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SÍRIA

Os dilemas da dinastia de Al-Assad

por Patrick Seale
2 de maio de 2011
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Um imenso clamor por liberdade se ergue na Síria, exigindo a queda do governo. O presidente Bashar al-Assad luta pela sua sobrevivência política e pela manutenção do regime instaurado por seu pai em 1970. Porém, a intervenção em diversas cidades da Síria indica que o regime fez a escolha pela violênciaPatrick Seale

Absorvido na luta contra as ameaças externas e as crises regionais, o presidente sírio Bashar al-Assad pensava que seu país estava a salvo da onda que submergiu os outros governos da árabes. Como ele disse em uma entrevista ao Wall Street Journal de 31 de janeiro, em resposta a uma pergunta sobre a comparação entre o Egito e a Síria: “Você precisa mudar seu ponto de vista e perguntar: por que a Síria é estável embora tenhamos condições mais difíceis? O Egito tem sido apoiado financeiramente pelos Estados Unidos, enquanto nós estamos sob embargo da maioria dos países do mundo. […] Apesar de tudo isso, nosso povo não se revolta. Não se trata apenas de necessidades ou reformas. Trata-se de ideologia, de crenças, a causa que você está defendendo. Há uma grande diferença entre defender uma causa e um vazio ideológico”.

Ele não poderia estar mais errado. Os sírios, por sua vez, pediram o fim das detenções arbitrárias e da brutalidade policial, a libertação dos presos políticos, liberdade de imprensa, a abolição do artigo 8º da Constituição − que afirma que o Partido Baath “dirige o Estado e a sociedade” − e a suspensão do Estado de emergência, em vigor desde que o Baath tomou o poder em 1963.

Tudo começou em Dara, uma cidade do Sul, na fronteira com a Jordânia. Os problemas começaram quando, em março, uma dúzia de crianças foi presa por pichações hostis ao regime. Indignado, o povo tomou as ruas. Como foi observado por Joshua Landis, um dos melhores observadores estrangeiros desse país: “Dara é muito pobre e muçulmana [sunita]. Ela combina tudo o que é o problemático na Síria: economia falida, explosão populacional, governador ruim e forças de segurança autoritárias”.1 O erro − talvez fatal − dos serviços de segurança foi atirar na multidão com munição de verdade.

Antes do início da crise, porém, Assad não tinha o jeito de um ditador árabe tradicional. Aos 45 anos, ele parecia modesto e não demonstrava a arrogância daqueles que nascem para o poder. Em 1994, quando estudava Oftalmologia em Londres, a morte acidental de seu irmão mais velho, Basílio, o sucessor designado de seu pai, Hafez al-Assad, atirou na arena política um Bashar relutante. Até a recente onda de assassinatos, muitos sírios continuavam a apoiá-lo, vendo-o como um homem educado, moderno, um líder disposto a reformas, em melhores condições do que outros para realizar as mudanças necessárias.

Em 2000, quando sucedeu a seu pai, a Síria estava atrasada, em ruptura com um mundo cada vez mais globalizado e tecnologicamente avançado. Suas primeiras reformas foram financeiras e comerciais. Bancos e companhias de seguros privados foram, pela primeira vez, autorizados no país, em 2004, e cinco anos depois, em março de 2009, ocorreu a abertura da Bolsa. Atualmente ele negociava a adesão da Síria à Organização Mundial do Comércio (OMC). O governo introduziu os telefones celulares e a internet. Ele lançou vários projetos de infraestrutura; as escolas e universidades privadas multiplicaram-se.

Contudo, essas reformas favoreceram o aumento da desigualdade e do desemprego,2 para não mencionar o surgimento de um elevado nível de corrupção, muito mais preocupante que na Tunísia ou no Egito. Um terço da população vive abaixo da linha de pobreza. Ao mesmo tempo, as receitas de petróleo, já limitadas, esgotavam-se, e o país sofreu vários anos de seca, voltando a ser um importador de trigo.

O presidente estabeleceu com a Turquia uma aliança política e econômica, e os vistos foram abolidos entre os dois países, o que promoveu claramente o comércio entre as regiões fronteiriças e beneficiou especialmente a cidade de Alepo. A velha cidade de Damasco foi revitalizada, casas antigas foram restauradas e muitos restaurantes e hotéis foram abertos para acomodar uma inundação crescente de turistas.

Como uma nuvem escura sobre essa cena pairava a memória do massacre de Hama, em 1982, quando Hafez al-Assad esmagou de maneira sangrenta uma rebelião armada da Irmandade Muçulmana. Esse grupo islâmico lançou, em 1977, uma série de ataques terroristas contra o regime, matando seus partidários. O grupo assumiu o controle da cidade de Hama, no centro do país, onde assassinou os membros do Partido Baath e funcionários do governo. Hafez al-Assad respondeu impiedosamente. Em represália, a cidade foi bombardeada pelo exército, e muitos habitantes foram mortos. Não se sabe o número exato de vítimas, mas seria entre 10 e 20 mil. Trinta anos depois, alguns islamitas estão sonhando com vingança, enquanto a minoria alauita, que controla as alavancas do poder, tem medo de ser massacrada se o regime cair. Essas tensões sectárias podem tingir com sangue os gritos de liberdade.

Os manifestantes não são politicamente organizados e nenhum líder emergiu. Como em outros países árabes, não está claro quem são os adversários, a repressão das últimas décadas deixou poucas estruturas no país e a “sociedade civil” foi reduzida a uns poucos indivíduos.

Finalmente, as divisões de um país de maioria árabe sunita, mas que inclui uma significativa minoria alauita (de 12% a 15%), cristã (10%), para não mencionar os drusos e curdos,3 não facilitam a identificação dos grupos. É certo que os movimentos islâmicos são poderosos e o próprio presidente reconheceu isso à sua maneira − entre as primeiras reformas aprovadas, adotadas depois de um encontro com clérigos sunitas, estão a permissão de retorno ao trabalho de mil professoras excluídas por usar o véu e… o fechamento do único cassino no país. Enfraquecida, a Irmandade Muçulmana ainda exerce alguma influência, e foram ouvidos, em muitas manifestações, slogans contra os alauitas e algumas minorias, principalmente os cristãos. O regime não tem hesitado em manipular esses medos.

 

Garota Síria, que vive na Jordânia, participa de protesto em frente à embaixada e seu país na capital jordaniana Amã.

O combate contra Israel

Em seus dois discursos, em 30 de março e 16 de abril, o presidente Al-Assad anunciou uma série de reformas (nova lei sobre os partidos, imprensa etc.), incluindo a suspensão do vergonhoso estado de emergência. Mas o impacto dessas medidas foi perdido quando se descobriu que as forças de segurança continuavam a disparar sobre os civis. A entrada do exército em Dara e informações parciais sobre os massacres na cidade parecem uma virada de página, fazendo da violência a única solução para o regime.

Os anos no poder endureceram o presidente Bashar al-Assad, e ele tornou-se mais autoritário: desenvolveu um gosto pelo controle de toda a sociedade, tanto da mídia como da universidade e da economia, por meio de sua família − principalmente seu primo Rami Makhlouf, que controla, entre outras, uma empresa de telefonia móvel −, ou de seus cúmplices. Em vez de ser um sistema de participação popular, permitindo que a base tenha influência em sua gestão, o Partido Baath tornou-se um mero instrumento de mobilização, um meio de recompensar a fidelidade e punir dissidentes. Qualquer discurso livre é impossível, decisões políticas continuam a ser prerrogativa de um pequeno grupo que gravita em torno do presidente e dos serviços de segurança.4 Além disso, Al-Assad, como seu pai, detesta ser questionado e não quer dar a impressão de ceder à pressão.

Para reformar seu regime, caso escolhesse esse caminho, ele teria de trair os interesses de sua ampla família, os dos chefes de seus serviços e do exército − inclusive os de seu irmão Maher, comandante da guarda presidencial e um dos elementos mais duros do regime −, de figuras poderosas da comunidade alauita e de ricos comerciantes sunitas de Damasco, próximos ao poder. A nova burguesia, numericamente pequena mas poderosa, enriqueceu durante a transição de uma economia de Estado para uma economia de mercado, e ela também depende dele. Será que ele vai querer pôr fim aos métodos brutais que ele próprio subscreveu aos serviços policiais e de segurança? Especialmente se levarmos em conta que esses hábitos estão enraizados há mais de meio século ou mais – porque a autocracia numa região como a Síria tem raízes profundas.

Mas o regime também deve ter em conta seus inimigos no Líbano, na Jordânia, no Iraque e na Arábia Saudita, para não mencionar Israel. Eles incluem redes de exilados sírios em Londres, Paris e Washington. Alguns têm apoio dos Estados Unidos. De acordo com telegramas diplomáticos revelados pelo WikiLeaks e publicados em 17 de abril de 2011 pelo Washington Post, o Departamento de Estado financiou secretamente a oposição síria − particularmente as redes de Londres – com US$ 12 milhões, entre 2005 e 2010.

O regime do filho é uma continuação daquele do pai. Ao escolher Bashar − em vez do vice-presidente Abdel Halim Khaddam ou outro dos dignitários que o serviram lealmente −, Hafez al- -Assad lhe deixou um sistema autocrático centralizado, baseado em uma Presidência todo-poderosa e em uma série de aliados e inimigos, em nível regional e internacional, que, juntos, têm determinado a longo prazo a política síria. Para conceber e pôr em prática importantes reformas internas, como é exigido pela situação atual, seria necessária uma mudança radical de prioridades − a política externa foi para os Al-Assads, nas últimas décadas, a questão vital que concentrou a maioria de suas energias.

A carreira de Hafez e a de seu filho foram estruturadas pelo conflito com Israel. A Síria teve de lutar e sobrevive num ambiente hostil no Oriente Médio, criado pela vitória esmagadora de Tel Aviv durante a guerra de 1967, sua ocupação de vastos territórios, incluindo as Colinas de Golã, e sua estreita aliança com os Estados Unidos. Assim se estabeleceu uma forma de hegemonia israelo-americana, da qual a Síria, desde então, tenta sair. Iniciada por Cairo e Damasco, a fim de alcançar a paz global, a guerra de 1973 produziu alguns sucessos iniciais, mas, em última análise, o Egito retirou-se da batalha e assinou uma paz em separado com Israel, deixando a área ainda mais exposta à dominação israelense.

Confrontada com essas ameaças, a Síria estabeleceu uma nova parceria com a República Islâmica do Irã. Depois da invasão do Líbano por Israel, em 1982, cujo objetivo era destruir a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e empurrar o país do cedro para sua órbita, Damasco aliou-se à resistência xiita do Sul. Liderando uma guerra de guerrilha, com apoio logístico e militar do Irã e da Síria, o Hezbollah conseguiu, em maio de 2000, após dezoito anos de ocupação, expulsar as forças israelenses e libertar o país. Dessa forma reforçou-se o eixo Damasco-Teerã-Hezbollah-Hamas, principal rival regional dos Estados Unidos e de Israel.

 Segurança ou liberdade?

Os Estados Unidos, assim como Israel, não pouparam esforços para destruir esse eixo e impedi-lo de adquirir capacidade de dissuasão. O Irã precisou enfrentar sanções e ameaças militares por causa de seu programa nuclear. O Hezbollah teve de resistir às ameaças israelenses, inclusive a guerra travada contra ele em julho-agosto de 2006. A Síria tem sido alvo de intimidações, isolamento, sanções norte- -americanas e um ataque israelense em setembro de 2007, que, supostamente, tinha como alvo um local para abrigar equipamentos nucleares.

Foi um aprendizado difícil para o presidente Al-Assad. Ele precisou, como seu pai antes dele, resolver uma série de crises potencialmente mortais. Ele estava orgulhoso de ter conseguido para o país alguma forma de estabilidade e segurança. Comparados com os cidadãos do Líbano ou do Iraque, que tiveram sua cota de guerras destrutivas, os sírios não deveriam estar contentes com sua sorte? “A forma mais sublime de liberdade”, conforme escreveu em 25 de abril, no diário oficial Tishrin, “é a segurança da pátria”.

Mas essas declarações não são mais suficientes. Como destaca Abdelbari Atwan, editor-chefe do jornal árabe Al-Quds(Londres) − conhecido pela franqueza, apoio declarado aos palestinos e oposição à ingerência dos Estados Unidos −, em seu editorial de 27 de março, “a solidariedade com a resistência libanesa [o Hezbollah], o acolhimento dos secretários-gerais das organizações palestinas [especialmente o Hamas], enquanto todas as capitais árabes lhes tinham fechado a porta na cara, são respeitáveis posições, pelas quais somos gratos ao regime sírio e pelas quais ele pagou um alto preço. Mas nós não vemos nenhuma contradição entre essas posições e atender às demandas do povo sírio e, se há uma contradição, preferiríamos que o regime suspendesse seu apoio ao povo palestino e à sua causa e atendesse às demandas de seu povo, expandindo as liberdades e combatendo a corrupção. […] Porque os povos oprimidos não são capazes de libertar os territórios ocupados e os exércitos das ditaduras não são capazes de conduzir uma guerra vitoriosa”.

Patrick Seale é Jornalista, autor dos livros “A luta pela Síria (Oxford University Press, 1965), Assad: a luta pelo Oriente Médio (Univers. da Califórnia, Berkeley, 1989) e A luta pela independência áraba: Riad el-Solh e os contrutores do Oriente Médio moderno (Cambridge University Press, 2010).



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