Os escritores vietnamitas enfrentam tabus - Le Monde Diplomatique

Cultura

Os escritores vietnamitas enfrentam tabus

Edição - 5 | Vietnã
por Jean-Claude Pomonti
5 de dezembro de 2007
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Os slogans oficiais, o nacionalismo e o realismo socialista já não convencem a nova geração. Uma literatura marginal, provocadora e transgressiva se difunde em textos fotocopiados ou por meio da internet. E fala de corrupção, sexo, drogas e da busca de sentido para a existência

Mais de dois terços dos vietnamitas nasceram depois de 1975. O heroísmo do passado, embora ainda próximo, não é mais a única referência, mesmo que inscrito na história de um país que lutou, ao longo dos séculos, por sua independência e unidade. “No coração da literatura oficial, a fé em uma dupla emancipação, social (pelo marxismo-leninismo) e nacional (pela guerra), deu lugar aqui à ausência de ideal na juventude do pós-guerra”1, avalia Doan Cam Thi, crítico literário sediado em Paris.

Tanto no centro como na periferia do Partido Comunista, a nova tendência gera inquietações. Mas os vazios, muitas vezes, apenas indicam o surgimento de sociedades mais complexas. A dicotomia oficial – bons e maus – torna-se indistinta com o passar dos anos. Doan Cam Thi retoma desse modo, a respeito do Vietnã, a expressão de Karl Marx sobre os países “tão pobres de heróis quanto de acontecimentos”. Em uma novela muito breve, o escritor Do Khiem, que vive entre a França, os Estados Unidos e o Vietnã, cita Kiê, a infeliz heroína de um grande romance clássico vietnamita do século XIX: “Por vezes, mal desfio a meada que os entrelaça, os fios se emaranham de novo”. Mas Do Khiem, cujos escritos são muito apreciados nos jovens círculos literários vietnamitas, o faz para afirmar o contrário: “Não me prendo a ninguém”2.

No período subseqüente às Guerras da Indochina, uma geração de escritores talentosos se debruçou sobre a miséria dos combates e as desilusões advindas da vitória. A maior parte era originária do Norte e saída das fileiras vencedoras. Nguyen Huy Thiep, Bao Ninh, Duong Thu Huong e Pham Thi Hoai encabeçavam a fila. Seu olhar sobre a guerra e a sociedade que dela emergiu dominou os escritos da época das primeiras reformas, determinadas pelo Partido Comunista em 1986, e da abertura do Vietnã para o resto do mundo. Outros igualmente relataram as cicatrizes deixadas pela brutal reforma agrária de 1955-19563 ou as ondas de repressão posteriores.

Circulação às escondidas

Nos anos 90, Hanói tornou-se assim o centro de uma renovação literária cuja repercussão no exterior foi ainda maior pelo fato de alguns escritos serem proibidos e circularem apenas às escondidas, ainda que por vezes de forma pródiga. O surgimento dessa geração de escritores significou provavelmente um golpe definitivo na literatura oficial, que bebia na fonte do realismo socialista. Era o fim de um mito ou de uma hipocrisia. O Vietnã vivera convulsões, não uma revolução. Diante da profusão de escritores que eram também pesquisadores, os ideólogos oficiais não encontraram outra resposta senão a censura ou a reescrita, notadamente a que era praticada pelos manuais de história. O grande público permaneceu à distância: tratava-se já então de um combate travado na retaguarda.

Desse modo, a censura não foi exercida, no mais das vezes, senão a posteriori. Tratava-se, de fato, de uma pressão sobre os editores, que corriam o risco de ver as obras publicadas serem retiradas de circulação. Prova disso foi a proibição, pouco após o lançamento, do Récit de l’an 2000, publicado pelas edições Thanh Nien (A Juventude). Bui Ngoc Tan relata nessa obra as duras condições sob as quais ficou preso, três décadas antes, no contexto de uma campanha contra os revisionistas. O livro foi destruído por ordem das autoridades, poucas semanas depois de ter sido posto à venda. Por outro lado, em março de 2005, Chinatown, um romance de Thuan, jovem escritor da diáspora vietnamita na França, viu-se publicado em seu país natal, e seus livros venderam mais que pãozinho quente. A iniciativa de publicá-lo no Vietnã foi ainda mais interessante porque a obra aborda o delicado tema da humilhação sofrida pela comunidade chinesa após a eclosão da guerra fronteiriça entre a China e o Vietnã, em 1979. Antes disso, o tema parecia tabu.

A abertura em curso não diz ainda como será escrita a página em branco virada na passagem do século. Os autores do período das primeiras reformas puseram novamente em questão, com força e talento, o mito da história oficial e o realismo socialista. À exceção de Duong Thu Huong, ativista dos direitos humanos4, eles têm talvez menos propostas relativas ao futuro. De sua parte, o PC, o “Pai da Vitória”, imagina renovar sua legitimidade apoiando-se em três pilares: expansão econômica, luta contra os “fenômenos negativos” (corrupção, degradação dos costumes) e retomada dos valores nacionais (ou, se preferirmos, históricos). Substituir uma “solidariedade internacional” em pleno desaparecimento pela imagem de Confúcio talvez traga conforto a uma população já há tanto tempo bombardeada por slogans vazios que nem mais lhes dá atenção. Mas as aspirações estão em outro lugar.

Em busca de outras referências

Mesmo nos rincões mais distantes do país, os cibercafés proliferam. Uma juventude muitas vezes desocupada descobre um mundo sem fronteiras5. A rede conduz a uma viagem a outro lugar, à busca de outras referências. Ela rompe com um sem-número de obstáculos. Alguns jornais organizam assim chats muito concorridos com autores de todas as tendências, inclusive os da diáspora. Fronteiras desaparecem e, na busca por valores, a “horizontalidade” vai, pouco a pouco, sobrepujando a “verticalidade”. Os jovens procuram o horizonte das respostas, para além do hábito de esperar que a boa nova venha de cima.

Cada qual em sua praia. “O governo quer abrir as portas para os jovens poetas e escritores, mas impõe limites. Gostaria, segundo a tradição, que escrevêssemos sobre os heróis da guerra. Mas não podemos fazê-lo, pois não a vivemos. Nós falamos de sexo”, conta Lynh Barcadi, nome literário de uma jovem poetisa que, na Cidade de Ho-Chi-Minh, integra um pequeno grupo político feminino chamado “Louva-a-Deus”, cuja fêmea supostamente come o macho após o acasalamento.

“Os jovens abordam tabus: o retrocesso da luta de classes, a droga, a degradação do ensino público, o homossexualismo”, explica uma crítica de arte da Cidade de Ho Chi Minh, seduzida pela audácia deles. Para além do evidente “engajamento”, Doan Cam Thi evoca, de sua parte, uma “literatura intimista digna de interesse”, pois “o eu é parte integrante do mundo”. “Sem fechar os olhos para os problemas da sociedade”, acrescenta, “eles nos falam de sua vida, de suas preocupações, de seus sonhos, de seus sofrimentos; ao descrever um mundo opaco, ao mergulhar nas regiões turvas do inconsciente, eles desconcertam os leitores e criam um mal-estar.”

Ly Doi é o porta-voz de um grupo de “antipoetas” chamado Mo Mieng (“Abrir a Boca”), fundado em 2000 na periferia da Cidade de Ho Chi Minh. Ele carrega um pouco demais nas tintas em um curto texto divulgado na rede no ano passado:

“Experimento uma sensação não pela tradição, mas por espaços imensos.
Experimento sozinho uma sensação por minha época, não tenho ligação alguma com os outros.
Não pertenço a nenhum princípio, nenhum partido político, nenhuma religião, nenhuma ideologia, nenhuma organização; diabo, eu pertenço a mim mesmo.
Experimento uma sensação pela liberdade primitiva e por meu verdadeiro rosto.
Quero declarar guerra a tudo que depende da ordem comercial: os museus, os críticos, os historiadores da arte, os estetas e esses que alguns chamam de ‘forças culturais’.
Estou convencido de que a verdadeira arte não nasceu, pois a verdadeira liberdade e a verdadeira justiça não foram estabelecidas.
A liberdade não nasceu, a obra-prima da liberdade também não”6.

Esses jovens escritores caminham na fronteira do niilismo. São por vezes demasiado grosseiros, mas não vulgares. Manejam a provocação com um apetite sério, a fim de fazer “cair as máscaras” e oferecer um sopro de ar fresco. “A provocação na linguagem não é essencial. Essencial é recorrer a uma linguagem popular, uma linguagem corrente; essencial é a honestidade”, explica Ly Doi. Eles não procuram publicar seus escritos e sua assim chamada “casa editora”, Giay Vun (Papel Usado), distribui fotocópias e CDs. Estudantes em processo de envelhecimento, reivindicam sua marginalidade e escrevem utilizando o linguajar popular do Sul, sem dissimular-lhe as grosserias. Seus escritos se pretendem a expressão dos bairros populares de onde eles se originam, uma literatura de bui doi (“poeira de vida”), mas bui doi dotada de bagagem cultural e histórica sólida.

“Cidadãos do mundo”

Hesitante, sua abordagem é uma busca da alternativa, tanto no pensamento como na expressão. Eles são influenciados por um de seus representantes mais velhos, autoproclamado “cidadão do mundo”, Tran Quoc Chanh, enfant terrible da cena literária da Cidade de Ho Chi Minh, autor de um poema (“Cabeças pensantes, vão tomar no c…!”) que provocou sensação no microcosmo literário vietnamita. É a recusa de caminhos batidos. Eles são talvez, também, o reflexo de uma juventude que busca combater o vazio, o tédio, a angústia, em lugar de se refugiar na droga, no sexo ou no dinheiro. “Um desejo de viver, nada mais, viver de outra forma, pensar diferente de seus predecessores”, resume Doan Cam Thi.

No coração do PC, antigos resistentes se dão conta de que um partido ao mesmo tempo ator e juiz provoca uma situação sem horizonte. Carente de contrapeso e de diálogo, torna-se incapaz de oferecer um projeto de verdade. Um especialista francês evoca “o vazio extraordinário deixado pelos ‘novos pensadores’ capitalistas-marxistas vietnamitas em matéria de ideologia, mensagem, moral e ética, de tal modo estão atolados em seu sistema”. A retomada da tradição e da exaltação do nacionalismo não basta para cobrir o buraco. A tendência seria antes aprofundá-lo, acentuar o descompasso entre o poder político e uma sociedade lutando com uma situação inteiramente nova: o Vietnã unificado e independente deve gerar, pela primeira vez desde o século XIX, não apenas sua coexistência com a China, mas também seu lugar no seio da mundialização.

Em A nos vingt-ans, crônica romanceada publicada em francês em 2005 (Aube), Nguyen Huy Thiep evoca uma juventude dissoluta cuja única salvação reside na volta à natureza e às tradições. Produto de uma desilusão pessoal, essa crônica é de uma originalidade limitada: o autor se mete – ou tenta fazê-lo – na pele de um adolescente de boa família que mergulha no universo das drogas e das gangues. Dele só sairá após ter sido deixado em uma ilha da baía de Along, onde forçosamente passa por uma desintoxicação antes de ser recolhido por pescadores que lhe fazem retomar o gosto pela vida. A notícia da morte do pai, escritor conhecido e de conduta irrepreensível, provoca então o saudável clique do arrependimento. Tudo volta assim à ordem.

Por ocasião do trigésimo aniversário de 1975, Thiep escreveu que “hoje, para cobrir a perda dos valores tradicionais, perseguimos um modo de vida materialista, violento, hedonista”7. Ele acrescenta que “a corrupção é uma catástrofe que não conseguimos conter”, que as “malversações contaminam o espírito da juventude”. Essa visão simplista no entanto não representa uma solução de verdade, porque o retorno à natureza e à ordem tradicional, igualmente apregoado pelo poder, é utópico. A contradizê-la está a eclosão da nova geração de escritores cujas preocupações são de ordem bem diferente.

O Vietnã é um país cuja dinâmica foi retomada depois de trinta anos de guerra, após uma década de erros e mais outra de hesitações. Um artista da diáspora vietnamita residente nos Estados Unidos, Dinh Q. Le, assim explicou o árduo avanço dos vietnamitas: “Essas pessoas vêm lutando há vinte anos. Não fazem a menor idéia de como administrar um país. Avançam, recuam, depois voltam a avançar. Mas também se pode encontrar nessa sociedade algo que a distingue no Sudeste Asiático: um ímpeto por melhorar a si mesma, por fazer alguma coisa com sua vida”8.

 

*Jean-Claude Pomonti é jornalista.

 



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