LUZINETE

“O que você faria se ganhasse um milhão de reais?”

Celebradas são as mulheres que falam: sonham, se organizam e realizam o que lhe tocam as almas

  1. Não compraria parcelado;
  2. nunca mais passaria roupa;
  3. nunca mais limpar a casa;
  4. nunca mais pagar aluguel
  5. não andar mais a pé;
  6. viajar “o país”;
  7. ajudaria a minha família;
  8. comprar uma fazenda;
  9. compraria gados;
  10. aumentar meu depósito

Em resposta à pergunta no livro Educação Sebrae: aprender sempre é um bom negócio, Luzinete, mulher negra, 42 anos, dona de casa, em 2004, listou suas prioridades. O que aparece como uma revelação: que o trabalho doméstico, quando naturalizado como obrigação feminina, pode se tornar justamente aquilo de que uma mulher deseja se libertar. E, na mesma medida, fica evidente que a projeção de superar a pobreza, na busca pela emancipação, só é possível se andar de mãos dadas com a organização financeira e a luta pela casa própria. Quem sabe, a partir dessas conquistas que parecem ser fundamentais, os sonhos se tornem realidade – viajar o país, ajudar a família, comprar uma fazenda, gados e, certamente, expandir o comércio próprio.

Crédito: Arquivo Pessoal

Luzinete, conhecida como Zeza, nasceu no Paraná, não sabia dizer quando migrou para São Paulo. Foi a segunda filha de uma mulher nordestina, analfabeta e mãe solo de sete filhos. Começou a trabalhar aos sete anos, menstruou aos onze, sem saber o que era aquela mancha vermelha que apareceu em sua calça enquanto estava limpando o quintal da família que a tinha contratado – uma família nipo-brasileira na região do Carrão, em São Paulo. Aos 21 anos se casou com Gildásio, um rapaz descolado, atrevido, sem papas na língua e irmão mais velho de seis irmãos, que buscaram em São Paulo o sonho de uma vida melhor.

Depois de dois anos casada, engravidou do seu primeiro filho – perdeu na gestação. Um ano depois, engravidou de seu primogênito. Era um bebê carequinha, comprido, negro e que, ao longo de seu desenvolvimento, apresentou limitações que ela sempre buscou respeitar e defender. Demorou a falar, a ler e a se relacionar de maneira autônoma com seus primos e amigos da escola. Depois de três anos do bebê, mais uma gravidez, outro menino, mas dessa vez mais cabeludo e gordinho, registrado como branco, ainda que nascido de pai e mãe negros.

Após o quinto ano do casamento, conquistou a tão sonhada casa própria, um terreno que fez questão de comprar à vista numa área que não sabia, mas seria de risco, alagaria em todo verão. Mal sabia que, em cerca de dez anos, seria contadora de uma história viva: a construção do “Jardim da Conquista”. Bairro humilde, erguido ao lado de córregos, mata preservada e sede da estruturação do crime organizado na região de São Mateus. Seus filhos não podiam ficar nas ruas – manchadas pelo sangue daqueles que lutavam pelo domínio no território –, ficavam em casa enquanto o esposo trabalhava e ela ia fazer o pé e a mão de algumas vizinhas. A comunidade foi crescendo, fez amizade na vizinhança e seguiu o rumo da fé cristã-evangélica-pentecostal. Não havia um debate sobre raça, ou gênero, ou classe, isso parecia não importar, mas ela foi marcada por todos eles durante a sua trajetória de vida.

“Quando eu fui na loja, não me atenderam. Perguntaram se eu era funcionária”.

Zeza se ergueu em função da família, cozinhando de maneira excepcional, sendo uma mãe cuidadosa e uma avó amorosa. Estudou até a quarta série. E tocou um negócio por quase vinte anos, ainda que direcionando a possibilidade estabilidade e sucesso ao seu marido:

“Pense nas pessoas que você conhece. Quais delas você acha que teriam mais chances de fazer um negócio dar certo? Por quê?”

“Gil, porque ele é uma pessoa de talento e garra e de muita coragem e tem habilidade com os negócios”

Crédito: Arquivo Pessoal

Ela quem registrava as vendas, quem buscava novos materiais, ia em eventos de materiais de construção “novos-modelos-de-cano-nova-marca-de-cimento”. Ela é quem garante o café para os clientes. Ela quem cobrava os que estavam em débitos. Ela foi a alma do Depósito Gil. Ela tinha habilidade, expertise e fez um negócio dar certo. O que tanto buscava e, de acordo com Ana Fontes, fundadora da RME (Rede Mulher Empreendedora), navega totalmente na contramão da realidade brasileira, onde:

“Se eu sou mulher, eu tenho uma camada de desafios. Se eu sou uma mulher negra, eu tenho uma segunda camada de desafios. Se eu sou uma mulher negra de favela, eu tenho uma outra camada de desafios. Se eu sou uma mulher negra de favela e mãe solo, eu tenho mais uma camada de desafios”.

“Os desafios vão se potencializando à medida que você tem mais marcadores sociais.” (Geledés, 2025).

Encontrou na fé cristã, especialmente, o senso de comunidade e pertencimento por acreditar que a vida poderia ser mais do que o sangue derramado nas vielas de um bairro novo, ou da árdua perda constante dos móveis em época de chuvas de verão, de vento, como costumava dizer. Meu Deus, sei que existe um lugar em que vou te encontrar, toda fome, toda miséria e guerra serão cessadas.

Foram 20 anos circulando entre depósito, igreja, almoços de domingo e, mais recentemente, na construção de uma casa na praia. No comércio, sofreu hostilidades, apesar de entender sobre obra, orçamento e material de construção, não era um homem. Lidou com assédio e racismo sem saber o motivo de olharem de maneira diferente para ela quando foi comprar seu automóvel: um Gol 2008 – com maior parte do valor à vista.

Foi aposentada em maio de 2026, notificou a família e estava feliz por, finalmente, viajar ao país. Afinal, celebradas são as mulheres que falam: sonham, se organizam e realizam o que lhe tocam as almas.

“Finalmente vou poder viajar com as minhas netas” (fevereiro de 2026).

“A verdade é que o bem sempre vence o mal e até o momento Jesus tem me sustentado”.

Luzinete, ou seja, foi um marco por onde passou, o reflexo de uma o reflexo de uma geração com pouca escolarização formal, mas profundamente realista, prática e perseverante

Conquistou seu maior bem, a casa própria, a construção de uma família feliz e manteve a fé até o seu último suspiro: declarando, antes de ter um infarto fulminante, que ao invés de ir ao hospital, gostaria de orar e agradecer pelo dia. Estava cansada. Faleceu na noite do dia 22 de maio de 2026, aos 63 anos. Deixando seu marido, dois filhos, seis netos e uma cachorrinha: a neguinha. Em especial, deixa orientações para uma vida bem vivida:

Organização;

não comprar a prestação;

ter uma casa própria;

não gastar dinheiro a toa.

Deixa, também, sua neta saudosa: eu. Pouco citada no texto, mas fundamental para que essa imagem não desapareça. Ela passou a vida construindo as condições para que outras pessoas pudessem sonhar, até que, finalmente, pudesse sonhar por si mesma.

O trabalho do cuidado é reforçado para mulheres, sobretudo para mulheres negras. A avó Zeza, nesse caso, é a certeza e evidência de que o espaço privado pode ser fundamental para a formação de sujeitos e para a reprodução da vida, mas a responsabilidade por sustentá-lo não pode ser atribuída exclusivamente às mulheres. Sua concentração sobre pessoas do gênero feminino constitui uma forma profunda de desigualdade.

Ela não estudou, não viajou, mas garantiu a ordem da casa e do comércio. Conheceu pouco da cidade e do país. Soube acolher netos LGBTs, e criticar falsos moralistas, manteve o domínio das palavras, do dinheiro – emancipatório, sobretudo para quem começa a vida com poucos recursos – e deixa um legado que deve, sim, ser celebrado. Uma mulher que serve ao Senhor garantiu que as suas herdeiras fossem livres, plenas e conscientes de que os sonhos devem ser realizados nessa terra.

Crédito: Arquivo Pessoal

Marcela Leal é graduanda em políticas públicas pela UFABC

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