O que Mubi e Boiler Room revelam sobre as limitações e contradições do setor artístico-cultural diante da questão palestina?
A análise desses casos exige um olhar crítico sobre as próprias limitações das respostas oferecidas tanto pelas plataformas quanto pelo movimento BDS
A recente polêmica envolvendo duas plataformas culturais de prestígio internacional – a Boiler Room e a Mubi – expõe com particular nitidez as contradições estruturais que atravessam o setor artístico-cultural contemporâneo em sua relação com a questão palestina. Embora ambas se apresentem publicamente como espaços comprometidos com valores progressistas e mantenham discursos de solidariedade à causa palestina, esse posicionamento permanece circunscrito ao plano simbólico. Na prática, seguem operando a partir de relações contratuais, logísticas e financeiras que estabelecem vínculos diretos ou indiretos com instituições e agentes envolvidos no projeto colonial israelense de ocupação dos territórios palestinos.
Este descompasso entre discurso e ação representa uma inconsistência ética comum nas contradições de mercado, além de revelar os limites estruturais da adesão performativa à luta palestina, característica de uma parcela significativa da elite cultural global cujo compromisso radical se encerra nas estratégias de marketing e construção de marca. Diferentemente de produtoras de cultura de massa mais genéricas (como Netflix ou Spotify), essas plataformas atuam como curadoras que legitimam determinados estilos, discursos e autores alternativos, supostamente mais críticos e engajados politicamente, enquanto mantêm práticas de conciliação, exclusão ou neutralização de vozes dissonantes.
A aquisição da Boiler Room: capital financeiro e cumplicidade colonial
O caso da Boiler Room ilustra de forma paradigmática como as estruturas do capital financeiro global se entrelaçam com o aparato colonial israelense. Em janeiro de 2025, uma investigação conduzida pelos coletivos “Toronto Writers Against the War on Gaza“, “Ravers for Palestine” e “DJs Against Apartheid” revelou que a plataforma havia sido adquirida pela Superstruct Entertainment, subsidiária da multinacional KKR & Co.
A KKR não representa apenas mais um fundo de investimento. Trata-se de uma das maiores gestoras de capital privado do mundo, com participações estratégicas em empresas diretamente envolvidas no projeto de colonização da Palestina. A multinacional mantém investimentos na Axel Springer, empresa alemã que promove ativamente os assentamentos ilegais israelenses na Cisjordânia, na Guesty, software israelense que facilita o aluguel de propriedades em territórios ocupados, e na Global Technical Realty, responsável pela construção de infraestrutura de dados que serve aos interesses militares e de vigilância israelenses.
Confrontada com essas evidências, a Boiler Room publicou em 25 de março uma nota oficial reconhecendo a venda, mas tentando estabelecer uma separação entre suas posições editoriais e os interesses de seus proprietários. A plataforma afirmou manter “independência editorial para continuar apoiando a Palestina e outros povos oprimidos”, enquanto simultaneamente anunciava sua adesão à Campanha Palestina pelo Boicote Acadêmico e Cultural a Israel (PACBI) e ao movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS).
Mubi e o financiamento do complexo militar-tecnológico
O caso da Mubi segue trajetória similar, embora com contornos distintos. A plataforma de streaming voltada ao cinema autoral enfrentou críticas intensas após aceitar investimento de 100 milhões de dólares da Sequoia Capital, firma de capital de risco do Vale do Silício que recentemente destinou 10 milhões de dólares à startup de defesa Kela, fundada por ex-membros da inteligência israelense. Sequoia Capital, firma do Vale do Silício, investiu na Kela, uma startup de defesa criada por ex-agentes da inteligência israelense, tendo liderado uma rodada inicial de 11 milhões de dólares. Até maio de 2025, a Kela obteve um aporte adicional de US$ 60 milhões que elevou o total captado a US$ 100 milhões, também com participação dos mesmos investidores.
A controvérsia explodiu nas redes sociais através de uma campanha que acusava a Mubi de se beneficiar com o genocídio palestino, com o coletivo Film Workers for Palestine exigindo a devolução do investimento. A resposta da empresa seguiu o mesmo padrão de separação entre financiamento e valores editoriais, argumentando que “as crenças individuais de investidores não refletem os valores da Mubi” e que a Sequoia representa apenas uma entre diversas fontes de financiamento utilizadas desde sua fundação.
Os limites da cumplicidade “involuntária”
A análise desses casos exige um olhar crítico sobre as próprias limitações das respostas oferecidas tanto pelas plataformas quanto pelo movimento BDS. A PACBI, ao dar “boas-vindas” à Boiler Room, adota uma postura que, embora estrategicamente compreensível, corre o risco de normalizar a separação entre estruturas econômicas e posicionamentos políticos. (PACBI welcomes Boiler Room’s endorsement).
A distinção estabelecida pela PACBI entre “cumplicidade voluntária e involuntária” revela-se problemática quando aplicada a organizações que, apesar de não deterem controle absoluto sobre seus financiamentos, mantém poder significativo de negociação e escolha. Tanto a Boiler Room quanto a Mubi não se encontram na mesma situação de vulnerabilidade de artistas individuais presos a contratos com grandes gravadoras, mas operam como empresas com capacidade de decisão sobre parcerias estratégicas e fontes de financiamento.
A celebração dessas adesões tardias ao BDS – motivadas fundamentalmente pela pressão pública e não por convicção prévia – sugere uma flexibilização perigosa dos critérios de avaliação da cumplicidade com o projeto colonial israelense. Quando organizações culturais que se beneficiam diretamente de capitais vinculados ao aparato militar-colonial são tratadas como vítimas do sistema, corre-se o risco de esvaziar o próprio significado político do boicote.

Economia política da cultura e solidariedade performativa
Os casos em análise devem ser compreendidos dentro da lógica mais ampla do ativismo de marca, estratégia através da qual organizações culturais constroem sua identidade comercial mediante a apropriação seletiva de causas progressistas. Essa dinâmica se insere no contexto do capitalismo de plataforma contemporâneo, no qual a diferenciação no mercado passa crescentemente pela construção de narrativas de engajamento político e responsabilidade social.
A contradição fundamental reside no fato de que essas plataformas operam simultaneamente como espaços de legitimação cultural e como vetores de acumulação capitalista inseridos em cadeias globais de valor que frequentemente contradizem seus discursos progressistas. A Boiler Room e a Mubi não são apenas canais de distribuição cultural, mas agentes ativos na construção de capital social e hierarquias simbólicas que determinam quais vozes, estilos e narrativas ganham visibilidade e legitimidade.
Nesse sentido, a manutenção de vínculos financeiros com o aparato colonial israelense enquanto se proclama solidariedade à Palestina representa mais do que uma simples inconsistência ética. Constitui uma forma específica de violência simbólica que esvazia o conteúdo político da solidariedade, transformando-a em elemento decorativo de estratégias de marketing dirigidas a públicos progressistas.
Para além da performance
A análise desses casos sugere a necessidade de desenvolvimento de critérios mais rigorosos para avaliação da autenticidade do compromisso com a causa palestina no setor cultural. A simples adesão retórica ao BDS, desacompanhada de mudanças estruturais nas práticas de financiamento e parcerias comerciais, não deveria ser suficiente para absolver organizações de sua cumplicidade com o projeto colonial.
É necessário reconhecer que a estrutura do capital financeiro global torna praticamente impossível evitar conexões indiretas com empresas e projetos ligados a Israel. No entanto, essa constatação não deve servir como justificativa para a normalização de vínculos diretos e estratégicos com agentes centrais do aparato colonial. A diferenciação entre cumplicidade voluntária e involuntária deve ser aplicada com maior rigor, considerando o grau de autonomia e poder de decisão de cada organização.
Mais fundamentalmente, esses casos revelam a necessidade de questionar os próprios limites estruturais de uma solidariedade capitalista que permanece confinada ao âmbito cultural, sem questionar as bases econômicas e políticas que sustentam o projeto colonial israelense. Enquanto a crítica permanecer restrita ao plano simbólico, sem enfrentar as estruturas materiais do capitalismo globalizado que tornam possível a reprodução do colonialismo sionista, a solidariedade com a Palestina continuará sendo, em larga medida, uma performance destinada ao consumo de públicos progressistas.
A verdadeira solidariedade com a causa palestina exige ir além da adoção de discursos corretos, demandando transformações concretas nas práticas organizacionais que rompam efetivamente com as estruturas de cumplicidade colonial. Só assim será possível superar as contradições que transformam plataformas culturais progressistas em vetores involuntários – mas não menos efetivos – da normalização do projeto sionista. Não nos enganemos com a retórica de que boicotar essas plataformas alternativas equivale a boicotar a cena artística independente. Podemos não estar falando das corporações mais ricas do mundo, mas ainda assim estamos falando de milionários, talvez bilionários. Diferente do povo palestino, eles não passariam fome se recusassem colaborar com gigantes sionistas.
Kelvin Araújo da Nóbrega Dias é doutorando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pernambuco (PPGS/UFPE). Internacionalista e mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba (PPGRI/UEPB).
Outras fontes consultadas:

