Obama, decepção da esquerda norte-americana - Le Monde Diplomatique

ESTADOS UNIDOS

Obama, decepção da esquerda norte-americana

por Eric Alterman
1 de outubro de 2011
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Criticado por seus compromissos com os republicanos e pelos maus resultados em matéria de economia e emprego, Obama muda o tom e propõe aumentar os impostos dos ricos. Esse anúncio, com pequenas possibilidades de provocar resultados, visa mobilizar novamente os eleitores de esquerda com vistas às eleições de 2012?Eric Alterman

Em junho de 2008, logo após vencer a prévia democrata para a eleição presidencial, Barack Obama declarou, diante de simpatizantes extasiados: “Nós poderemos nos lembrar de hoje e dizer a nossos filhos que neste dia começamos a cuidar dos doentes e dar bons empregos aos desempregados; neste dia, o aumento do nível dos oceanos começou a regredir, e o planeta começou a ser curado; neste dia, colocamos fim a uma guerra, garantimos a segurança de nossa nação e restauramos nossa imagem de última esperança sobre a Terra”.1 Se há um presidente que confirmou as palavras do ex-governador democrata de Nova York, Mario Cuomo, de que os candidatos “fazem campanha em poesia, mas governam em prosa”,2 esse presidente é Obama.

Foram muitos os simpatizantes de esquerda a acreditar que seu novo presidente, um ex-militante social de Chicago, mudaria o jogo político, aplicando, graças ao apoio de suas redes, o programa e as ideias que estiveram no centro de sua campanha. Mas tudo não passou de um conto do vigário entre um espírito realista, que brigava pelo poder, e apoiadores idealistas, porém ingênuos. A despeito de sua retórica pronta a prometer a lua, o pragmático Obama nunca imaginou que redes de militantes, armadas apenas com a fé no civismo e na democracia, pudessem realmente constituir um modelo de organização capaz de lutar com um sistema representativo de dois séculos de idade, deformado pelo poder do dinheiro. Obama era um negociador, não um revolucionário. De nada adiantaram suas promessas que pareciam sólidas como uma rocha: elas viraram pó toda vez que o presidente se sentou à mesa de negociação. Seus adversários perceberam essa fraqueza e, obviamente, souberam explorá-la em seu próprio proveito.

Para Obama, política é mais uma questão de acordo que de combate. Tanto sua retórica como sua estratégia legislativa sempre afirmaram a escolha pela inclusão, pelo consenso, pela passividade. Embora tenha muitas vezes se queixado da tendência dos republicanos a se comportarem como tomadores de reféns ou até sequestradores, o líder da Casa Branca nunca deixou de pagar o resgate, às vezes com uma generosidade que nem seus adversários ousavam esperar.

No entanto, a direita jamais demonstrou o menor interesse por sua famosa gestão “bipartidária”. No verão de 2010, quando expôs seus votos para 2011, Obama disse: “Tudo o que desejo de Natal é uma oposição com a qual eu possa negociar”.3 Ele nunca foi atendido: a obstrução continua sendo a regra, e a maioria absoluta detida pelos democratas nas duas câmaras, até novembro de 2010, não pesou quando as reformas progressistas foram, uma após a outra, bombardeadas ou abandonadas antes mesmo de apresentadas. O projeto de lei que garante a liberdade sindical (Employee Free Choice Act), embora exigido a plenos pulmões pelas organizações de trabalhadores, só recebeu apoios sussurrantes da Casa Branca, e acabou dando em nada. Nada também se tentou para corrigir a fracassada política de imigração dos Estados Unidos. Pelo contrário: o número de expulsões não para de crescer. Os direitos das mulheres nas questões ligadas à maternidade foram restringidos. O dinheiro dita sua lei de maneira mais severa do que nunca, principalmente em razão da desregulamentação do financiamento das campanhas eleitorais4 e dos novos cortes de impostos, estendendo-se àqueles concedidos pela administração Bush. Diante dessa política regressiva, ainda mais impopular na medida em que agrava as desigualdades sociais, Obama se mantém estranhamente plácido, como se nada pudesse arranhar seu amor pelo consenso bipartidário.5

 

Progressistas e estúpidos

Às vésperas das eleições de meio de mandato em 2010, frustrados com sua incapacidade de reverter as pesquisas que previam um resultado desastroso, Obama e os seus conseguiram somente insurgir-se contra a ingratidão dos eleitores de esquerda. Então chefe de gabinete da Casa Branca, o sempre delicado Rahm Emanuel qualificou como “fodidamente estúpidos” os progressistas que ameaçaram retirar o apoio ao presidente quando este, para acalmar a bronca suscitada por sua reforma do sistema de saúde, abandonou em campo raso o projeto de seguro público – depois pediu desculpas aos estúpidos, mas não aos progressistas… Já o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, caçoou dos decepcionados da “esquerda profissional”: “Eles só vão se declarar satisfeitos no dia em que tivermos um sistema de saúde como o do Canadá e acabarmos com o Pentágono”. O próprio Obama mostrou condescendência para com os partidários nada apreciadores de seus presentinhos à direita. Em um jantar de gala em Greenwich, Connecticut, sob os aplausos de uma plateia de ricos doadores que pagaram US$ 30 mil pelo convite, o presidente lançou a seguinte piada: “Caramba, ainda não restabelecemos a paz mundial [risos na sala], eu pensava que seria mais rápido…”.

Zombar de seus simpatizantes às vésperas de uma eleição raramente é uma boa ideia, e os democratas não escaparam do desastre eleitoral prometido pelas pesquisas: perderam 63 cadeiras na Câmara e dez governos estaduais, mantendo no Senado uma maioria muito fraca. Nas assembleias estaduais, os republicanos ganharam mais 680 assentos, superando o recorde estabelecido pelos democratas nas eleições pós-Watergate de 1974 (628 assentos adicionais). Nunca em sua história os democratas tinham sofrido uma derrota tão aguda. Com o gosto pelo eufemismo que se tornou sua marca registrada, Obama reconheceu que seus esforços para “unificar o país” em uma perspectiva “pós-partidária” não haviam “dado muito certo”.6

Sem aprender as lições do desastre, o presidente não mudou de estratégia. Durante a controvérsia sobre o aumento do limite máximo da dívida – medida que no passado teria parecido trivial –, adiantou várias vezes as exigências de seus raptores. Ele foi à lona antes mesmo de entrar em combate, tão imperioso era seu desejo de parecer “razoável” aos olhos dos eleitores independentes, sem tomar consciência da irracionalidade política traduzida em tal postura.

No final das contas, o acordo alcançado em agostoin extremis, para evitar o não pagamento, parece uma capitulação que não impõe condições: além de um plano de economia orçamentária de US$ 2,4 trilhões que secarão os programas sociais, nem um centavo de aumento de impostos sobre os altos rendimentos. No plano político, o acordo atendeu a “98%” das demandas republicanas, como comemorou o presidente da Câmara, John Boehner.7 Uma manchete da revista humorística The Onion destacou, no dia 3 de agosto de 2011, o caráter imparcial da operação: “Um compromisso tão doloroso para os democratas quanto para os democratas”.

 

Não há culpados?

O campo progressista saiu derrubado dessas negociações, assim como a economia norte-americana. Nem Wall Street encontrou algo de que se alegrar: algumas horas após a assinatura do acordo sobre a supressão dos limites da dívida, o índice Dow Jones caiu 2,2%, e 4,31% dois dias depois. Logo em seguida, a agência Standard & Poors rebaixou a nota norte-americana pela primeira vez na história. Como de costume, os republicanos culparam Obama, que, como sempre, não culpou ninguém. Louvando as virtudes do “compromisso”, entregou a seus assessores o cuidado de repreender a esquerda por não saber reconhecer até que ponto as coisas poderiam ter sido piores.8 Essa incapacidade crônica de enfrentar os oponentes – ou mesmo admitir que eles existem – chamou a atenção do psicólogo político Drew Westen: “Quando quer, o presidente é um orador brilhante e comovente, mas ainda carece de um elemento em seus discursos: o indivíduo que é a causa do problema. O vilão da história é sistematicamente eliminado do quadro, ou então evocado em termos impessoais, na voz passiva, como se a miséria que atinge os outros não tivesse um culpado em carne e osso. Se é uma aversão pelo conflito ou apenas medo de enfurecer os doadores de campanha […], é difícil dizer”.9

A exemplo de James Carter e Bill Clinton – os dois únicos democratas que chegaram à Casa Branca desde os anos 60 –, Obama escolheu tornar-se um presidente infinitamente mais conservador que o candidato que venceu as eleições. Depois de engolir o sapo republicano, ele chegou a se vangloriar – sim, vangloriar-se – de ter chegado a um acordo que reduziria as despesas públicas “ao nível mais baixo desde a presidência de Dwight Eisenhower”.10

O que podemos esperar da eleição de 2012? Uma coisa é certa: o presidente não precisará temer um concorrente democrata. É verdade que o socialista independente Bernard Sanders – único exemplar de sua espécie no Senado norte-americano – acha que seria uma “boa ideia” desafiar o presidente no campo das primárias: há, segundo ele, “milhões de norte-americanos profundamente decepcionados com o presidente, acusando-o de ter dito uma coisa como candidato e feito outra como presidente, tanto em matéria de segurança social quanto em relação a outros temas, que não entendem como ele pôde ser tão fraco em suas relações com os republicanos. Sim, a decepção é profunda”. E acrescenta: “Uma das razões do desvio para a direita do presidente é a ausência de oposição nas primárias”.11

Ninguém na esquerda está desmaiando de entusiasmo por Obama. Militantes hispânicos são considerados descontentes; os gays, embora reconheçam sua boa vontade para pôr fim à proibição que lhes fazia servir às forças armadas por baixo dos panos, o criticam por não se pronunciar a favor do casamento gay; as feministas reprovam suas evasivas em matéria de direito ao aborto; e os ambientalistas avaliam sua atuação na área com um zero bem redondo. Tudo isso sem falar da guerra no Afeganistão ou do estado das liberdades civis.

Entre os progressistas e as minorias, o presidente continua, apesar de tudo, a gozar de uma popularidade bastante elevada. Por mais tenaz que Obama seja, a frustração que ele despertou em um grande número de seus simpatizantes de esquerda é ofuscada pela preocupação, muito mais aguda, suscitada pela insanidade dos candidatos às primárias republicanas, em primeiro lugar o teocrata texano James Richard (“Rick”) Perry. Tendo falhado em manter suas promessas de campanha, o atual presidente só pode agora contar com esse reflexo de medo se quiser ter esperanças de repetir a façanha histórica de 2008. Somente uma rejeição epidérmica aos excessos da direita poderia incitar os habituais abstencionistas de esquerda – como estudantes e membros de minorias – a superar sua decepção e comparecer às cabines de votação. Mas a experiência mostra que a estratégia presidencial de tomar como dado o apoio dos progressistas – e até insultá-los – é suicídio político. Tratando de cima aqueles que lhe pedem que cumpra suas promessas, o presidente prejudicou seriamente o crédito de que ainda dispunha com seus antigos eleitores. Necessariamente haverá consequências com as quais arcar no dia da eleição, não importa qual seja o espantalho republicano a enfrentar.

De qualquer modo, Obama não poderá contar com um balanço lisonjeiro no campo de maior preocupação para os norte-americanos: o emprego. Em setembro deste ano, a taxa de desemprego atingiu um pico de 9,1%. Nunca um presidente foi reeleito com números tão catastróficos.



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