O sequestro de Maduro e a permanência do imperialismo na América Latina
A intervenção direta dos Estados Unidos na Venezuela, materializada no sequestro do presidente Nicolás Maduro no início de 2026, não pode ser compreendida como um evento isolado, fruto de um desvio momentâneo ou de uma decisão impulsiva de um governo específico
O ano de 2026 começou com o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por tropas estadunidenses a mando de Donald Trump. O ato, em si, uma barbárie que fere todas as normas do direito e da diplomacia internacional, foi um recado da administração dos Estados Unidos – em conluio com setores do capital estadunidense interessados nos recursos naturais venezuelanos – de que não será tolerado qualquer governo latino-americano que não esteja subordinado aos interesses de Washington.
Dito isso, vamos tentar explicitar o que significou a intervenção militar nos EUA na Venezuela. Em primeiro lugar, a controvérsia recorrente sobre a natureza democrática do regime venezuelano cumpre, nesse contexto, uma função ideológica precisa: deslocar o debate da violação da soberania para a avaliação moral do governo agredido. Desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, setores das elites venezuelanas, europeias e latino-americanas em geral buscam deslegitimar a experiência bolivariana. Também não está em jogo a intensa crise econômica, social e política que atinge a Venezuela. Continuar batendo nessas teclas quando se discute a agressão dos EUA acaba por justificar o sequestro de um presidente por uma nação estrangeira. Todos os limites e contradições da Revolução Bolivariana já foram intensamente debatidos em diversos espaços, tanto na imprensa como na academia.
Em segundo lugar, também não é primeira, e nem será a última, ingerência dos EUA na América Latina. É amplamente conhecido que o projeto de modernização capitalista estadunidense passa pela necessidade de subjugar os países latino-americanos, entendidos uma fonte segura de matéria prima e mercado consumidor. A transformação da América Latina em “quintal” estadunidense se concretizou na primeira metade do século XIX com a chamada Doutrina Monroe e, ao contrário de leituras conjunturais que tratam o episódio como ruptura, a Doutrina Monroe permanece como eixo estruturante da política externa dos Estados Unidos para a América Latina desde o século XIX
O que se alterava era a forma como a Doutrina Monroe se manifestava a depender do contexto histórico, podendo se identificar como Política da boa vizinhança, Política do Dólar, Consenso de Washington, no entanto, sempre cumprindo o objetivo originário, ou seja, a defesa do interesse dos capitais dos EUA na América Latina através de uma série de medidas de caráter imperialistas.
No caso Venezuelano, os interesses dos EUA se articulam principalmente com a extração do petróleo. As empresas estadunidenses foram as primeiras a se instalar na Venezuela após o início da extração petrolífera no começo dos anos de 1920 e se colocaram como importantes parceiros comerciais venezuelanos. Afinal, para um país em intenso processo de modernização, uma fonte confiável e disponível de petróleo era fundamental.

Apesar do petróleo venezuelano ter sido estatizado em 1976 os interesses imediatos das empresas estadunidenses no país não foram abalados, uma vez que, ao mesmo tempo que o recurso natural era tido como um bem estatal, o valor dos royalties cobrados das empresas internacionais caiu de forma considerável, o que aumentou a extração do petróleo e aprofundou a dependência venezuelana. Nesse sentido, como o Estado controlava a maior riqueza natural do país e recebia os dividendos de sua extração, o mesmo passou a ser o grande indutor da modernização venezuelana, o que deu início à um processo identificado como “Estado mágico” por Fernando Coronil.
Em um país em que o Estado ocupa um papel tão central, o avanço do neoliberalismo e das diretrizes impostas pelo Consenso de Washington à América Latina no final dos anos de 1980 e começo dos anos 1990 resultou na diminuição dos investimentos públicos e no rebaixamento dos padrões de vida da população, o que levou a um levante popular em 1989 conhecido como Caracazo. O levante foi tão intenso e brutalmente reprimido que até hoje não se sabe exatamente o número de mortos, vítimas das forças repressivas do Estado venezuelano.
O Caracazo foi a expressão definitiva da falência da democracia bipartidária venezuelana conhecida como Punto Fijo, controlada basicamente por dois partidos, a AD e a Copei. Tal crise abriu espaço para novos atores políticos, que buscaram reorientar o papel do Estado venezuelano e sua relação com a sociedade civil. É nesse contexto que Hugo Chávez chega ao poder após vencer as eleições presidenciais em 1998, dando início ao que ficou conhecido como “onda rosa” na América Latina, já que antecipou a chegada ao poder de outros líderes de esquerda em países como o Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia e Equador.
Ao assumir a presidência, Chávez convocou uma Assembleia Constituinte para elaborar uma nova Carta Magna no país e defendeu a instalação de uma democracia participativa em substituição a democracia representativa do punto fijo. Após a aprovação da Carta em plebiscito, Chávez adotou uma série de leis habilitantes, sendo a mais importante a lei habilitante de hidrocarburetos, que aumentava o valor dos royalties pagos pelas empresas e aumentava o controle da Estatal Venezuelana PDVSA sobre a extração do petróleo.
Tal medida foi imediatamente considerada uma agressão contra os interesses das empresas estrangerias na Venezuela, incluindo até a acusação de que o Estado venezuelano estaria atentando contra a propriedade privada. Foram essas as justificativas para o golpe cívico-militar que aconteceu em 2002 contra Hugo Chávez e que contou com apoio direto dos EUA. No entanto, tal tentativa golpista foi fracassada em grande medida em função da mobilização popular e da recomposição de setores das Forças Armadas leais ao governo que se prontificou a defender a democracia venezuelana e a revolução bolivariana.
O fracasso do golpe serviu para que os EUA buscassem reorientar suas formas de ingerência, passando a financiar outras estratégias de desestabilização do governo chavista. O treinamento e o financiamento de partidos e políticos de direita e extrema-direita para questionar a validade da democracia venezuelana passou a dar o tom das ações estadunidenses no país. Também foram cúmplices grande parte da imprensa internacional, que abriu suas páginas para colunistas, professores e pesquisadores que faziam militância contra o processo político bolivariano de forma escancarada.
Foi nesse contexto que figuras como Maria Corina Machado, Enrique Capriles, Juan Guaidó surgiram, contando com amplo apoio e financiamento do governo e de ONGs estadunidenses que entendiam o governo venezuelano como uma ameaça a razão de mundo neoliberal e aos seus interesses imediatos, tanto financeiros como geopolíticos, já que outras potências passaram a se aproximar da Venezuela e da América Latina, como a China e a Rússia, por exemplo. Dessa forma, a disputa intercapitalista também é um elemento importante para se entender a atual postura do governo dos EUA em relação ao continente.
Em particular após a morte de Hugo Chávez em 2013 e a crise econômica em 2008, a Venezuela enfrenta uma grave crise humanitária, econômica e política. As razões dessas múltiplas crises são muitas e passam pela política econômica bolivariana, pela pressão e sabotagem de parcelas das elites nacionais venezuelanas e por bloqueios internacionais liderados pelos EUA. No entanto, apesar da crise, Nicolás Maduro se consolidou como presidente após a morte de Chávez e se mantinha no poder até seu sequestro pelos EUA no começo do ano.
Ainda não sabemos quais foram as condições e se o governo dos EUA contou ou não com apoio de setores do governo bolivariano para retirar Maduro do país, mas o que se pode afirmar é que as motivações do governo estadunidense estão claras. Até o governo Trump, os EUA buscavam justificar suas ingerências através da defesa de uma retórica democrática, mas agora os interesses são declarados de forma clara e direta. Em seu pronunciamento após o sequestro de Maduro, Trump não citou nenhuma vez a questão democrática e ainda afirmou que realizar eleições na Venezuela poderia ser um problema, pois alguém que não estivesse totalmente alinhado com os EUA poderia vencer o pleito.
A franqueza com que Trump assume a violação da soberania venezuelana não deve ser lida como desvio individual, mas como sintoma de uma mutação histórica da racionalidade neoliberal, sendo, na verdade, uma manifestação das novas formas de sociabilidade e da relação entre o Estado e a sociedade, que tendo como norte as diretrizes ultra individualistas e meritocráticas do neoliberalismo, foram esgarçadas a tal ponto que até mesmo a democracia liberal passou a ser vista como um instrumento que não responde às demandas mínimas da população, cada vez mais empobrecida e precarizada.
É na conjuntura de múltiplas crises que novas expressões do fascismo se manifestam e apresentam um rompimento com os antigos dogmas liberais, uma vez que figuras como Trump, Milei ou Bolsonaro não são anomalias, mas a consequência direta das políticas neoliberais. Em outras palavras, diferentemente das elites liberais que buscavam disfarçar sua repulsa a qualquer tipo de experimento social de caráter socialista ou comunitário através da retórica democrática, os atuais fascistas são a representação sem mediação da violência capitalista.
Por isso Trump se acha autorizado a invadir um país soberano, retirar seu presidente e afirmar que agora ele administrará o país. Tudo isso sob o silêncio ou as notas repúdio constrangedoras da comunidade internacional.
Para finalizar, voltemos aos problemas e contradições da Revolução Bolivariana. É importante deixar claro que a ingerência dos EUA e a oposição de setores das elites liberais ao processo social e político venezuelano não se dá pelas suas limitações, mas sim pelos seus méritos, pelo seu caráter popular e nacionalista. É por isso que desde a eleição de Chávez as elites venezuelanas e latino-americanas fazem brutal oposição, se alinhando à postura imperialista estadunidense. O sequestro de Maduro não inaugura uma nova política externa dos Estados Unidos para a América Latina, apenas elimina os últimos véus discursivos que encobriam uma prática imperialista historicamente consolidada.
Tiago Santos Salgado é Doutor em História pela PUC-SP e pesquisador do Centro de Estudos de História da América Latina (CEHAL/PUC-SP). Autor do livro: Democracy Delivers: A ingerência dos EUA na Venezuela Chavista. Publicado pela editora Telha em 2021.

