O que a crise boliviana pode ensinar à esquerda latino-americana?
Os sinais otimistas dos anos 2000 deram lugar a uma crise generalizada no país, em um fenômeno que reflete e é refletido pela queda de Evo Morales e do MAS
Cerca de meio milhão de pessoas tomaram as ruas de La Paz, capital da Bolívia, no dia 5 de janeiro, em uma coluna que se estendia por mais de 27 quilômetros. Sob o slogan de “Bolívia Não Está À Venda”, a marcha foi convocada pela Central Operária Boliviana (COB) e teve início na cidade vizinha de Calamarca no dia 3 de janeiro, partindo em direção ao centro do poder boliviano. Composta por diversos setores da sociedade, de mineiros e magistérios a pais de família, o objetivo da greve era protestar a rejeição ao Decreto Supremo 5503.

O decreto em questão foi publicado no dia 17 de dezembro e editado pelo atual presidente da Bolívia, Rodrigo Paz (PDC), eleito em 2025. A medida determinou o fim dos subsídios governamentais aos combustíveis vendidos na Bolívia, o que fez com que o preço da gasolina e do diesel sofressem saltos de 86% e 160%, respectivamente. Como consequência, produtos de consumo básico e o transporte público também ficaram mais caros.
Além do fim dos subsídios, o decreto regulariza os contratos de tipo “fast track” (via rápida), em que projetos de mineração, agroindústria, energia e infraestrutura, provenientes do capital estrangeiro, podem ser aprovados em até 30 dias. Esses projetos contam com condições tributárias preferenciais por 15 anos, além de passarem por cima de mecanismos legais, ambientais e comunitários, podendo ser realizados, assim, em territórios indígenas e áreas protegidas, sem necessidade de autorização do parlamento e consulta com os povos originários.
Com 121 artigos, trata-se de medidas que visam liberalizar a economia boliviana, de modo a romper o “Estado de Tranca”, como é caracterizado pelo governo Paz. O termo descreve uma estrutura estatal que gera dificuldades em se modernizar e atrair investimentos. Em termos mais simples, verifica-se que as medidas diminuem e flexibilizam o Estado boliviano, em favor dos interesses do capital financeiro.
O que se vê são implicações esperadas da eleição de Paz em outubro de 2025, após apresentar-se como um candidato moderado – ou de “centro” – que prometia descentralizar o governo e promover o crescimento do setor privado. Quando comparadas aos últimos 20 anos da história boliviana, porém, as medidas parecem revelar um ponto de ruptura.
As linhas gerais da crise e a ruptura na política boliviana

De 2006 a 2025, a Bolívia foi comandada por apenas um partido: o Movimento Alternativa Socialista (MAS), personificado na figura do ex-presidente Evo Morales. Logo em seus primeiros anos, o projeto do MAS conseguiu transformar, a seu modo, o país, e chamou a atenção para o seu modelo de governo. Além da economia em constante e forte expansão, o povo boliviano viu a implementação de medidas históricas – como a nacionalização dos hidrocarbonetos e o reconhecimento de terras indígenas.
“No seu período à frente do governo, Morales estabeleceu um conjunto de políticas sociais em favor da maioria desprivilegiada da população […] Essas mudanças foram possíveis graças à adoção de medidas nacionalistas em relação ao principal produto de exportação do país, o gás natural, que permitiram um aumento dramático da arrecadação fiscal, com o uso dos excedentes financeiros em favor das políticas sociais”, completa o docente Igor Fuser[1].
No entanto, a partir dos anos 2010, o projeto do MAS começou a expor suas rachaduras, tanto externas quanto internas. A Bolívia passou a enfrentar uma grave crise cambial, energética e econômica, o que levou a uma inflação acumulada de 20,4% no ano de 2025, o maior índice em, pelo menos, 17 anos. No campo político, Evo Morales enfrentou acusações de inconstitucionalidade após ser eleito para o seu quarto mandato em 2019, tendo que renunciá-lo após ser sofrer represália (também de modo inconstitucional) pelas lideranças militares bolivianas. Posteriormente, o MAS sofreu um racha interno e viu Evo Morales, seu fundador, líder e rosto, desfiliar-se do partido.
Como resultado, Eduardo Del Castillo, candidato do partido nas eleições de 2025, conquistou 3,17% dos votos e passou longe de disputar o segundo turno, no qual Paz conquistou a presidência. O resultado expôs a implosão política e econômica do MAS, o qual parecia ter tudo sob controle há pouco mais de uma década. Em meio a seus cacos, resta-nos procurar algum aprendizado – ou algo próximo disso.
Evo Morales: o rosto, do auge a queda, do projeto MAS

Apesar de ter nacionalizado parte da produção de hidrocarbonetos, a Bolívia continuou dependente de parcerias e investimentos externos, de empresas como a Petrobras e a Repsol. Ao mesmo tempo, o país não era atrativo para outros aportes estrangeiros, em razão das companhias temerem novas mudanças regulatórias. “Assim, o país se manteve, apesar de todos os avanços sociais obtidos nos mandatos de Evo, na velha condição colonial de exportador de matérias-primas minerais, sem diversificar sua economia nem desenvolver as atividades industriais, dependente de exportações de todos os tipos de manufaturados”, destaca Igor.
Desse modo, ao começar a perder sua capacidade de extração de hidrocarbonetos e diminuir as exportações, a partir da segunda metade dos anos 2010, a nação passou a ter seu balanço de pagamentos gravemente afetado. São essas as linhas gerais da crise econômica boliviana, o professor Maurício Santoro[2], detalhou ainda mais a situação: “Ao longo do governo do presidente Luis Arce, havia uma séria crise no comércio exterior, com falta de divisas e perda da capacidade do país até para importar produtos básicos, como alimentos, gasolina ou medicamentos”. Em agosto, repercutiram notícias sobre a escassez e aumento do preço do pão em cidades como La Paz, Santa Cruz e Cochabamba, graças à falta de dólares para importação de trigo.
Na seara política, o professor relembra a primeira eleição de Evo Morales como um marco importante para a Bolívia, abalizado pelo crescimento econômico e de políticas públicas, bem como pelo esforço em reconhecer povos indígenas e movimentos sociais. Os problemas posteriores, porém, vieram das próprias decisões de Morales, “alimentando a polarização ideológica e até correntes violentas e extremistas de oposição”, afirma Maurício.
O ex-presidente adotou medidas e realizou manobras institucionais para se manter no poder além do que se permitia, tanto que, em 2019, participou de sua quarta eleição seguida e, mesmo que tenha renunciado ao cargo após pressão popular e militar, o MAS retomou o poder em 2020 na figura de Luís Arce, ex-ministro da economia de Morales. Mauricio caracteriza esse momento como “o início do fim do longo ciclo do MAS no governo da Bolívia”. Em meio a conflitos políticos e declínio econômico, a esquerda perdeu força e a oposição se radicalizou. A conjuntura resultou numa tentativa não sucedida de golpe das forças armadas em 2024.
Segundo o professor, a situação ainda expõe uma das maiores fragilidades da esquerda sul-americana do século XXI: fortalecer seus partidos políticos. O que se verifica é uma concentração de poder em certos líderes carismáticos, em detrimento da renovação partidária, “degenerando (os governos) em culto à personalidade, em detrimento das liberdades civis e políticas”. Não é à toa que Evo Morales participou de quatro eleições (e tinha planos de concorrer a uma quinta em 2025). Para Maurício, essa tendência se manifestou com mais vigor na Venezuela e, justamente, na Bolívia.
Conforme o docente, caso Morales e Chávez tivessem se limitado a dois mandatos e contado com seus respectivos sucessores naturais, ambos os países poderiam ter evitado as graves crises e rupturas que enfrentaram. Embora, no Brasil, essa tendência não tenha se manifestado de forma idêntica – uma vez que Lula respeitou o jogo democrático e indicou seus sucessores, Dilma Rousseff e Fernando Haddad –, o atual presidente brasileiro concorrerá, em 2026, ao seu quarto mandato, podendo igualar o número alcançado por Evo Morales em 2019.
Nesse sentido, Igor analisa a situação específica da Bolívia: “O alto grau de prestígio popular e os resultados positivos das políticas implementadas claramente induziram Evo Morales a acreditar que somente ele tinha condições de governar a Bolívia de acordo com os interesses nacionais e populares. Morales passou a governar de forma autocrática, sem prestar satisfações a ninguém, sem ter de enfrentar os limites e contrapesos que caracterizam o regime democrático”. Ainda segundo o docente, o MAS sempre operou mais como uma federação de correntes políticas e lideranças sociais do que um partido em si, cujo objetivo se voltava para a distribuição de cargos no aparelho estatal e o acesso aos recursos financeiros públicos.
As linhas que compunham toda essa crise (política, econômica e institucional) se encontram no vértice culminante que dividiu o MAS em 2025. De um lado, se postaram Evo Morales e os apoiadores de seu projeto de reeleição, do outro estavam Luís Arce e aqueles que admitiam que Morales havia cometido atos ilegais e autoritários para se manter no poder. “Era inevitável que o partido se fragmentasse frente a temas tão controversos, beneficiando as oposições conservadoras”, explica Maurício.
Como resultado, Morales desfiliou-se de seu antigo partido, do qual foi o fundador e líder por mais de duas décadas, e não conseguiu formalizar sua candidatura às eleições. Do lado do MAS, Eduardo Del Castillo conquistou pouco mais de 3% dos votos, e teve-se que assistir a eleição de um presidente fora do partido pela primeira vez em 20 anos.
A virada do jogo político; quais são os limites da esquerda latino-americana?

O quadro da crise boliviana, no entanto, não é composto de traços exclusivos. Desde o início da década de 2020, percebe-se uma prevalência da direita nas eleições latino-americanas, em países como Argentina, Chile, Equador, Honduras e Paraguai. O cenário, inclusive, contribuiu para que o MAS se visse sem o apoio de outros governos vizinhos durante as eleições de 2025, em meio a fragmentação ideológica do continente.
A despeito das similaridades, no entanto, Maurício também aponta para as diferenças de Paz em relação aos outros Chefes de Estados latino-americanos. O professor não a enxerga como parte das novas correntes populistas que têm crescido na América Latina. Filho do ex-presidente Jaime Paz, o atual governante “é mais um resquício de outras épocas do que um representante dos novos tempos”, explica.
O fato é que o presidente tem um enorme desafio diante de si: resolver finanças públicas, conter a inflação e recuperar as divisas internacionais. “O déficit público do país está acima de 10% há vários anos. Isso é insustentável”, explica Maurício. Para tal, materializa suas promessas de diminuir o papel do estado, vide o Decreto Supremo 5503, mas também tem feito valer sua imagem de “direitista moderado” que se afasta dos extremos, encaixando-se na abordagem mais pragmática descrita pelo professor.
Em 16 de janeiro, o COB assinou um acordo junto ao governo de Paz, no qual foi acertado o fim dos bloqueios e protestos iniciados em dezembro que se intensificaram na marcha “Bolívia Não Está À Venda”. Em contrapartida, o Decreto Supremo 5503 foi revogado oficialmente e substituído pelo Decreto Supremo 5516, elaborado de forma conjunta ao COB. De qualquer modo, as medidas ainda eliminam parcialmente os subsídios aos hidrocarbonetos, beneficiando importadores e seguindo sua lógica de ajuste fiscal.
O desfecho parece conformar-se com as expectativas do professor em relação ao presidente boliviano, que “precisa lidar com uma oposição forte e bem-organizada, de ampla base sindical”. Ao menos até agora, Paz aparenta atingir seu ideal conciliador, entre políticas austeras – e impopulares – e fortes manifestações de uma população habituada aos programas sociais que caracterizam o projeto MAS.
Sob o ângulo da esquerda latina-americana, a Bolívia apresenta-se como “uma versão extrema de desafios que os progressistas enfrentam em outras nações”, diz o professor. Segundo ele, a experiência boliviana se traduz em muitas lições, que podem ser condensadas em três principais:
No campo institucional, cabe esses movimentos respeitarem o jogo democrático; não concorrer a quatro eleições seguidas seria um começo, mas é vital fortalecer as instituições nacionais. Do ponto de vista econômico, é preciso reconhecer e entender a importância de implementar práticas econômicas ortodoxas, “como cuidar do equilíbrio das finanças públicas e ter regras estáveis para o investimento privado”, explica Maurício. Por fim, depreende-se a necessidade de não amparar-se no conforto fácil do culto à personalidade de um líder carismático; mais do que isso, as lideranças partidárias precisam renovar-se.
2030 ainda está longe, mas o Brasil precisa lembrar-se que nem Evo Morales conseguiu disputar uma quinta eleição.
Davi Rocha Daniel é jornalista.
[1] Igor Fuser é doutor em Ciência Política pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) e professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).
[2] Maurício é Doutor em Ciência Política e professor Relações Internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

