‘O Último Azul’: o envelhecimento como fato social
O enredo enquadra um Brasil distópico que possui uma política de exílio etário obrigatório contra a população idosa, sendo forçosamente transferidos para colônias habitacionais em que podem “aproveitar” o restante de suas vidas
Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”
Chico Science & Nação Zumbi: Um passeio no mundo livre (1996)
O Brasil sempre foi produtor de grandes obras cinematográficas e agora vive um momento de proeminência e alcance com grandes premiações internacionais, vide o merecido recente sucesso de O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura, ou com Ainda Estou aqui (2024) no ano anterior, entre muitos outros. A breve resenha a seguir apresenta o filme O Último Azul (2025) e um aspecto social representado pela protagonista, articulando conceitos sociológicos – talvez pela mania didática de quem escreve pensando no uso em sala de aula – para exemplificar a importância da produção cultural na reflexividade do consumo cultural. Além disso, possuo a consciência que não poderia conter todo o pensamento derivado do filme nas poucas páginas que me proponho.
O longa-metragem foi dirigido por Gabriel Mascaro e co-roteirizado com Tibério Azul, possuindo Denise Weinberg no papel de Tereza e nomes como Rodrigo Santoro, Miriam Socarrás, Adanilo Costa e mais de vinte atrizes e atores locais, cada qual contribuindo para a narrativa e a crescente agência da protagonista. Foi filmado nas cidades de Manacapuru, Novo Airão e Manaus, destacando paisagens locais como elementos fundamentais para o desenrolar da trama, pois mesmo o movimento do rio – ou seus limites societais-ambientais – indica sua autonomia e se relaciona de maneira interdependente com seus “passageiros”.
Com cerca de 87 minutos de duração, o filme ficcional produzido pela Desvia Filmes, Globo Filmes e distribuído pela Vitrine Filmes acumulou os prêmios de Grande Prêmio do Juri no Festival de Berlim, melhor filme Ibero-americano do Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, de Melhor Atriz no mesmo evento e também no Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano de Havana, entre outros.
O enredo enquadra um Brasil distópico que possui uma política de exílio etário obrigatório contra a população idosa, sendo forçosamente transferidos para colônias habitacionais em que podem “aproveitar” o restante de suas vidas. O drama começa quando a idade legal é reduzida e Tereza se vê coagida a aceitar seu finito destino, mesmo que a súbita mudança a impeça de realizar seus sonhos. Sempre vale recuperar que toda produção cultural não é suspensa no vazio, mas corresponde a possibilidades de produção de sua época, de seus agentes e suas estruturas, portanto dialoga com a realidade contemporânea, pois a ficção possui a capacidade de exacerbar algo já corrente na sociedade.

A viagem que se inicia a partir do conflito muda o rumo da vida da protagonista e apresenta como as relações com outras pessoas, outros afluentes – e, consequentemente, com outras formas de viver, isto é, de ser e estar no mundo – cria novas possibilidades, novos braços e canais de agenciamento. E por ‘agência’ compreende-se a capacidade de fazer coisas na tentativa de alcançar determinado resultado num fluxo contínuo e reflexivo das próprias ações em determinados contextos, potencializados ou restritos por condições estruturais com acesso a recursos, visando o movimento e a transformação.
No caso retratado, os condicionamentos estruturais com relação etária são apresentados como fatos sociais totais numa sociedade altamente burocratizada, fazendo convergir ecos de diversas correntes dos estudos sociológicos. O envelhecimento é trabalhado como um determinante sobre os sujeitos, sendo regimentados de maneira externa, coercitiva e geral, isto é, são impostos naquela sociedade antes e fora dos indivíduos, impõe pressões e sanções específicas e aplica-se na média social geral, tornando-se comum a todos. Assim alcança todas as esferas sociais e psicológicas, informando e organizando o modus operandi geral do envelhecer dos cidadãos.
Quando a lei de exílio para a colônia é reduzida de 80 para 75 anos, Tereza passa a se enquadrar na nova categoria. No entanto, as cenas de seu cotidiano revelam sua autonomia durante o caminhar, cuidado doméstico, trabalho, etc., é a expressão totalmente contrária a um suposto ‘tipo’ de idoso inativo no imagético popular da ficção. Indignada (reflexiva) com sua situação e burocraticamente dependente de sua filha, busca caminhos paralelos à ordem para viver seu sonho e, nesse entremeio, acaba encontrando pessoas afluentes de sua história, encantando futuros possíveis.
O encanto ganha a tela na figura ficcional do ‘caracol da babá azul’ – quase o monolito de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) –, o elemento encantador tão carente à sociedade ocidental urbana que é capaz de romper com momentos e regimes históricos de época. O ato de pingar seu muco alucinógeno nos olhos revela o futuro, ampliando as experiências sensoriais e apontando caminhos da liberdade, ressignificando suas vidas.
Entre caracóis com gosma azul, carrocinhas “cata-velho”, políticas institucionais excludentes, as Amazônias aparecem com destaques cinematográficos sem cair no fetichismo do Brasil profundo. Todos os envolvidos apresentam um cotidiano vívido no entre as condições de vivência, sobrevivência e também de suas fugas, mesmo que pautados por regras e limites político-legais de uma nação. Da figura de Cadu (Rodrigo Santoro) e seu ofício “pelas margens”, de Ludemir (Adanilo da Costa) e seu ultraleve atracado ao solo com escapes em apostas, e da figura libertadora de Roberta (Miriam Socarras), esta já idosa livre, Tereza é incorporada e aprende novas artimanhas – novas regras e técnicas – agregando novos recursos – de fontes legais ou não – para construir seu percurso do iminente exílio para o eminente movimento no rio do tempo para além do limitante ideológico da idade.
O que Tereza articula é a capacidade de agência nas brechas dos fatos sociais do envelhecimento, atravessando meios burocráticos – tanto macro como leis e instituições governamentais quanto micro com agências comerciais locais –, econômicos e culturais. O consumo cinematográfico poderia servir como um convite para compreender e praticar o exercício da empatia comunitária e à experimentação além das estruturas.
Foi corrente em veículos de notícias brasileiros a definição de que “o último azul” remete ao caracol da baba azul, deixando um rastro por onde passa, que de modo metafórico e poético se conecta à protagonista. No entanto, sendo o filme também uma obra de arte aberta, talvez a própria temporalidade do azul (o “último”) não seja apenas a associação entre o caracol e Tereza, mas também o movimento em si do que implica a continuidade do último: o fim de algum ciclo tornado em delta pela possibilidade de novos, sempre em movimento, navegando, aportando e seguindo enquanto incorpora-se ao rio que não se limita, mas desagua e transforma-se em estuário. Depois do primeiro passo após o último, seu rastro evidencia que Tereza não está mais no mesmo lugar.
Maurício Brugnaro Júnior é graduado em Ciências Sociais pelo IFCH-Unicamp, professor popular e mestrando em História pela mesma instituição. É membro do Centro Interdisciplinas de Estudos sobre a Cidade (CIEC-Unicamp), do Laboratório do Pensamento Político (PEPOL-Unicamp) e pesquisador do Núcleo Práxis de pesquisa, educação popular e pesquisa (USP).

