Onde estaríamos se não fossem as esquerdas?
Ignorar o desejo das esquerdas no nosso destino comum (com muitos direitos já conquistados) é um gesto de profunda desonestidade com os processos civilizatórios que nos precedem: a luta por vida melhor, mais direitos e menos morte; a luta por liberdade de expressão (na voz e no corpo); a luta contra os privilégios de alguns poucos em detrimento do empobrecimento de muitos e muitas
I
O conhecimento não se faz com corpos isolados ou em acúmulo gratuito. Quando eu era professor de literatura, cada matéria nova começava com uma revisão do conteúdo da aula anterior. Essa prática criava nos estudantes uma percepção transparente (tácita) de que o saber só ocorre quando conectamos informações. Dentro do possível, eu buscava que essa didática fosse contínua: quantas mais matérias eram dadas, mais ficava por retomar no início das aulas seguintes. Mesmo em meio à desatenção e à euforia das trocas de horário, o tempo geralmente servia para lecionar o conteúdo completo.
Por sorte, não temos que lembrar de tudo todos os dias. O cérebro tem uma memória potente: aprendemos a falar, por exemplo, e não precisamos adquirir essa habilidade outra vez a cada manhã. Essa competência para fixar conteúdos e habilidades nos permite manter uma comunicação eficiente ao longo da vida e, ao mesmo tempo, aprimorar a linguagem – essa maravilha adquirida na primeira infância.
Mas outras coisas precisam ser lembradas, porque lembrar é uma forma de aprender. O que não é lembrado é desaprendido. Escrevo este ensaio depois do sequestro de Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump e sob a possibilidade de ataque à Groenlândia. Antes mesmo desse evento e diante do ano imprevisível que teremos, uma pergunta-lembrança vem orbitando a minha cabeça: onde estaríamos agora se não fossem as esquerdas?
II
Li Ressuscitar mamutes (2024) meses depois de o livro ter sido anunciado como o ganhador do Oceanos 2025, um dos mais importantes prêmios literários em língua portuguesa. Eu já conhecia a Silvana Tavano de O último sábado de julho amanhece quieto (2022) e, com a condecoração, resolvi voltar à autora. O romance vencedor apresenta uma filha que enfrenta a morte da mãe, com quem tinha uma relação salpicada de fé e feridas. Nesse romance, Tavano aborda o luto não apenas para borrar as fronteiras entre presente, passado e futuro (daí o título da obra), mas lembra que o passado ganha sobrevida no presente e, exatamente assim, faz-se futuro. A mãe ausente segue habitando o entorno da filha, o interior da filha, o nome e a substância dessa criança-adulta que ficou. A narradora vai percebendo que acontecimentos pretéritos não param de se atualizar no presente, de modo que o aqui e o agora nada mais é do que um ponto de conexão com o pretérito e o porvir. Ao contemplar o passado da mãe, por vezes nebuloso, a filha vai entendendo o seu próprio presente. Assim, o romance borra as fronteiras temporais que – supostamente – orientam a nossa caminhada em comunidade.
É preciso lembrar onde estaríamos se não fossem as esquerdas. Não a de Maduro, obviamente, mas as esquerdas que surgiram de um ímpeto democrático legítimo, amplo, afirmativo, as esquerdas que hoje nos permitem ler, escrever, pensar e amar com alguma liberdade. Pergunto: onde estaríamos se a população escravizada não enfrentasse o sistema colonial? Onde estaríamos se não houvesse lutas por independência? Onde estaríamos sem o direito ao descanso semanal, às férias remuneradas, à carteira assinada, ao salário-mínimo, à cesta básica, ao décimo terceiro salário? Onde estaríamos se as mulheres não batalhassem pelo direito ao voto, ao trabalho, ao estudo, ao próprio corpo e ao próprio prazer? Onde estaríamos sem o direito à educação e saúde gratuitas? Onde estaríamos se a população não fosse às ruas contra a PEC da Blindagem?
Onde estaria eu se não pudesse emigrar com algum direito básico? Onde estaria o meu corpo migrante – a minha vida migrante – se não fossem os direitos humanos?

Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil
III
Há repetições fervilhando no tempo presente: mamutes ressurgem e se agitam por todos os lados. Como sempre, o capitalismo está de olho no nosso desejo. As empresas inventam vontades e, com base nas informações disponíveis digitalmente, elas nos devolvem produtos que pretendem ser a “perfeita” expressão da nossa individualidade – reforçando assim as mil fantasias do Eu oferecidas pelo consumo.
No Livro do desassossego (1982), a autor Bernardo (Pessoa) Soares vai na contramão dessa ideia, afirmando que devemos ignorar exatamente a voluptuosidade do desejo. Eis uma boa proposta de Ano Novo. O problema é que desejar também está na base do que entendemos por futuro. E, por sua vez, a ideia de futuro é profundamente atravessada pela fantasia, freudianamente entendida como “a vida imaginária do sujeito e a maneira como este representa para si mesmo sua história”[1].
O preceito pessoano pode ser útil à reflexão individual, sobretudo em tempos neoliberais (desejar menos tende a construir um amanhã melhor, menos consumista e menos poluído); mas não funciona muito para o plano coletivo. Ignorar o desejo das esquerdas no nosso destino comum (com muitos direitos já conquistados) é um gesto de profunda desonestidade com os processos civilizatórios que nos precedem: a luta por vida melhor, mais direitos e menos morte; a luta por liberdade de expressão (na voz e no corpo); a luta contra os privilégios de alguns poucos em detrimento do empobrecimento de muitos e muitas. Quem ignora essas conquistas tem um pé na ingratidão – e outro pé na perversidade – quanto ao presente que um dia foi sonhado em termos de mais paz e mais justiça.
Louise Glück (1994) nos lembra que um paradigma surge quando um determinado tempo se congela e, de alguma maneira, se expande no presente-futuro. Foi graças às esquerdas que importantes paradigmas civilizatórios conseguem garantir, hoje, direitos e deveres outrora almejados como um futuro possível. No caso da história social do Brasil, um dos paradigmas mais marcantes está em nossa condição latino-americana, atravessada por feridas que as lutas de esquerda têm tentado combater. É Ferreira Gullar (1989) quem nos lembra disso no poema “Nós, latino-americanos”: “Somos todos irmãos / Não porque seja o mesmo o sangue / Que no corpo levamos: O que é o mesmo é o modo / Como o derramamos”[2].
Sem ânimo de polarizar ainda mais o debate, deixo um lembrete final: as direitas nacionais e globais certamente não serão responsáveis por estancar o sangue derramado no Brasil – muito pelo contrário.
Paulo Geovane e Silva é poeta, escritor, editor, tradutor e psicanalista. É doutor em Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra (2023) e mestre em Literatura Brasileira e Comparada pela mesma instituição. Publicou os poemários Caída (Letramento, 2018) e O homem à espera de si mesmo (Mosaico, 2021), além de contos, crônicas e ensaios em revistas brasileiras. Reside e trabalha em Madri.
Referências
GLÜCK, Louise. Ensayos completos. Madri, Visor Libros: 2017 [1994].
GULLAR, Ferreira. Toda poesia. São Paulo, Companhia das Letras: 2021.
PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Bernardo Soares. Lisboa, Assírio & Alvim: 2014 [1982].
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. São Paulo, Zahar: 1998.
TAVANO, Silvana. Ressuscitar Mamutes. Belo Horizonte, Autêntica: 2024.
[1] Roudinesco e Plon, 1998: 223
[2] 2021 [1989]: 278

