UMA HISTÓRIA DE TERROR, O TERROR DE ESTADO DA DITADURA

A bocarra de ‘O Agente Secreto’

De forma mais ou menos sutil, Kleber Mendonça Filho quer deixar claro que o filme trata de uma história corrente na época retratada – a ditadura –, embora a forma de contá-la seja por meio da ficção. Em períodos ditatoriais, a fala fica cortada, cabendo à ficção o papel de transmitir a experiência do terror aos contemporâneos e aos descendentes

Escancaradamente, O Agente Secreto fala sobre a ditadura. De maneira variada, o filme toca em vários temas relacionados à violência de Estado do regime autoritário. Passando por momentos mais diretos e outros mais difusos, Kléber Mendonça Filho deu bastante ênfase à oralidade.

Se O Agente Secreto é sobre a ditadura, o filme também é sobre boca. Obsessivamente sobre boca.

Ao longo de todo o longa-metragem, a boca possui grande destaque. São tantas as referências a ela, que mencionar todas levará um bom tempo, a começar pela cena inicial. Ao chegar ao posto de gasolina, Marcelo, protagonista do filme, vê um corpo morto abandonado e com o rosto tapado por um papelão. Há alguns dias naquela situação, a morte foi notificada a polícia, que nada fez até aquele momento. Inclusive, quando chega uma viatura, o corpo morto segue sendo sonoramente ignorado.

De forma clara e nítida, Kléber Mendonça diz que o ato de falar não significa muito nesse lugar, informação ressaltada pelos dentes ausentes do frentista, pelo acosso dos cães, que querem devorar o cadáver ali estirado, e pela entrega dos cigarros restantes de Marcelo ao policial que averiguou seu carro atrás de armas e drogas. Sem dinheiro, Marcelo precisará ser bom no uso da fala, especialmente no uso e no abuso do silêncio, para tentar sobreviver ao longo do filme.

Passada a introdução, o diretor reforça a importância da oralidade ao dar bastante tempo de tela a uma rádio local de Pernambuco, cena que se repete em outras oportunidades, e ao carnavalesco vestido de animal feroz na estrada, que, invadindo seu carro pela janela, simula devorar Marcelo. Junto dessa fantasia, que parece um urso do sertão, junta-se o perigoso tubarão, que, como no filme de Steven Spielberg, ronda as personagens, aterrorizando especialmente seu filho pequeno Fernando.

Aqui, o tubarão funciona tanto como terror factual, que devora a perna de um homem não identificado, que, durante o filme, fica a insinuação que poderia ser um cidadão morto e desaparecido pela polícia, e simbólico, o tubarão do cartaz de divulgação do filme de Spielberg.

De forma mais ou menos sutil, Kleber Mendonça Filho quer deixar claro que o filme trata de uma história corrente na época retratada – a ditadura –, embora a forma de contá-la seja por meio da ficção. Em períodos ditatoriais, a fala fica cortada, cabendo à ficção o papel de transmitir a experiência do terror aos contemporâneos e aos descendentes. Sobrevivente do Holocausto, Primo Levi sustenta persistentemente que a melhor forma de narrar o inenarrável é por meio da ficção, da fantasia, da arte, pois a realidade é brutalmente inacreditável para quem não a viveu diretamente.

Por meio da boca dos tubarões recifenses, o diretor busca narrar uma história de terror, o terror de Estado da ditadura. Enquanto o Estado usava de sua boca com brutalidade, suas vítimas precisavam modular a voz, de preferência suprimindo-a completamente.

Marcelo é um personagem calado, de poucas falas. Quer apenas sobreviver. Já sabe que argumentar não tem valor nenhum na ditadura. Pelo contrário, quanto mais se expuser pela fala, pior será o resultado para ele, o que acaba acontecendo. Em duas reuniões, Marcelo revela que seu nome é, na verdade, Armando, o que acaba por comprometer o seu disfarce. Na reunião com Elza, Arlindo e seu sogro Seu Alexandre, Marcelo revela que se chama Armando, contrariando a advertência do próprio Arlindo a Haroldo, que utilizou a palavra “refugiados” para tratar dos perseguidos políticos que, como ele, estavam escondidos no edifício Ofir, conforme testemunhado por Marcelo.

Ainda nesse momento, é importante salientar o registro da conversa entre Elza e Marcelo em um gravador, salientando mais uma vez a importância da dimensão oral do filme. Ao retornar desse encontro, Marcelo se encontra com seus companheiros de refúgio no Ofir, que faziam uma pequena confraternização. Nessa oportunidade, Marcelo mais uma vez revela que seu nome é Armando, comprometendo ainda mais a sua proteção, como bem salienta a protetora do edifício, Dona Sebastiana.

Crédito: cinemascópio

Levado pelo abalo de saber que estava ameaçado de morte, Marcelo se apresenta pelo seu verdadeiro nome, e, para amenizar o baque geral, Dona Sebastiana conta um pouco da história de quase todas as personagens ali reunidas, cada uma perseguida por uma razão diferente. Além do prédio a unificá-los, a boca também produz esse efeito de pertencimento de grupo. Muito além da necessidade de silêncio e até mesmo silenciamento, a boca serve para apresentar características marcantes de cada personagem. Haroldo e Clóvis têm problemas no dente, Claudia é dentista e o casal Thereza Vitória e Antônio são angolanos, portando um português com sotaque estrangeiro.

Sem fugir da temática bucal, mais relacionada à acústica, Dona Sebastiana revela que foi estudar música em Sassuolo, na Itália, em plena Segunda Guerra Mundial. Apesar de não ficar claro qual segmento da música, o som se relaciona diretamente com a questão da boca, por ela anunciar que fez 3 coisas na Itália que não falaria ali. Personagem que rouba a cena do filme, representa a figura da sobrevivente que chega à idade avançada por saber o que falar e o que não falar, sem com isso contar vantagens ou conservar amarguras. Como a própria diz, a vida tem coisas boas e coisas ruins.

Além de Dona Sebastiana, outra personagem também serve para expressar dramaticamente essa ideia. Sobrevivente do Holocausto, Hans é um alfaiate judeu alemão, que, para garantir a segurança de sua loja, finge ser um soldado nazista da Segunda Guerra. Para sobreviver, Hans, outra personagem também fortemente marcada pela boca, tanto pelo silêncio, quanto pela língua estrangeira, finge que as cicatrizes deixadas pelas torturas sofridas são marcas de guerra de sua coragem militar, permitindo, assim, conquistar a simpatia, o encanto e a proteção do temido delegado Euclides.

Saber equilibrar a fala e o silêncio, preservando seu disfarce, era o grande desafio de Marcelo, que, ao longo do filme, vai se mostrando intransponível. Cobrindo poucos dias do carnaval de 1977, Marcelo é um personagem exausto, ávido por retomar a sua vida como Armando. A ansiedade de Marcelo é nitidamente percebida pelas conversas com João Pedro, personagem que parece ser um diretor da Anistia Internacional, ou uma outra organização similar.

A insistência da recomendação de João Pedro de que Marcelo “vá pela moita”, não se exponha, não foi ouvida pelo protagonista do filme. A orientação de João Pedro é respaldada pela importância do cargo que ocupa e, ainda mais, por saber que seu escritório está grampeado, informação reforçada com a chegada do telegrama de Marcelo ao seu escritório, aberta e entregue por um secretário, que, ao ser questionado, diz não saber explicar por que abriu o envelope do telegrama.

Para driblar a espionagem, foi necessário apelar para o uso de um orelhão, telefone público de uma rua qualquer. Com pouco tempo por ter poucas fichas, João Pedro atualizou rapidamente a situação de risco que Marcelo corria. Provavelmente, a pouca quantidade de fichas também foi pensada como forma de driblar a repressão. Se as duas personagens mais velhas mostram o sucesso e o preço da sobrevivência, João Pedro representa a linha de frente de quem tenta garantir a sobrevivência de quem era diretamente ameaçado pela ditadura, chegando a colocar a sua própria segurança em risco.

No final desse telefonema, João Pedro informa Marcelo de que a pessoa mais importante para a sobrevivência dele, naquele momento, era Elza, que, na reunião, informa a Marcelo que foram contratados dois assassinos de aluguel para encontrá-lo e executá-lo. Os pistoleiros foram contratados pelo empresário paulista Henrique Ghirotti, executivo da Eletrobrás e proprietário de uma empresa de energia, que, em uma viagem à Universidade Federal de Pernambuco, entrou em choque com o núcleo de pesquisa de Marcelo, chefe desse departamento e responsável pela pesquisa de desenvolvimento de carros elétricos e de trabalho com couro.

Em momento mais avançado da reunião com Elza, Marcelo explica que levou Ghirotti e o filho para jantar, acompanhado de Fátima, sua companheira, que, diante de tamanho desrespeito, confrontou os dois paulistas energicamente. Na briga, Marcelo chegou a dar um soco no filho de Ghirotti, que, o própria protagonista confessa, não o fazia desde o colégio. Sintomaticamente, essa foi a única cena em que Fátima aparece contracenando presencialmente. Em todas as outras oportunidades, ela sempre foi referida pela ausência de uma morte recente. Por essa cena, fica a insinuação de que Fátima faleceu em decorrência desse confronto, isto é, por ter falado demais, por não ter sabido se calar diante do representante empresarial da ditadura.

A primeira vingança de Ghirotti veio logo no dia seguinte, esvaziando o departamento de pesquisa e acabando com o projeto dos carros elétricos em que Marcelo trabalhava. A última vingança foi a contratação dos pistoleiros, que, como pedido especial, Ghirotti requisitou que Marcelo fosse assassinado com um tiro na boca. Novamente, a metáfora da boca, da voz, da fala. Na ordem constituída da ditadura, ninguém pode ousar confrontar um agente da ditadura, seja ele da repressão ou empresarial.

Naquela situação ditatorial, Marcelo não poderia falar. Ele e Fátima precisariam sofrer caladamente as humilhações de Ghirotti, que, representante sulista da ditadura, foi a Recife liquidar com seus projetos de desenvolvimento econômico e científico regional. Questionar já seria muito perigoso, reagir foi a sentença de morte. O recado era claro, tiro na boca para poder mostrar quem é que manda, quem tem poder de fala e de decisão.

No final, o pior acontece, justamente por Marcelo, personagem silente, acabar falando demais. Tomando a iniciativa de ser chamado pelo próprio nome pelas pessoas próximas, Marcelo, agora abertamente chamado Armando, pôde ser reconhecido por um terceiro pistoleiro, contratado como terceirizado dos dois primeiros que estavam a serviço de Ghirotti. No posto de documentação em que trabalhava, Marcelo foi chamado pelo sogro Seu Alexandre como Armando, aceitando tranquilamente fragilizar publicamente o seu disfarce. Seguindo Seu Alexandre, o terceiro pistoleiro chamou por Armando logo em seguida, que, pego de surpresa, tentou disfarçar da melhor maneira que conseguiu.

Embora tenha conseguido se salvar dessa primeira ameaça, Armando acabou sendo morto. O assassinato do corpo foi seguido pelo assassinato da reputação, garantida pela publicação de dois jornais do Sudeste insinuando que Armando estivesse envolvido em suposto caso de corrupção. A força dos jornais de fazer valer os interesses da ditadura já havia sido demonstrada pouco tempo antes, na morte de um dos pistoleiros, que foi referenciado como turista.

Contra a ditadura, seus agentes e seus aliados, escapar da morte era uma possibilidade bem difícil. Se tivesse sorte, talvez Armando conseguisse aguentar os 4 dias dados por Elza para conseguir os documentos falsos para a sua saída e a do filho para fora do país.

Independentemente das especulações, Kleber Mendonça Filho parece ter querido salientar a dificuldade de se passar por outra pessoa despercebidamente, mesmo quando a sobrevivência dependia desse trabalho de atuação e de silenciamento, ainda mais para um cidadão comum apartado da luta direta contra a ditadura, fosse pela luta armada, fosse pela luta de massas.

Expondo a fragilidade de um professor universitário que somente pretendia se dedicar às suas pesquisas científicas frente à brutalidade do regime, o diretor se esforça ao falar por todos os meios, por todas as bocas, as arbitrariedades, as violências e os crimes da ditadura de forma ampla e variada. Sua obsessão por isso chega a ser pornográfica, haja vista a grande quantidade de cenas com beijos ardentes e sexo oral.

Em O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho mostra um povo que quer se expressar por meio do corpo e dos prazeres, da ciência, da arte, da cultura, da política, mas que não pode diante da repressão ditatorial, que, de forma direta, por meio de seus agentes, e difusa, como o tubarão e a perna cabeluda, ameaça por todos os lados. No final da obra, o diretor explicita justamente os efeitos dessa violência toda por meio do diálogo entre a pesquisadora Flávia, que trabalhou nas fitas gravadas com Marcelo/Armando e outras testemunhas, e Fernando, filho do protagonista, agora já adulto e trabalhando como médico em um posto de coleta de sangue.

Novamente, a questão da boca se sobressai, pois Fernando levou Flávia para fazer um lanche, depois da doação de sangue. Acanhado, Fernando não consegue dizer muito sobre o pai, ao contrário de Flávia, que demonstra uma avidez por saber mais de Armando/Marcelo. A cena salienta um Fernando desmemoriado e receoso de falar/saber do pai, mesmo após Flávia oferecer um pen-drive com toda a entrevista de Armando/Marcelo a Elza.

Flagrantemente, Kleber Mendonça Filho explicita a questão dos efeitos transgeracionais da violência de Estado da ditadura. Comovente, a cena expõe as impossibilidades e limitações que um filho, órfão produzido pela ditadura, tem de se apropriar da sua própria história, pessoal e familiar. Porém, há uma sutileza que pode passar despercebida.

Na conversa com Flávia, Fernando conta sobre seus avós, pai e mãe de Armando/Marcelo. Essa história é fundamental e revigora ainda mais a mensagem que o diretor quer transmitir ao público, aliás, que ele insiste em transmitir ao público por meio de seus filmes, em especial O som ao redor. Fernando revela a Flávia que seu pai é fruto de um estupro. Que o avô possuía 17 anos quando estuprou a avó de 14. A marca da violência não é exclusivamente sexual, mas também de classe e racial. A avó, chamada de Índia pela cor da pele e pela origem étnica, trabalhava na casa do avô, branco de família rica. Segundo as palavras do próprio neto, Índia trabalhava como escravizada.

Grávida desse estupro, Índia deu à luz a Armando, que foi recolhido pela família do pai. Após parir a criança, Índia foi impedida de ter acesso ao filho, que, já adulto e tentando sobreviver a repressão da ditadura, passa o filme inteiro tentando encontrar um documento de sua mãe. Como salienta Anísio, experiente funcionário e chefe do posto de confecção de documentos civis, é mais fácil encontrar documentação a partir do nome do pai.

Enquanto não conseguia os passaportes para sair do Brasil, Armando escolheu justamente esse posto de documentação para trabalhar, na esperança de poder encontrar algum documento de sua mãe. Ele não possuía nenhum, e queria ter consigo pelo menos um documento. Anísio encontrou a de seu pai, mas esse documento não interessou tanto a Armando. Ao valorizar bastante a documentação da mãe, Índia, e demonstrar pouco interesse pelo do pai, Armando pretendia sair do país levando a parte de sua família que julgava de mais valor, a oprimida, abandonando a opressora.

Na tentativa, Armando acabou sendo assassinado sem encontrar o documento da mãe. Ao relatar essa história a Flávia, Fernando mostrou, sem intenção aparente, o quanto a violência no Brasil vem de longe, bem antes da ditadura. Agregando ainda mais força a essa ideia, a escolha de Wagner Moura também interpretar Fernando expõe como o dano transgeracional é presente. O personagem muda, o ator é o mesmo, a violência se transmuta, se mantém e continua, até quando não se sabe.

Para Fernando, falar sobre a violência de Estado, que matou seu pai Armando, não é uma história tópica, mas um novelo que desfia uma série de outras violências do passado, já começando na geração da avó, mãe de Armando.

Em seu apetite devorador, Kleber Mendonça Filho quis contar tudo isso pela maior quantidade e diversidade de bocas possíveis, especialmente aquelas mais atingidas pela secular violência de Estado brasileira.

 

Felipe Lott é doutor e mestre em História pela UFF, bacharel em Ciências Sociais pela UFF e membro do coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça e do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação.

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