York, tendo sido inaugurado nos anos 1970. Estes centros buscam conectar as comunidades locais com a cultura coreana de forma acessível, fornecendo exposições de arte, clubes do livro, aulas de culinária, dança e até mesmo da linguagem coreana em suas instalações. De acordo com relatório divulgado pela Divisão de Cooperação Cultural do Ministério de Relações Exteriores da Coreia do Sul em 2007, os centros culturais coreanos têm como objetivo principal promover a Coreia no exterior por meio de intercâmbios culturais, fortalecendo sua imagem nacional e competitividade. Para isso, o governo implementa programas culturais sistemáticos e planejados, adaptados às características de cada país ou região, buscando também cooperar com organizações locais e empresas coreanas no exterior para gerar impacto positivo. Além disso, há também foco em programas voltados para jovens e na participação ativa em organizações internacionais, como a UNESCO, visando consolidar a diplomacia cultural da Coreia globalmente.
O sucesso da animação também é uma prova da consolidação sul-coreana em dois distintos mercados: o audiovisual e a música. Uma pesquisa foi conduzida pela Fundação Coreana para o Intercâmbio Cultural Internacional (KOFICE) em 2024, com 25 mil entrevistados em mais de 36 países sobre a popularidade da cultura coreana, 43% das pessoas responderam que os filmes sul-coreanos eram “amplamente populares” em seus respectivos países. No mercado da música, esse número subiu para 49,8% dos entrevistados.
Falando especialmente do mercado cinematográfico, a Coreia do Sul rompeu as barreiras do ocidente especialmente com o filme Parasita, ganhador do Oscar de Melhor Filme em 2019. O longa, que apresenta uma crítica social ao capitalismo do país, mostrou ao mundo também as questões de desigualdade social ainda presentes no país. Um ponto de discussão importante foram as chamadas banjihas, habitações subterrâneas que, no caro mercado imobiliário de Seul, abrigam milhares de famílias com menores condições de vida. Em 2022, após a morte de 13 pessoas causadas por inundações decorrentes de fortes chuvas, o governo sul-coreano anunciou que tais moradias não serão mais autorizadas para uso habitacional – uma solução que ignora as nuances do problema da desigualdade.
Com foco no público infantil, Guerreiras do K-Pop não aborda diretamente a questão da desigualdade na Coreia do Sul, mas apresenta críticas às pressões que a sociedade impõe às celebridades do cenário do K-Pop. Em uma conversa entre o presidente Lee Myung-Jae, Kang e integrantes do grupo Twice, o tema foi levantado: Jihyo mencionou como a agenda das artistas sul-coreanas é caótica e ressaltou que, atualmente, há “muitos olhos as observando”. Para ela, seria essencial que houvesse preparação adequada para a saúde mental antes mesmo do início da carreira, a fim de lidar com a pressão.
O debate sobre saúde mental entre celebridades sul-coreanas é amplo. Além de o país registrar a uma das maiores taxas de suicídios do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde, casos envolvendo figuras públicas têm se tornado cada vez mais comuns. O mais recente foi o da atriz Kim Sae-Ron, em fevereiro deste ano. De acordo com o The Guardian, seu suicídio foi motivado por ataques virtuais após ter sido detida por dirigir embriagada em 2022.
Na conversa, o presidente Lee declarou também: “Eu simpatizo com a crítica de que a indústria cultural coreana parece deslumbrante por fora, mas suas raízes não estão fortes o suficiente”, e enfatizou: “O governo criará raízes fortes, a partir de agora. Faremos dela uma indústria central com uma boa base. Pretendemos transformá-la em uma potência cultural de que possamos nos orgulhar.” Para isso, o presidente destacou que o governo formatará ainda mais investimentos à cultura, com objetivo de criar oportunidades ‘de forma equilibrada no campo da cultura e das artes para qualquer pessoa que possa se desafiar’.
Contudo, cresce o questionamento: será possível que uma indústria cultural continue se expandindo globalmente ignorando as nuances da desigualdade social e da saúde mental, temas que acabam chegando ao público internacional quando são levantados e retratados pela própria indústria?
Julia Lamberti é graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC (UFABC).
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