O portador da “verdade” - Le Monde Diplomatique

O NOVO CICLO TEVE INÍCIO

O portador da “verdade”

por Leonardo Ostronoff
21 de novembro de 2018
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Parece à primeira vista algo amador falar em verdade na real politik, mas no Brasil de 2018, de forma alguma

Em artigo publicado no dia 21 de maio deste ano, afirmei de forma polêmica o fim de um ciclo político iniciado com Lula em 2002, o qual se encerraria, na minha opinião, na derrota do PT em 2018 na campanha presidencial. Apontei três possíveis passos para esse partido após a prisão de Lula: 1) afirmar a inocência do ex-presidente, sustentando sua candidatura; 2) lançar um outro candidato do partido; 3) fazer autocrítica pública, fato que apostei que não aconteceria. As duas primeiras alternativas foram executadas, a campanha Lula Livre e a candidatura Haddad foram ações de um mesmo processo. O Lula Livre funcionou com expressão, atingindo repercussão internacional. Por sua vez, a campanha de Haddad procurou parar o curso do inevitável avanço da direita no Brasil. Com a vitória de Bolsonaro, a meta maior do plano conservador se cumpriu, o PT foi derrotado nas urnas por voto popular. Dessa maneira, o maior trunfo do PT se perdeu, a narrativa de que a maioria da população apoiava o partido foi desmontada. Como leitor de Foucault, a minha pergunta nunca é por que, mas como os processos se dão, como ocorrem. Importa desvendar a construção dos acontecimentos históricos, não com juízos de valor, mas descrevendo-os em seus pontos principais.

Sobre a vitória de Bolsonaro, não é suficiente dizer que é culpa do conservadorismo. De fato, isso é verdadeiro, mas não resolve a questão, pois ela é mais complexa. Lembremos, o antipetismo somente pôde existir por causa do petismo, assim, iniciamos um outro olhar e que revela conclusões importantes. A autocrítica, o passo deliberadamente desprezado, cobrou o preço de sua ausência no repertório. Os polos esquerda e direita somente se afastaram, onde o valor “verdade” ficou com o lado conservador. O mote da campanha Bolsonaro foi justamente um versículo bíblico que proclama isso: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:32). Parece à primeira vista algo amador falar em verdade na real politik, mas no Brasil de 2018, de forma alguma. Diante dos casos inúmeros de corrupção, a falta de autocrítica se tornou a cara da mentira. Somados a negação pública da crise econômica pela própria Dilma na campanha de 2014 e início do seu segundo mandato, a aparência da mentira “deu cola”.

Não é à toa a escolha de João 8:32. Uma população amargurada pela crise, mas frustrada com a quebra do sonho de um novo Brasil proposto por anos pelo petismo. A base do discurso de Bolsonaro estava pronta, na receita os erros do PT com sua insistência em não fazer autocrítica, uma crise econômica e a percepção de um clamor na população. Nesse ponto, a cereja do bolo: os “evangélicos”. Bolsonaro frequenta a igreja batista por dez anos, entende a linguagem desse segmento religioso, não por que se aproximou por interesse na eleição, mas porque vive isso. Pode-se discordar das ideias, aliás deve-se, mas sua posição firme e sincera na proclamação delas o fizeram portador da “verdade”. A homofobia, o machismo, as posições conservadoras, nada fez com que pudesse ser derrotado.

Os papéis estavam postos: o salvador não é alguém que nasceu em berço de ouro, mas na manjedoura. Vindo de origem simples, tal qual Lula, não foi necessário o apoio do ex-presidente, mas o decisivo foi a narrativa de vida. Haddad tinha Lula ao seu lado, mas Bolsonaro encarnou o papel que ansiava a população e que, outrora em 2002, foi do líder petista. Como dizem, na política não existe espaço vazio. Bolsonaro soube ler o Brasil pós-petismo e interpretar o papel correto no teatro da real politik. Mais do que isso, é símbolo de um novo ciclo político no país. Falta saber no enredo quem será seu antagonista, falando dos outros presidenciáveis de 2018, eles mostraram que ainda não estão eleitoralmente à altura do novo protagonista. Nem Haddad (todos os méritos por sua coragem), nem Ciro ou Marina puderam evitar a onda verde-amarela. Haddad até mesmo tentou surfar nela no segundo turno, ledo engano, somente o descaracterizou gerando uma rejeição maior. Porém, é preciso que se diga, cumpriu com honra seu papel partidário, o que somente o torna melhor do que entrou na eleição. Vai buscar ser a figura que liderará a oposição ao presidente eleito, tem chances boas, mas enfrentará resistência interna no PT e, principalmente, de Ciro Gomes. Este tem todo interesse já declarado de disputar as eleições mais uma vez em 2022, e para ter chances de vitória terá que tirar do PT a hegemonia da esquerda brasileira.

Dessa maneira, o primeiro conflito desse novo ciclo é dentro do campo da esquerda, justamente para ver quem será a figura do antagonista. Mas a campanha de Ciro em 2018 não surtiu o efeito esperado, imaginava-se um voo maior do que realmente aconteceu. No mínino, a passagem para o segundo turno era esperada por seus correligionários. A frustração foi grande, o que culminou nessa guerra aberta agora com o PT, uma questão de “orgulho ferido”. Lula interferiu no arco de alianças da candidatura de Ciro, acabando com a aliança entre PDT e PSB, o que custou caro para o Ferreira Gomes. Lula já deveria saber que tal fato não ficaria barato, em algum momento eles cobrariam a fatura. Não demorou muito, no segundo turno Ciro foi para Europa e não declarou apoio a Haddad, e seu irmão Cid Gomes realizou um discurso público em Fortaleza questionando o PT.

Seja quem vencer essa disputa, terá que construir uma narrativa que supere o mito construído por Bolsonaro ao longo dos últimos anos e que o fez ter sucesso inquestionável nas urnas. Rir de um presidente eleito costuma não surtir efeito, é preciso respeitar sua votação e entender como a vitória para ele chegou. Esse é o objetivo deste artigo, mostrar que para se fazer oposição a Bolsonaro não funcionam mais as antigas práticas dos tempos do governo petista, é preciso ir além. Isso não significa somente criar coisas novas, algumas antigas devem ser retomadas. Haddad antes da votação do segundo turno já começou esse processo, trazendo uma autocrítica pública: o PT precisa voltar para as bases. Admite-se pela voz do candidato presidencial que o partido se afastou delas, perdendo muito de sua democracia interna. Um partido dos trabalhadores não pode ser de cúpula, tal fato representa sua própria derrota ao passar dos anos. A falta de prévias na primeira campanha de Dilma Rousseff e do próprio Haddad para prefeitura de São Paulo já era um processo da centralização das decisões no PT, fato que chamei à atenção no meu artigo de 21 de maio.

Lula é um líder como poucos no mundo, mas ninguém pode acertar sempre. Democracia deve ser uma urgência, um valor do qual não abrimos mão. Participação é importante, não somente como discurso, mas na construção constante de um partido de massas. Haddad acertou, é preciso que as bases voltem a ser parte do cotidiano do partido e não somente ganhem relevância no período eleitoral. Infelizmente, essa campanha de 2018, ainda foi marcada pela ação de cúpula, fato escancarado com as visitas a Lula na prisão para tomada de decisões. Inclusive, isso foi sabiamente usado por Bolsonaro em sua estratégia eleitoral. Mas não bastam ações internas no partido, precisa-se disputar a sociedade, e para tanto, está colocada uma disputa de valores. A esquerda deixou que a direita fosse portadora deles no imaginário da população, e nesse ponto pouco importa se é ou não, como diz Maquiavel: “a um príncipe, portanto, não é necessário que de fato possua as sobreditas qualidades; é necessário, porém, e muito, que ele pareça possuí-las”. O presidente eleito conseguiu, para maioria da população, assumir esse papel dentro de uma narrativa convincente, o de portador da verdade em um Brasil mergulhado em corrupção. Por isso, a derrota da esquerda não foi simplesmente eleitoral, mas de hegemonia cultural, o que torna os truques de marketing, as sofisticadas táticas de voto, as generosas doações, insuficientes para reverter o quadro. É preciso algo que foi esquecido no meio do caminho do poder: valores. Isso explica o apelo evangélico na campanha do presidente eleito, justamente está jogando com esse imaginário. Uma de suas frases de campanha é simbólica: “Deus acima de todos”.

Esse é o como de uma vitória que o PT achou que nunca iria chegar. Bolsonaro construiu a narrativa de um homem simples, um menino caipira e que superou as dificuldades. Católico, mas que conseguiu se tornar representante de uma minoria religiosa, sempre à margem na sociedade brasileira, inclusive na esquerda: os evangélicos. Fica uma lição: é necessário, mesmo para vencer eleitoralmente, ser fiel à narrativa que se constrói ao longo dos anos, o papel do portador da verdade tem essa exigência. O novo ciclo teve início, aguardemos seus capítulos. Anseio que neles estejam a autocrítica petista, iniciada por Haddad de forma correta, e a compreensão de que esse jogo não se vence sozinho, mas em coletivo. A direita percebeu seu erro com a eleição de Lula em 2002 e se reinventou atingindo êxito, agora é a vez da esquerda.

 

*Leonardo Ostronoff é pós-doutorando do Departamento de Sociologia da USP/Fapesp.



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