O Trumpismo do grande irmão do Norte e as veias abertas da América Latina
Caracas, 03 de janeiro de 2026! Data histórica em que as veias abertas da América Latina voltaram a sangrar. O grasnido de morte voltou a ecoar pelas terras da mátria latina! O Big Stick mais pesado e mortal do que nunca, agitado por um hipócrita ancião belicoso com alma de cowboy! Que reivindica tudo a sua volta, como seu grande quintal!
O Trumpismo é a nova “Doutrina Monroe”, rediviva e atualizada, em que nenhuma forma ou expressão de existência, que não siga as regras do grande irmão do Norte, será tolerada! As leis e tratados internacionais pouco importam, quando muito são ferramentas de controle e chantagem contra os outros. Mas nunca para os acólitos da grande águia…
Direito Internacional é a partir de agora, um conjunto de falácias poéticas para ninar a ilusão das pretensas democracias liberais burguesas!
A geopolítica mundial mudou e os Estados Unidos da América lançou movimento que balançou todo tabuleiro. Nessa multipolaridade que se desenha a cada dia, de avanço político e econômico dos BRICS, em que a fragmentação da ONU enquanto órgão internacional de gestão mundial se torna irreversível ante sua inutilidade institucional ante os autoritarismos e genocídios que pululam por todo planeta! O reacionarismo dos EUA reclamaram o seu quinhão, o seu latifúndio permanente no mundo!
Até mesmo, enquanto aviso ao Brasil – o seu grande irmão do Sul – e aos seus parceiros dos BRICS, em especial China e Rússia. Os destinos econômicos e políticos de todo continente americano está em jogo, nada mais é seguro e garantido pelas regras do jogo democrático. Pois agora, tais regras não mais garantem nenhuma normalidade institucional.
A ordem internacional pós 1945, está em seus últimos respiros! A democracia liberal enquanto modelo hegemônico de regimes sociais está em seu final e estamos cada vez mais atrelados, e ameaçados, pela lógica de poder e força do “eu posso mais que você(s)” do século XIX. E nesse papel de nova geopolítica global, Estados Unidos, China e Rússia se afirmam cada vez mais enquanto as três grandes superpotências que alinharão os destinos do mundo. Ancorados em jogos de interesses políticos e econômicos, de pragmatismo geopolítico, com potências regionais como Brasil, Índia, Turquia, África do Sul e Nigéria, dentre outras, para estabelecimento de uma mínima estabilidade de governança global.
E nesse sentido a Pax American cairá com todo o seu peso de dor e morte sobre os ombros da América Latina. Principalmente quando esta garante uma amortização aos problemas políticos e econômicos internos da grande nação americana. Cada vez mais escancarada autocracia, que já se revelava desde o governo Obama – com suas intervenções militares e desestabilização política – mas que agora atinge novos e perigosos patamares.
Inclusive com Donald Trump em seu discurso pós invasão a Venezuela e sequestro de seu presidente, enfatizar a questão da prevalência dos interesses petrolíferos das companhias norte-americanas. Não houve menção a defesa da Democracia ou da liberdade. Não há mais necessidade de vernizes ou hipocrisias, só a legitimação dos interesses da força pela força.
Aviso dado, jogo disputado, com aquele que ao mesmo tempo é tanto jogador, quanto criador, distribuidor e definidor das regras! Um jogo de cartas marcadas e de porrete já a postos, bem-vindo ao novo velho mundo de 2026!

E as justificativas que boa parte da grande mídia nacional e internacional promulgam sem nenhum senso crítico para justificar a ação ilegal e criminosa do governo norte-americano, não se sustentam pois:
- “O Maduro era um autoritário ou ditador!”, essa é a justificativa que tentam apregoar os lacaios de sempre das aventuras yankees, mas se isso fosse verdade, as economias petrolíferas árabes deveriam todas serem também invadidas. Mas com são fiéis aos interesses neoliberais tanto dos Estados Unidos, quanto da União Europeia, pouco importa a violação sistêmica dos direitos humanos! E nenhuma intervenção dessa monta será realizada;
- “Mas o Maduro era acusado de tráfico internacional pela justiça norte-americana e por isso a ação foi realizada!”, pelo que se sabe, o país yankee não possuí poderes de polícia global transacional, que supera os limites de fronteiras e rompe com os acordos e tratados de direitos internacionais. Em outras palavras, os desejos e interesses dos EUA, não são – ou não deveriam ser – a lei julgadora e executora máxima do mundo;
- “A ação de extração se deu para combater o narcotráfico”, se tal motivação fosse fato, Trump não teria perdoado o ex-presidente de Honduras (Juan Orlando Hernández), condenado pela justiça norte-americana em 2024, a 45 anos de prisão, por comprovada participação no envio de centenas de toneladas de cocaína aos EUA;
- “O processo de prisão de Maduro ocorreu por sua liderança em um cartel de drogas”, na verdade, se deu através de uma violação de soberania nacional baseada na construção falaciosa do cartel internacional de drogas de “los Soles”. Sendo que esse nome (Soles) é uma gíria local de Caracas, referente ao uso do sol como um símbolo de alta patente militar, associada pejorativamente com uma parcela de militares corruptos que teriam uma vida de riquezas e ostentação. Não existindo, portanto, qualquer cartel com esse nome;
- “Trump agiu em nome da liberdade e democracia do povo venezuelano”, de imediato após sequestrar Maduro, deu entrevista se portando, enquanto dono dos destinos da Venezuela e sua produção de petróleo. Passando a ameaçar de maneira nada sutil, Colômbia e Cuba… Além de proferir uma série de provocações acerca de invasão e anexação referente a Groelândia, consolidando a imagem e narrativa de uma nova hegemonia dos EUA no hemisfério.
E convém lembrar, que as críticas da esquerda em relação a Maduro sempre existiram, contra o seu projeto autocrítico de poder, seu rompimento com os setores chavistas e dos movimentos de esquerda da sociedade civil venezuelana. Que eram a base popular do governo de Hugo Chavez e que impediram a concretização de sua deposição ante o golpe de 11 de abril de 2002.
Sendo que, por mais que houvesse uma insatisfação geral com o governo Maduro, a sua deposição não significa a derrocada do regime vigente. Havendo uma movimentação popular significativa em defesa da soberania venezuelana e contra a ação invasora. Nem tanto por amor ou admiração a um presidente cada vez mais impopular e distante dos ideais revolucionários bolivarianos, mas sim contra a ingerência criminosa de um país sobre o outro.
Isso exposto, o fato inconteste é que, o sequestro de Nicolas Maduro demarca uma ruptura histórica, pois estamos oficialmente de volta aos velhos tempos da “América para os americanos”. Mas em um contexto que demarca a aceitação da perda de sua hegemonia global unilateral, em troca de um multilateralismo geopolítico triangular, encabeçado por Estados Unidos, China e Rússia. Por vezes em diálogo, ou conivência, com blocos político-econômicos regionais como a União Europeia e o MERCOSUL.
Para isso precisando demarcar a América Latina enquanto sua posse territorial, sua zona de interesse particular. Tendo a invasão à Venezuela e o sequestro de Maduro enquanto a simbolização midiática dessa nova realidade-mundo.
Como esse jogo se desenvolvera e quais serão suas consequências? Ninguém sabe… Assim como também não se sabe quais os efeitos e alcances das resistências e oposições que tais movimentações políticas irão gerar? O futuro é imprevisível, mas ele se dá agora, em nosso presente, bem diante de nossos olhos!
É a volta de um combate explicito não só a governos com ideários políticos em oposição aos interesses dos EUA, mas de imposição a um modelo civilizacional de reacionarismo neoliberal e viés fascista transnacional. Que não suporta a existência de modelos, de formas de se interpretar e viver a vida que fogem da ortodoxia social eurocêntrica.
Não por acaso, as posturas geopolíticas de Donald Trump, estão sempre imbuídas e justificadas pela defesa de uma interpretação chula de um cristianismo enviesado pela Teologia da Prosperidade e de um conjunto de preconceitos e discriminações que criminalizam a tudo e a todos, que não se encaixam nesse perfil ideológico. Que persegue e desumaniza publicamente aos imigrantes, aos não-brancos, ao matriarcado, aos homossexuais… Não à toa, tais preceitos são apoiados publicamente por grupos supremacistas, neoconservadores e cristãos reacionários.
Como toda contenda geopolítica, suas ações ultrapassam a normalidade das relações políticas e econômicas para se dar de fato, ou ampliar os seus efeitos, a partir de embates de projetos civilizatórios. E por esse recorte, a experiência civilizacional latino-americana, com todos os seus erros e acertos, limites e potencialidades, será cada vez mais alvo de cerceamentos, sabotagens e ataques nas mais variadas esferas. Inclusive militarmente, mas não só.
Mas as mesmas veias de sangue latino que voltaram agora à sangrar, são também resultantes de um coração que não aceita por nada parar! Por uma alma coletiva que não se apaga! Pois nós somos uma terra de insolências e insurgências, que contra todas as possibilidades e interesses, desobedecendo todos os prognósticos eugenistas e de purificação racial, de apagamento de historicidades e culturas dos povos originários e africanos que aqui vieram – forçosamente – por habitar e (re)transformar.
Potências transformadoras em suas poéticas existências e sentidos imagéticos que se dão por uma outra lógica, e sentido, de vida, que aqui se amalgamaram e se transfiguraram em outras formas e vivências que não deveriam ser, mas são! Que não deveriam existir, mas existem! Enquanto reexistências encantadas em uma grande terra de suor e luta, mas também de sonhos e belezas, de transgressões enquanto manifestos vidas que não se cansam da sua eterna busca por felicidade e liberdade!
Um povo de esperança e sonhos, gente mestiça de Áfricas, Europas e Asias que aqui, contra todas as formas de clivagens e apagamentos, se amalgamaram com os povos originários criando outros destinos e soluções de vida!
Para longe e muito além do entendimento e compreensão da mediocridade de elites tacanhas e reacionárias. Sempre atentas na sua prontidão servil de se verem inseridas a um modelo civilizatório branco e europeu. Sempre míopes e surdas, ante todo um novo mundo, que de fato aqui se constituiu e, ainda hoje se constitui! Insensíveis, em eterna negação, a esse conjunto de criação dos maravilhosos malditos, desterrados, escravizados, pobres, fodidos, roubados, espoliados e mal pagos que abandonados à própria sorte, construíram nessa parte do mundo, contra todas as sortes e possibilidades uma verdadeira e surreal civilização!
Popular, mestiça e sincrética… Pulsante de vida, poesia e insolência! Longe de qualquer perfeição, ainda em efervescente em tortuosa e conflitante construção, mas sempre em resistência e reexistência. Nunca em simples e passiva resignação!
Mundo esse que se fez a partir de toda uma série de dores e atrocidades, lamentos e mortes! E que mesmo assim, apesar de tudo, continua na sua busca de reencantar o existir, de perfumar o éter da existência de acordo com os sonhos ditos impossíveis!
Ou será nossa sina termos ao final de toda trajetória, a resignação de nos tornarmos colônias – ou protetorados – enquanto consequência das escaramuças da geopolítica mundial? Vencidos pelo Trumpismo do nosso grande irmão do Norte? Será, Macondo o nosso único e certo destino?
Que saibamos a esse novo-velho desafio enfrentarmos e superarmos, na certeza de que para desilusão dos medíocres alienados em suas tristes realidades ou do viralatismo dos conformistas, em sua covardia perante a vida! Resistiremos e venceremos, pois somos o sonho que nunca morre! Honremos a nossa mátria Latina, sejamos um grande e belo devir!
Nós não seremos mais uma grande Macondo!
Nunca mais seremos uma eterna incompletude que nunca se encerra e só se repete enquanto tragédia e solidão!
Macondo, nunca mais!
Christian Ribeiro é doutor em Sociologia. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. Membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/UNICAMP.

