O surrealismo brasileiro e a disputa por uma ideia de Justiça

Mídia e Justiça

O surrealismo fantástico brasileiro e a disputa por uma ideia de Justiça

por Grazielle Albuquerque
25 de outubro de 2022
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A depender do resultado das eleições o “surrealismo fantástico” brasileiro ganha freio e o impacto dessa disputa sobre uma ideia de Justiça também

“Bang bang, I shot you down/ Bang bang, you hit the ground/ Bang bang, that awful sound? Bang bang, I used to shoot you down“. Os versos de Nico Vega cantados por Nancy Sinatra, que tão bem embalaram a trilha do filme Kill Bill, poderiam muito bem acompanhar o faroeste da política brasileira atual. Penso em Dias Gomes como o grande “retratista” do nosso tempo, mas a ele faltaria uma violência estridente. Tarantino e David Lynch, mesmo sem a brasilidade necessária, talvez unissem o sangue e o surreal que a narrativa pede.

Sim, isso mesmo, esse é um nariz de cera de um texto de análise política. Isso porque na sequência dos fatos que tomaram o noticiário político no último domingo (23/10), temos um indivíduo em estava em prisão domiciliar e que, dentre outras transgressões, gravou um vídeo repleto de agressões misóginas à ministra Cármen Lúcia do Supremo Tribunal Federal (STF), e recebeu com tiros de fuzil e granada os agentes da Polícia Federal que foram detê-lo. Mas, calma, a história não para por aí.

Ato contínuo o presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) mandou o ministro da Justiça ir ao local acompanhar a prisão de seu aliado político. Detalhe: Roberto Jefferson não tem mandato ou qualquer cargo que justifique o acompanhamento institucional do primeiro escalão da República. Ainda assim, sua prisão foi negociada com a polícia que, mesmo após a reação violenta de Jefferson, disse a ele: “o que o senhor precisar a gente vai fazer”. O agente da PF que pronunciou tão auspiciosa frase tinha ao seu lado o famoso Padre Kelmon, candidato a presidente pelo PTB, que substitui Jefferson em uma linha auxiliar ao bolsonarismo nos debates do 1º turno na TV. Esclarecendo: Jefferson não pode ser candidato por cair no filtro da ficha limpa. Em seu lugar lá estava o “padre”. A cereja do bolo: o tal padre não é padre. O autoproclamado sacerdote foi contestado publicamente pela Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia no Brasil que emitiu nota oficial, dizendo que Kelmon não pertence a nenhuma das “paróquias, comunidades, missões ou obras sociais” da instituição.

Roberto Jefferson e Jair Bolsonaro (Reprodução)
Um rebranding do passado

Em síntese: o que temos é uma cena de filme que, por estilo, possui elementos surreais como parte da construção narrativa. Elementos esses que se perpetuam. Na esteira da prisão cinematográfica de Jefferson, também conhecido como Bob Jef, tanto se resgatou a relação de líder do PTB com Bolsonaro como a própria história do ex-deputado que foi aliado de Fernando Collor no início dos anos 1990. O próprio Collor vem passando por um, rebranding, nessa aproximação com Bolsonaro. Mas, de tudo, um destaque do enredo é um vídeo de Jefferson que, em 1998, anunciava em seu programa eleitoral ser o autor da Lei de Desarmamento. Corta a cena, 24 anos depois, o uso de granada e fuzil faz parte do novo contexto politico brasileiro. Com ele, uma nova visão do que seja o Estado, Deus, Família, Liberdade e Justiça. Bang bang!

Esse é precisamente o ponto que se deve atentar para além de toda a cena insólita. Muitos avaliam que a reação de Jefferson, com todos os elementos coordenados, do falso padre ao ministro da Justiça, foi tão exagerada que pôs em xeque a própria representação de quem busca por “justiça” com as próprias mãos. Jefferson acabou ferindo policiais e sua ação, que atingiu um setor majoritariamente bolsonarista, expôs uma contradição, digamos, além do tom. É bem provável que isso ressoe em alguns indecisos faltando menos de uma semana para a eleição. Contudo, por outro lado, é preciso ver com clareza: há um homem (em prisão domiciliar) com um arsenal, armas em punho, defendendo seu “direito à liberdade”. Para um segmento da população brasileira que é numericamente significativo, o surreal tem outra feição, torna-se um molde perfeito para um mártir bolsonarista e sua ideia de Justiça dos Desejos.

Essa é a questão central que, embora seja atenuada com uma possível vitória de Lula no próximo dia 30 de outubro, não de dissipa ali. O Brasil está fraturado e esse rompimento tem base social e estrutural, não é fruto de circunstância. Como consequência, também passa a questionar valores como o da Liberdade e da Justiça. Ambos se confundem em muitos aspectos, sendo que no caso da Justiça o próprio desenho institucional está em jogo. Vale lembrar que há poucos meses, o “Supremo é o povo” era o grito de guerra entoado nas ruas. Agora é “justo” xingar e acusar pessoas em vídeos sem qualquer prova, receber a polícia com revide de granada e fuzil etc. O fato de o justiceiro ter ferido os policiais e não o contrário evitou que um martírio fosse construído de forma imediata, mas é provável que Jefferson emule algo semelhante ao que aconteceu com o deputado cassado Daniel Silveira (PTB-RJ) que protagonizou um indulto inédito. Em suma, expurgo da rua passou a se infiltrar na institucionalidade, minando-a por dentro.

Vale repetir que a depender do resultado das eleições o “surrealismo fantástico” brasileiro ganha freio e o impacto dessa disputa sobre uma ideia de Justiça também. Mas a questão eleitoral não vai resolver uma crise de legitimidade do Judiciário, Ministério Público e cia. A questão afetiva, o ressentimento e o expurgo perpassam o tempo. Bob Jeff e o rebranding de valores e os personagens que emulam justiceiros mostram isso. Tal como na música: “Bang bang, my baby shot me down”. O absurdo, não nos enganemos, é apenas a capa de algo mais profundo sobre o que entendemos ser nosso pacto social. O episódio do Capitólio mostra que a balada trágica de Nancy Sinatra não é uma trilha sonora tão distante assim.

Grazielle Albuquerque é jornalista e cientista política. Atualmente, é professora visitante do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFC e, em 2017, foi visiting doctoral research no German Institute of Global and Area Studies (Giga). Seu trabalho se volta para a relação entre política, justiça e mídia.



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