COMO ESCREVER EM UM PAÍS DOMINADO

Onde a criança que lia vai precisar reler tudo…

Leia trecho inédito do livro Escrever em país dominado, do autor martinicano Patrick Chamoiseau, vencedor do Prêmio Goncourt em 1992 e uma das vozes mais importantes do pensamento pós-colonial contemporâneo. A obra foi lançada no Brasil em novembro pela editora Bazar do Tempo

Como escrever, se o teu imaginário se embebe, da manhã até os sonhos, de imagens, pensamentos, valores que não são os teus? Como escrever quando o que você é cresce fora dos impulsos que determinam tua vida?

Como escrever, dominado?

Crédito: Divulgação

O que as literaturas previram para você? O que elas sedimentaram no fio do tempo para você que sufoca sob a modernidade colonial? Ah, você não enfrenta etnias eleitas, nenhum muro, nenhum exército que amaldiçoa tuas calçadas, nenhum ódio purificador… Você não é um desses que podem traçar um mapa de gulags, ou proferir discursos sobre os genocídios, os massacres, os ditadores ferozes. Você não pode descrever as errâncias de poder em palácios assombrados, nem manter memória dos horrores de uma solução final. Em volta de tua pluma, nenhum fantasma de censura ou arame farpado. Tudo isso – dominação brutal – já é de outra era, mesmo que pelo mundo todo você perceba os sobres saltos terríveis, os futuros anacrônicos que milhares de escritores, ó irmãos, ainda enfrentam.

No fundo dessa angústia, você chega a murmurar, amargo: Felizes aqueles que escrevem sob a dominação da era passada: seus poemas podem se tornar balas, e confortar a esperança com tantos impactos. Porque a era presente – a tua, quando nenhuma bala é útil – está por vir para todos: ela é a do canto dominador que te deforma a mente até fazer de ti-mesmo teu carcereiro oficial; até fazer de tua imaginação a tua própria madrasta; da tua cabeça o teu próprio dealer; de teu imaginário a própria fonte de um mimetismo estéril: tua era é essa de uma dominação que se tornou silenciosa.

Assim, pobre escriba, Marcador de palavras nesse país estilhaçado, você enfrenta apenas uma submissão a assistências e subvenções. Você desmorona sob o derramamento massivo, cotidiano, de um modo de ser idealizado que desmantela o teu. Teus mártires são indiscerníveis, os atentados que você sofre não comovem nem mesmo os melros endêmicos, teus heróis não alcançam o pedestal das estátuas e a resistência bem pouco espetacular deles é quase inteiramente opaca para você. Teu país, este povo, você mesmo, seus escritores e seus poetas, nas opulências celebradas, sem uma lágrima ou ranger de dentes, vão em fina usura, em fina usura.

O único grito está em você.

Um grito fixo que te cinde a cada dia: ele se opõe a esses rádios, a essas televisões, a essas armadilhas publicitárias, a essas pretensas informações, a esse monólogo de imagens ocidentais fascinantes; ele recusa essa alienação ativa do Desenvolvimento na qual os teus nem percebem mais que o gênio íntimo deles se dissolveu. Um grito obstinado de cada dia. Um silencioso clarim.

Resistindo à espreita no país-Martinica, à tua frente se oferecem somente os prédios que espelham o céu, os vidros altos e escuros das opulências, a catedral aeroportuária, os hangares onde se descarregam os contêineres, o brilho intenso dos grandes centros, as transumâncias automobilísticas, as febres do comprar e do vender, os estacionamentos e as carroças onde se amarram fervores, a verticalidade solitária das altas antenas balizando o cemitério abandonado de nossas mentes.

À tua frente, pobre escriba combatente, a seriedade inflada das pequenas políticas e as longas tubulações que perfundem os campos – que nos perfundem a todos. À tua frente, as costas curvadas diante dos transatlânticos, dos agentes de viagem e dos montes de hotéis que civilizam as praias e do turismo-rei que santifica os pontos de visitação.

E em você – quero dizer em tudo-em-toda-parte, você que não assume nada, tamanha a comum e silenciadora dor –, em cada canto de favela, em cada bancada de assembleia, a inércia no mofo, a purulência das seitas, o cortejo das misérias desconhecidas, o espesso manguezal das drogas, o autoengano sob os balcões de subsídios e os poderes de galinheiro, a mediocridade erigida em nobreza para mídia, o abençoado comércio da ausência e da muda histeria dos emparedados vivos. O mal-estar que nenhum texto testemunha. Esse grito que nenhum poema explora. Essa literatura evacuada em si mesma.

Mas, no coração desse golpe indolor, aí estão as lancinâncias da dominação brutal. Eis por que a escrita dos escritores que a enfrentam (ou que a enfrentaram) em outros lugares, em outros tempos, é tão preciosa para você. Você pode nela encontrar o Dominador sob sua forma violenta, mas também adivinhar, na descrição de seus abusos, o rosnar do vencedor furtivo que ele vai se tornar e que não será mais alcançado por nenhum radar. Ele já está aí, latente em qualquer era, como essas espécies-mutantes que conviviam, na evolução, com sua fonte original em progressiva extinção. Na dominação, as eras se emaranham, arcaísmos sutis, primarismos furtivos, sangramentos desgastantes, com avanços, com recuos, e, a cada estágio, com a mobilização virtual das demais. Esteja atento, ó Marcador – eu dizia a mim mesmo –, ao emaranhado das eras, mas guarde isto na mente: o campo de batalha só está verdadeiramente aberto na era presente. Malditos os que escrevem contra a dominação da era passada: essas balas têm um passado grandioso, mas pouco amanhã.

Desde minha terra e minhas dores, eu via esses povos que se opunham à força silenciosa com gestos obscuros. Esses fanatismos, esses integrismos, esses delírios religiosos, esses frenesis étnicos pareciam respostas ancestrais a um Dominador que não enxergamos mais. Reflexos voltados contra si-mesmos, recursos reconfortantes de molde tradicional que recrutam toda literatura e conferem a ilusão de resistir. Ora, aí não se resiste: nos assentamos sobre uma rotina do eu enquanto a dominação silenciosa se reveste de modernidade progressista, de abertura democrática e de virtudes econômicas imparáveis. Diante desse fenômeno, encontrava-me desamparado.

Eu suspeitava que toda dominação (a silenciosa, mais ainda) germina e se desenvolve no interior mesmo daquilo que somos. Que, insidiosa, ela neutraliza as expressões mais íntimas dos povos dominados. Que toda resistência devia situar-se definitivamente aí, à sua frente, e desertar as ilusões dos velhos modos de batalha. Eu precisava então interrogar minha escrita, tanger suas dinâmicas, suspeitar das condições de sua irrupção e revelar a influência que exerce nela a dominação-que-não-mais-se-vê. Mas como?

 

Patrick Chamoiseau nasceu em Fort-de-France, Martinica, em 1953. Escritor, ensaísta e roteirista, é um dos principais nomes da literatura antilhana contemporânea e cofundador do movimento da “créolité”, ao lado de Édouard Glissant, Jean Bernabé e Raphaël Confiant. Autor de romances, ensaios e textos memorialísticos, recebeu em 1992 o Prêmio Goncourt pelo romance Texaco, obra central de sua trajetória. Sua escrita, atravessada pela memória da escravidão, pelo imaginário crioulo e pelas tensões coloniais, articula reflexão histórica e invenção literária, afirmando-se como uma das vozes mais originais do mundo francófono.

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