RESENHA

Os fantasmas de Verena Cavalcante

Ótimo exemplar de literatura fantástica, Como nascem os fantasmas foge das obviedades da literatura ocidental e nos mostra que a ficção fantástica no Brasil tem infinitas possibilidades

Fotografia de Verena Cavalcante. Ela está com os cabelos pretos soltos, olhando para a câmera
Crédito: Hoelzel/Wikimedia

Se a boa literatura é aquela que representa os impasses e contradições expressas do espírito do tempo, então a ficção especulativa trabalha com a racionalização dos nossos medos, preconceitos individuais e sociais e com a possibilidade de imaginar outros mundos além deste.

Como nascem os fantasmas, de Verena Cavalcante (SUMA, 2025), apresenta essas características dentro do fantástico contemporâneo. Obra de estirpe superior, combina suspense, horror e romance de formação. Narra a história de Beatriz, uma órfã que vive com a avó médium em um vilarejo e passa a desenvolver poderes mediúnicos, comunicando-se com os mortos e ajudando a encontrar o corpo de uma criança assassinada.

O que mais me chamou atenção na história de Cavalcante foi a sutileza e elegância da prosa. Narrado em primeira pessoa, combina diálogos coloquiais com narrações e descrições poéticas, ricas e fluidas. Sentimos imersos naquele pequeno povoado repleto de tipos humanos e paisagens simplórias mas cheio de estranheza quando colocadas sob o olhar arguto da autora. Os personagens são bem construídos, cheios de cor local, um dos pontos altos do romance. Verena Cavalcante foge de lugares comuns e apresenta a cultura popular de maneira respeitosa e rica. E a cultura do lugar reflete de forma correta a pluralidade de crenças e causos sobre fantasmas e visagens tão comuns até aqueles anos 1990.

Gostaria de citar um trecho mostrando a maestria da linguagem:

 

Flanando nas asas noturnas, uma orquestra bestial sinalizou a dolorosa metamorfose que rege o fim de todas as coisas. Ao meu lado, Lipe gritou, a voz de menino engrossando em urro de urso. Me tímpano cedeu, espalhando reflexos de dor que repicaram por toda a cabeça. Travei o maxilar e, com um ruído crocante de quebra nozes, meus dentes de leite escorregaram pela garganta, encontrando ninho no estômago. Em seu lugar, alargando gengivas, enfileirando-se em osso virgem, nasceu uma nova arcada, encavalada e torta, dentes de cão. (p. 123

 

A personagem principal é convincente ao narrar seu processo de crescimento e amadurecimento. Os conflitos ao ver seu corpo mudar, os sentimentos que sente ao entrar na adolescência, principalmente em relação ao seu amigo Lipe, e ao dilema de ser considerada pela avó como uma reencarnação da mãe e sua busca pela sua própria identidade, são apresentados de forma harmoniosa com a história. Há também vários temas sociais que ressoam nas páginas de Cavalcante: feminicídio, violência de gênero, maus-tratos e negligência infantil, abandono e intolerância religiosa.

A obra é um ótimo exemplar de literatura fantástica, baseada na riqueza da cultura popular brasileira. Foge das obviedades da literatura ocidental e nos mostra que a ficção fantástica no Brasil tem infinitas possibilidades.

Ao leitor amigo, caso deseje saber como nascem os fantasmas, Verena Cavalcante é minha recomendação para este final de ano.

 

Ricardo Kaate Lima é doutor em Ciências Sociais pela Unesp, vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus (2022) e autor de A lança de Anhangá (Cachalote, 2024)

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