O que a explosão do Iraque prenuncia - Le Monde Diplomatique

ESTADOS FANTASMAS

O que a explosão do Iraque prenuncia

por Peter Harling
7 de julho de 2014
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A ofensiva do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (EIIL) surpreende só aqueles que se desinteressaram pela evolução do país após a retirada das tropas norte-americanas. A incompetência do poder central e sua política favorável aos xiitas criaram as condições para uma insurreição sunitaPeter Harling

 

O que a explosão do Iraque prenuncia

A ofensiva do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (EIIL) surpreende só aqueles que se desinteressaram pela evolução do país após a retirada das tropas norte-americanas. A incompetência do poder central e sua política favorável aos xiitas criaram as condições para uma insurreição sunita

POR PETER HARLING*

O recente aumento de poder de uma força jihadista sunita no noroeste do Iraque é espetacular, no sentido próprio do termo. Ele se assemelha a um teatro vaudeville ruim: há no país, por assim dizer, um terrorista escondido no guarda-roupa. Quando ele aparece em cena, o primeiro-ministro xiita, Nouri al-Maliki, finge surpresa, grita “assassino” e chama seus amigos para ajudá-lo a expulsá-lo de casa. No entanto, foi ele mesmo quem abriu a porta para esse jihadista e o alimentou. Seus amigos, principalmente iranianos, sabem disso, mas têm interesse em participar desse jogo, pois o terrorista é a desculpa ideal para eclipsar os procedimentos daquele que, no fim das contas, é seu homem.

Então, em junho de 2014, jihadistas sunitas, operando sob o nome de Estado Islâmico no Iraque e no Levante (EIIL, também conhecido por sua sigla em árabe, Daash), tomaram, quase sem precisar lutar, Mossul, segunda ou terceira cidade mais importante do país, dependendo dos dados usados como referência. Outras localidades, nessa zona com dominância árabe sunita, caíram rapidamente, à medida que o aparelho de segurança se desintegrava. O Estado iraquiano abandonou seus equipamentos militares, entre os quais veículos fornecidos pelos Estados Unidos, deixou para trás seus muitos prisioneiros – geralmente detidos de maneira arbitrária – e cerca de US$ 500 milhões guardados em uma sucursal do Banco Central. Grupos armados menos radicais se uniram ao movimento, atribuindo-se uma parte claramente exagerada dessas vitórias. Entre os moradores que não fugiram, alguns celebram o que chamam de uma “libertação”, um “levante”, ou até mesmo uma “revolução”.

Os curdos se aproveitaram da ocasião para tomar outra cidade importante, Kirkuk, zona tão rica em recursos petroleiros quanto em questões de identidade, cujo controle eles disputavam havia diversos anos com o governo de Bagdá, sem falar de outras minorias locais. Essa segunda demonstração de força, no entanto, passou quase despercebida, já que toda a atenção estava focada no avanço dos jihadistas. Se acreditarmos em Al-Maliki, em seus aliados xiitas, na administração norte-americana e em boa parte da mídia, sua ofensiva parecia irresistível: todos diziam temer que eles tomassem os mausoléus xiitas de Samarra e os destruíssem, despertando uma nova guerra de fé, ou conquistassem a capital e estabelecessem um vasto emirado cobrindo grandes porções do Iraque e da Síria.

 

Em 2012, sunitas manifestam-se pacificamente

Em reação, o primeiro-ministro apelou para a mobilização geral no seu campo. Diversas milícias confessionais, cuja expansão ele tolerou, e diversas figuras xiitas seguiram seus passos. O Irã enviou rapidamente reforços encarregados de organizar esses contingentes paramilitares e, claramente, de combater a seu lado. Os Estados Unidos enviaram dois porta-aviões para a região desse teatro de operações que o presidente Barack Obama se esforça, no entanto, desde 2011, para deixar definitivamente.

Enquanto isso, as questões mais elementares levantadas por esse desastre continuam sem resposta. Como um aparelho de segurança gigantesco, entre os mais densos do mundo, com 1 milhão de homens armados (numa população de cerca de 25 milhões de pessoas), pode desaparecer assim diante dos jihadistas? Como explicar a popularidade relativa destes, se levarmos em conta as memórias assustadoras deixadas por seus predecessores, como a Al-Qaeda, quando, em 2007, eles dominavam a cidade de Mossul e ali decapitavam quase todo mundo nas ruas? Por que os notáveis sunitas locais, como a família Noujeifi, aliada de Al-Maliki, se revelaram incapazes de reunir qualquer tipo de apoio para enfrentá-los? Enfim, e principalmente: onde está o balanço do primeiro-ministro que deixa o cargo e, fortalecido por seu resultado nas recentes eleições parlamentares, pretendia brigar por um terceiro mandato?

Aquele que inicialmente era apenas uma personalidade inconsequente do pequeno partido islâmico xiita Al-Daawa ascendeu ao cargo de primeiro-ministro em 2006 como um homem de compromisso, precisamente porque ele parecia não ameaçar ninguém. Na época, a guerra civil entre grupos armados sunitas e milícias xiitas promovia uma destruição. Todos vinham de um mesmo movimento de resistência à ocupação norte-americana, mas divididos por um sentimento crescente de perseguição recíproco. O primeiro-ministro apoiou a ação dos segundos, utilizados como forças supletivas na luta contra os primeiros.

Sua imagem e sua estratégia política mudaram radicalmente em 2008, quando os Estados Unidos lhe deram os meios de sair de uma lógica puramente confessional. Tratava-se de constituir milícias sunitas cooptadas pelo governo para combater a Al-Qaeda e retomar o controle sobre as milícias xiitas cada vez mais descontroladas. Na prática, o papel de Al-Maliki foi mínimo. No entanto, ele ficou com a aura de um homem de Estado que se elevou para além das lógicas de guerra civil para levar o país à estabilidade.

Depois, ele continuou a se identificar com esse papel de salvador, desenvolvendo um culto à personalidade que pegava emprestado do imaginário de Saddam Hussein. Essa aproximação não parecia preocupar seus simpatizantes xiitas. Em nome do sofrimento imputado ao regime precedente, ou de uma pretensa “ingovernabilidade” do povo iraquiano, decididamente turbulento demais, eles pareciam aspirar apenas a ver surgir um chefe do mesmo estilo que o antigo tirano, mas que, dessa vez, tivesse sua religião.

A luta contra o “terrorismo” se tornou rapidamente o principal argumento de Al-Maliki, permitindo-lhe dar continuidade a diversos objetivos simultaneamente. Ele pôde continuar concentrando cada vez mais poderes nas mãos, estender o controle sobre o enorme aparelho de segurança legado pelo ocupante norte-americano e colocá-lo a serviço de seus interesses políticos. A partir de dezembro de 2010, ele acumulou os cargos de primeiro-ministro, comandante-chefe das Forças Armadas, ministro da Defesa e ministro do Interior. O medo do vazio contribuía para que se evitasse qualquer tentativa de substituí-lo e lhe garantia apoio suficiente por parte tanto dos Estados Unidos quanto do Irã. Desde sua eleição, em 2008, Obama desejava retirar suas tropas o mais rápido possível; e Teerã apreciava um homem capaz de se manter na chefia do Estado iraquiano ao mesmo tempo que cuidava para nunca contrariar os interesses de seu vizinho.

O primeiro-ministro iraquiano se distingue pela utilização ilimitada que fez do recurso da “luta contra o terrorismo”. Ele se afastou deliberada e sistematicamente dos sunitas, ao mesmo tempo que fragilizava o Estado graças a um trabalho incessante de destruição, e isso de maneira ainda mais inexplicável, já que ele se encontrava em posição de força. Na Síria, Bashar al-Assad fez o mesmo a partir de 2011, mas sob a pressão de um vasto movimento de revolta popular apoiado por agentes externos que conclamavam abertamente à derrubada de seu regime. Al-Maliki, por sua vez, escolheu “a frio” negligenciar, e até mesmo desmantelar, as milícias sunitas, frequentemente de composição tribal, que lhe foram legadas pelos Estados Unidos, e manter um aparelho de segurança cada vez mais confessional e corrompido. Qualquer forma de oposição sunita era tachada como “terrorismo”, dando espaço para uma multiplicação das prisões e das detenções arbitrárias, assim como para incontáveis extorsões.

Os sunitas iraquianos se revoltaram contra tal tratamento, inspirados pelos levantes de 2011 nos países vizinhos, ao mesmo tempo que foram acalmados por uma militarização desastrosa da oposição na Síria – sem falar da lembrança dolorosa de sua revolta durante a recente guerra civil. A partir de 2012, eles se organizaram para expressar pacificamente seu descontentamento. As primeiras manifestações se transformaram em protestos pacíficos permanentes nas grandes praças das cidades sunitas do país. Suas reivindicações sempre pediam um reequilíbrio do Estado, a fim de lhes acordar seu espaço. Mas Al-Maliki não as escutou. A lenta recrudescência dos atentados com bomba durante esse período não serviu de alerta para ele, mas de pretexto para se obstinar.1 Pouco a pouco, a opção pela violência, que tinha se tornado um contraste no meio sunita, começou a galgar seu caminho para além das camadas mais radicalizadas.

Em paralelo, o primeiro-ministro decidiu assumir a causa de Al-Assad, num conflito sírio que tomava um caminho confessional, lutando contra um regime reduzido ao seu componente alauita e a uma oposição sunita. Ele renunciou a qualquer crítica da repressão praticada por seu vizinho, que no entanto crescia em poderio e adotava formas cada vez mais abomináveis, e submeteu sua proposta de mediação. Abriu as portas de suas fronteiras aos xiitas que se ofereciam como voluntários para irem combater na Síria, numa espécie de “esforço de guerra” conduzido pelo Irã. Esses jihadistas, animados por uma visão milenarista que anunciava o fim do mundo, se puseram a transitar sem dificuldade pelo aeroporto de Bagdá ou pela estrada que levava para a Síria – duas infraestruturas sensíveis estreitamente controladas pelas forças governamentais –, mas também a difundir uma propaganda de ódio confessional, a desfilar nas ruas e a se organizar em milícias no próprio Iraque.

O homem que pretendia ter colocado fim à guerra civil parecia então trabalhar incessantemente para ressuscitar seus agentes. O que diziam a respeito as poderosas embaixadas dos Estados Unidos e do Irã? Até a crise de Mossul, pelo menos, elas estranhamente faziam eco uma à outra, garantindo ao poder iraquiano seu apoio incondicional. E, no entanto, os sinais de um desastre próximo se multiplicavam. O reaparecimento de grupos armados sunitas e de milícias xiitas deveria ter sido suficiente para dar o alerta.

Ainda mais grave, a erosão das estruturas estatais anunciava o roteiro catastrófico que o Iraque enfrenta hoje. A competência e a coesão do aparelho securitário diminuíam à medida que Al-Maliki reforçava sua politização e tolerava um nível de corrupção digno de uma república das bananas. O governo tornava-se essencialmente um instrumento de retribuição clientelista; e a participação – aberrante – de seus membros nas últimas eleições parlamentares explica em parte o resultado do primeiro-ministro.

Este, ao diminuir o papel da Assembleia, rodear-se apenas por um círculo de aproveitadores e trair alegremente suas promessas, se privava das alavancas políticas para administrar as crises. O sistema judiciário, alinhado, também não oferecia nenhum recurso verossímil. No plano econômico, quase nenhum projeto de desenvolvimento tinha visto a luz do dia, de tanto que a fonte petroleira era objeto de uma pilhagem sistemática. Em outros termos, o poder de Al-Maliki estava vinculado a suas táticas de sobrevivência, que destruíam os fundamentos institucionais de um país já muito frágil.

 

Dirigentes aumentam e procuram o conflito

Esse processo de fragilização, no entanto, beneficiava diversos agentes iraquianos, fossem aliados políticos do primeiro-ministro, que tiravam sua parte, ou seus rivais, que viam ali a promessa, a longo prazo, de um enfraquecimento de seu adversário. O Irã, as milícias xiitas e o governo regional curdo tiravam proveito do fato de Bagdá continuar o mais frágil e influenciável possível. Os Estados Unidos, por sua vez, eram os abonados ausentes: sua “estratégia” de retirada para encerrar uma década de ocupação militar consistia em fechar os olhos sobre tudo o que pudesse retardá-los e cruzar os dedos.

Resultado: quanto mais Al-Maliki se revelava sectário e inapto, mais ele fracassava e mais consolidava sua posição. No final de 2012, antes que as manifestações sunitas tomassem a amplitude que tomaram, suas perspectivas de reeleição pareciam limitadas. A frustração era palpável, principalmente nos meios xiitas: nesse momento, o país estava relativamente estável e, no entanto, nada parecia progredir. Um ano depois, o Iraque estava de novo devastado pela violência, com uma média mensal de cerca de mil mortos, como ao longo dos anos negros de 2006-2007, e a popularidade de seu homem forte tinha crescido novamente. Mesmo depois da tomada de Mossul, sua partida iminente não parecia garantida: os xiitas aumentaram as fileiras atrás dele, o Irã lhe dava sinais de lealdade, e o medo do vazio continuava forte, inclusive entre os agentes mais ambivalentes.

Essa crise levanta muitas questões, mas estaríamos errados ao nos limitarmos às conclusões mais evidentes: a responsabilidade norte-americana nesse desastre, a personalização do problema por meio da figura de Al-Maliki e a ameaça do “terrorismo”. Aquilo de que menos se fala, e que ocupa um lugar central, é a prática do poder e a natureza das instituições. A personalidade do primeiro-ministro é secundária: é todo um contexto que não apenas lhe permitiu se comportar assim, mas que o recompensou por isso. Quando, em março de 2014, ele organizou uma grande conferência internacional sobre a “luta contra o terrorismo”, por exemplo, a ONU participava do espetáculo e aplaudia na sala.

O mal, no fim das contas, é uma praga regional. Quanto mais Al-Assad é bem-sucedido em sua estratégia de apodrecimento, mais ele parece se impor como parte da solução ao invés de parte do problema. O marechal Abdel Fattah al-Sissi, que dirige oficialmente o Egito desde junho, concebe a política como o faria um oficial da inteligência militar, mas sua eleição – e, como sempre, o medo do vazio – basta para o mundo exterior lhe dar um cheque em branco. No Bahrein, a família reinante não cedeu em nada, mas não sofre nenhuma consequência.

A prática do poder que se espalha consiste em abandonar qualquer ambição de governar na escala de um Estado-nação. Os regimes nem sequer tentam mais ultrapassar os abismos existentes no seio de suas sociedades, seja pela ideologia, pelo desenvolvimento ou pela repressão. Eles investem nessas linhas de fratura, as aumentam e procuram o conflito. Ao radicalizar uma parte de sua sociedade, eles consolidam sua posição em uma outra e economizam qualquer programa construtivo: o temor do que poderia substituí-los basta para mantê-los no poder. Eles tendem também a fragilizar o caráter nacional de suas instituições ao privá-las de sua autonomia, de modo a se tornarem indispensáveis. Em seguida vão se vender no estrangeiro, em nome da “guerra contra o terrorismo”, e fortalecidos por uma eleição “democrática” que reflete o voto histérico de uma parcela da sociedade e o boicote funesto da outra.

O Iraque dá uma boa ideia de para onde vai, a longo prazo, tal prática do poder. Só nos resta perguntar: por que diabos entrar nesse jogo?

 

Peter Harling é pesquisador, viveu em Bagdá de 1998 a 2004.



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