Os movimentos sociais na era digital - Le Monde Diplomatique Brasil

TWITTER E GÁS LACRIMOGÊNEO

Os movimentos sociais na era digital

por Gustave Massiah
31 de janeiro de 2020
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Os movimentos atuais assumem novas formas: manifestações e ocupações de massa e repentinas. Com variações em função das situações, apresentam-se como antiautoritários e horizontais. Mesmo que vejamos aparecer líderes e porta-vozes, nenhum deles os controla. São movimentos da era digital, mesmo quando essa característica não é suficiente para defini-los

Baseado no livro de Zeynep Tufekci, Twitter & les gaz lacrymogènes [Twitter & os gases lacrimogêneos] (C&F Éditions, 2019), proponho algumas reflexões e hipóteses sobre a situação atual dos movimentos sociais. A obra marcante de Tufekci é uma pesquisa sobre a nova geração de movimentos, os movimentos sociais conectados, marcados pela era digital, e permite compreender as capacidades e as culturas desses movimentos, a interação com as tecnologias digitais, bem como os contra-ataques das autoridades a essas mobilizações no âmbito próprio da informação digital.

Para compreender as mudanças em gestação para os movimentos, para as sociedades e para a sociedade mundial, é necessário levar em conta os riscos do digital. É essencial compreender os movimentos sociais na era digital e considerá-los uma nova geração de movimentos sociais. É uma tarefa essencial para a qual contribui muito o livro de Tufekci. Em seguida, tentaremos reposicionar esses movimentos na dinâmica dos movimentos de altermundialismo.

 

A proposição de transição social, ecológica e democrática resulta da inscrição dos movimentos sociais a longo prazo

Para os movimentos sociais, o período atual é de ruptura. Os diferentes movimentos sociais são o produto de uma longa evolução, marcada pelas lentas evoluções e por episódios revolucionários.

Entre os movimentos longos, podemos citar os movimentos sociais com grandes lutas operárias e camponesas; o movimento da descolonização, com a passagem da primeira fase da independência dos Estados à fase atual de libertação das populações; o movimento das liberdades e dos direitos com uma nova sequência nos anos 1960.

Movimentos consideráveis também se desenvolveram em escala mundial, sobretudo o movimento dos direitos das mulheres, que coloca novamente em discussão relações milenares. Pensemos também no movimento dos povos autóctones. Tais movimentos combinam hoje vários períodos mais longos em torno da proposição da intersecionalidade que vai levar em conta a articulação de diferentes formas e razões da opressão: as classes, os gêneros e as origens.

Outro movimento ganhou grande importância e se tornou estruturador: o movimento ecologista pela urgência climática e pela biodiversidade. A convergência desses movimentos se encontra na proposição estratégica: a de uma transição social, ecológica e democrática.

 

No período recente, uma explosão de movimentos a partir de 2011

Na evolução dos movimentos sociais, há uma continuidade, e os movimentos atuais prolongam os precedentes, em especial as lutas operárias e camponesas. Também há rupturas. Pode-se cogitar a hipótese de que se trata de uma reação das populações à crise financeira de 2008, que revelou a fragilidade do neoliberalismo, tornando-o “austeritário” do capitalismo financeiro, misturando austeridade e autoritarismo.

Podemos considerar que a nova geração de movimentos na era digital se iniciou após a autoimolação de Mohamed Bouazizi com os eventos de Sidi Bouzid na Tunísia, retransmitidos pelas redes sociais, provocando a “Revolução de Jasmim”. Em seguida assistimos a uma sucessão ininterrupta ao redor do mundo. Após a Tunísia e a Praça Tahrir, no Cairo, os indignados na Espanha, Portugal e Grécia, os “occupy” em Londres, Nova York e Montreal, os estudantes chilenos e os guarda-chuvas de Hong Kong. Isso sem contar as manifestações maciças na Argentina, na França com os coletes amarelos, no Chile, no Equador e em toda a América Latina, na Síria, no Líbano, no Iraque, no Irã, na Palestina, prolongando-se até o Sudão, Argélia, Hong Kong de novo…

Os movimentos sociais evoluem e aprendem. Raymond Benhaim1 ressalta que os últimos movimentos se distinguem dos precedentes pela vontade de remediar a fraqueza da paralisia tática. Não estão mais na configuração da ocupação estática de uma praça ou de um local simbólico, mas organizam um movimento maciço de apropriação da cidade. Organizam as mobilizações uma ou duas vezes por semana e, entre as duas, dão-se tempo para analisar, mudar e produzir palavras de ordem unitárias para a vez seguinte. Estabelecem objetivos a superar; ganham batalhas parciais e continuam sua mobilização. Desse modo, o Hirak argelino conseguiu anular duas vezes as datas das eleições; em Hong Kong, os manifestantes fizeram que fosse anulado o decreto de transferência para a China de pessoas declaradas culpadas de crimes; em Beirute, os manifestantes demandaram e obtiveram a demissão de todo o governo e a nomeação de um governo independente de tecnocratas; os sudaneses impuseram ao Exército um governo transitório e eleições em três anos.

Esses movimentos, bem diversos e muitas vezes contraditórios, explodem no contraponto da ideologia dominante e das reações brutais e autoritárias dos poderes contestados. A sequência não termina.

 

Uma nova geração de movimentos antiautoritários e horizontais

Esses movimentos assumem novas formas: manifestações e ocupações de massa e repentinas. Com variações em função das situações, apresentam-se como movimentos antiautoritários e horizontais. Mesmo que vejamos aparecer líderes e porta-vozes, de fato nenhum deles os controla. Por sua forma de organização e uso do digital, são movimentos da era digital, mesmo quando essa característica não é suficiente para defini-los.

Encontramos neles, em função de situações específicas, palavras de ordem análogas: a recusa das desigualdades sociais, das discriminações, das injustiças e uma demanda de liberdades e de efetividade de direitos. Vemos aparecer cada vez mais a reivindicação de justiça ambiental. Encontramos por todos os lados a luta contra a corrupção. Podemos criar a hipótese de que tal repúdio à corrupção traduz a tomada de consciência da fusão entre as classes políticas e a classe financeira, que anula a autonomia da política. Essa desconfiança da política se traduz pela rejeição da delegação e da representação e na reinvindicação por uma nova democracia. De Argel a Santiago, passando pelo Sudão, Iraque ou Hong Kong, a escritura de uma “nova Constituição” sempre é pedida pelos manifestantes.

 

Os movimentos sociais entram em confronto com a repressão e a contrarrevolução

Desde 2013, quando se dava continuidade aos novos movimentos, começaram as contrarrevoluções, com a ascensão de ideologias racistas, securitárias e xenófobas, e a onda das guerras descentralizadas. O neoliberalismo endureceu sua dominação e reforçou seu caráter securitário apoiado em repressões e golpes de Estado. Os governos reacionários e autocráticos tomaram o poder em diversos países, a começar por Estados Unidos, Rússia, China e Brasil. Os movimentos sociais e de cidadania se encontram em posição defensiva. As resistências sociais, democráticas, políticas e ideológicas buscam se organizar.

Precisamos retomar a situação para medir as consequências de um período de contrarrevoluções.2 Muitas contrarrevoluções conservadoras estão em curso: a contrarrevolução neoliberal, a das antigas e novas ditaduras, a do conservadorismo evangélico, a do conservadorismo islamita e a do conservadorismo hinduísta. Elas nos lembram que os períodos revolucionários são geralmente breves e muitas vezes seguidos de contrarrevoluções violentas e muito mais longas. Mas as contrarrevoluções não anulam as revoluções, e o novo que a fez eclodir continua a progredir e emerge, às vezes muito tempo depois, sob novas formas. É um novo mundo que custa a aparecer, lembrando a visão de Gramsci em 1937: “o velho mundo morre, o novo tarda a aparecer, e nesse claro-obscuro surgem os monstros”.

 

Os movimentos sociais contribuem para preparar o novo mundo que tarda a aparecer

Quais são as mudanças profundas que constroem o novo mundo e prefiguram as contradições do futuro? O digital não é a única reviravolta em curso. Podemos identificar cinco mutações em curso, revoluções inacabadas nas quais já percebemos as primeiras reviravoltas. A revolução dos direitos das mulheres coloca em discussão relações de dominação milenares. A revolução dos direitos dos povos, segunda fase da descolonização pós-independência dos Estados, destaca a libertação dos povos e questiona as diversas identidades e formas do Estado-Nação. A tomada de consciência ecológica é uma revolução filosófica, que recoloca publicamente a ideia de que vivemos em um tempo e em um espaço que não são mais infinitos. O digital renova a linguagem e a escrita, e as biotecnologias questionam os limites do corpo humano. A revolução do povoamento do planeta está em curso; as migrações são um dos aspectos de uma revolução demográfica mundial.

Há diversas reviravoltas em curso, revoluções inacabadas e incertas. Nada permite afirmar que não serão esmagadas, desviadas ou recuperadas. Mas também nada nos permite afirmar que o serão. Elas agitam o mundo; também são portadoras de esperanças e já marcam o futuro e o presente. Por enquanto, provocam repúdio e grandes violências.

(Imagem: Rob Kall)

 

Os ativistas digitais têm um papel a desempenhar como movimento social

O digital é uma revolução tecnológica que possui fortes interações com as mudanças sociais, sem com isso subdeterminá-las. Os ativistas dos movimentos sociais desempenharam um papel no desenvolvimento do digital, ainda que seus aportes tenham sido confiscados e desviados pelas Gafam (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft). Também existem opositores no interior do mundo digital, que formam um movimento social específico que converge com os movimentos sociais e pode reforçá-los.

Podem ter um papel motor na luta contra as Gafam e contra a impunidade e o poder exorbitante das multinacionais digitais. Também podem ter importância no desenvolvimento de ferramentas participativas de verificação indispensáveis para se opor ao contra-ataque das autoridades no próprio território digital e da informação (vigilância de massa, desinformação, fake news…).

Podem contribuir dotando os movimentos de ferramentas digitais que reforçarão as primeiras fases da mobilização, permitirão resistir aos contra-ataques das autoridades e às plataformas hegemônicas, contribuirão para evitar paralisias táticas, facilitarão as narrativas dos movimentos e inscreverão os movimentos na determinação de estratégias.

 

Reforçar e fazer irromper os movimentos sociais na era digital

Com base na análise de Zeynep Tufekci, podemos identificar tarefas a assumir para reforçar e fazer irromper os movimentos sociais na era digital. Não se trata de engajar tarefas definidas por uma direção política ou por uma vanguarda, o que seria antinômico com a natureza dos movimentos. Trata-se de abrir um amplo debate para fazer progredir os conhecimentos, os métodos e as técnicas, chamando todos os ativistas, em particular os ativistas digitais, a se engajarem e a colocarem propostas pela livre disposição dos movimentos.

As primeiras proposições englobam a capacidade narrativa. Esta depende das situações, mas também está ligada a uma capacidade narrativa horizontal em escala mundial. Trata-se de progredir nas três narrativas: uma narrativa para a urgência e a resistência, que se opõe à ideologia dominante racista, securitária e xenófoba; uma narrativa para as alternativas, para outro mundo possível, implicando a superação da globalização capitalista neoliberal; e uma narrativa para as estratégias de médio prazo, para a década, definindo as etapas para a transição social, ecológica e democrática e as políticas a desenvolver.

Três narrativas a serem construídas para a transição social, ecológica e democrática podem ser esboçadas. A narrativa da urgência propõe a contestação do capitalismo verde e do neoliberalismo autoritário, a recusa da mercantilização da natureza e da vida, além da efetividade dos direitos e das liberdades. A narrativa de outro mundo possível se apoia nos bens comuns, no bem viver, na propriedade social e coletiva, na gratuidade e nos serviços públicos e na democratização radical da democracia. A narrativa da estratégia de médio prazo pode ser a da prosperidade sem crescimento e do Green New Deal.

As propostas secundárias incluem as formas de organização dos movimentos. Trata-se de fazer progredir a cultura e a tomada de consciência das dificuldades nos quatro ramos: a preparação dos movimentos, a gestão dos movimentos para evitar a paralisia tática, a resposta à repressão e a durabilidade dos movimentos.

 

Os movimentos sociais interpelam os partidos políticos e a forma partidária

Os movimentos sociais da era digital são movimentos políticos. Assumem de maneira direta uma parte das tarefas de organização que tradicionalmente cabiam aos partidos políticos, em especial a liderança reconhecida e as negociações. Essa estrutura tradicional é amplamente discutida por causa da grande desconfiança dos ativistas e em geral das populações mobilizadas em relação às instituições políticas e, de modo especial, em relação aos partidos políticos. Em alguns casos, partidos políticos relativamente tradicionais surgem nos movimentos, ou melhor, em uma parte deles. É o caso do Podemos (Espanha) e do Syriza (Grécia). Em outros casos, formas de organização estruturadas, incluindo certos partidos, foram reconhecidas, como “a União dos Profissionais” sudaneses. Esses prolongamentos devem ser avaliados e aprofundados.

Os movimentos sociais também estão em redefinição. Citemos, por exemplo, o movimento camponês com a Via Campesina, que apoiou as mobilizações por meio de uma renovação radical de suas palavras de ordem em torno da agricultura camponesa, da recusa aos transgênicos e da soberania alimentar. Além disso, os movimentos sociais são confrontados pela difícil negociação com os poderes e pelo risco de se tornarem ONGs que os acompanham.

A pesquisa de uma nova síntese, ou pelo menos de uma melhor articulação entre a forma movimento e a forma partido, está na ordem do dia. Implica discutir os modos de organização dos partidos, tanto dos parlamentares como daqueles de vanguarda. Hervé Le Crosnier3 sublinha que nenhum movimento aceita ser representado por partidos em um jogo institucional; no entanto, vitórias no seio das instituições reforçam a consciência global e os movimentos, como mostra a evolução atual nos Estados Unidos. Como lidar com essa contradição a longo prazo?

A discussão da forma partidária é muito mais profunda. Está ligada à discussão sobre a estratégia antes dominante de transformação social: criar um partido para conquistar um Estado, para mudar a sociedade. Os partidos construídos para conquistar o Estado se tornam Partidos-Estado antes de terem conquistado o Estado e, assim, se transformam em freios para os movimentos e evoluções culturais e sociais. A conquista do Estado permitiu à burguesia impor o capitalismo, é pouco provável que venha a permitir que saiamos dele. O que está em jogo é a definição de uma nova estratégia de transformação política.

 

O desafio mais difícil para os movimentos é redefinir a democracia

Do ponto de vista das narrativas, seja a da urgência, da alternativa ou da estratégia, vemos relativamente bem o que pode ser proposto para a transição social e para a transição ecológica. O movimento social destacou as perspectivas e as proposições para um mundo sem desigualdades sociais nem discriminação. O movimento para o clima abriu um debate vigoroso sobre a transição ecológica. É na democracia que o desafio é mais difícil de se erguer. É nessa dimensão que os progressos são indispensáveis.

A questão da democracia está constantemente presente. Começa com as reinvindicações de garantia das liberdades, de repúdio à repressão e ao autoritarismo, de demanda de efetividade dos direitos e da igualdade. Apresenta-se em um imperativo de dignidade, no questionamento das instituições e na importância dos serviços públicos. Os movimentos horizontais destacam a corrupção e se estendem até a recusa da delegação e da representação.

A democracia representativa é questionada. É necessária, mas não suficiente? Como encontrar as garantias para que ela não sirva de simples cobertura para os poderosos? Os movimentos se consideram formas de democracia em atos. No entanto, têm dificuldades de resolver as questões de democracia interna. É para inventar novas formas de democracia que uma revolução filosófica e cultural é necessária.

 

Os movimentos sociais renovam as relações entre o local, o nacional e o mundial

Os movimentos sociais na era digital ainda se definem em escala nacional; suas reinvindicações se dirigem aos poderes de seu Estado, de seu país. Também têm uma fixação local; são conhecidos pelo nome das cidades onde ocorrem, às vezes até da praça ou da rua que ocupam. Também possuem desde o início uma dimensão mundial; é nessa escala que adquirem seu sentido.

Esses movimentos são uma resposta à globalização capitalista e à sua fase neoliberal. Podemos considerá-los uma nova fase do altermundialismo. Zeynep Tufekci revela que encontramos neles muitas vezes pessoas que participaram de diferentes manifestações altermundialistas, que se reuniram ou trocaram ideias, seja presencialmente ou por meio de grupos de debate digital. O movimento altermundialista lembra que a transformação de cada sociedade não pode ser desejada sem a mudança do mundo. Apoia-se em um direito internacional construído em torno do respeito aos direitos fundamentais. Propõe, no lugar de uma definição do desenvolvimento fundada no crescimento produtivista e nas formas de dominação, uma estratégia da transição ecológica, social, democrática e geopolítica. Como propõem Édouard Glissant e Patrick Chamoiseau,4 à globalização capitalista opomos a globalidade e as identidades múltiplas.

A estratégia interpela a articulação do local ao global. O local implica a ligação entre os territórios e as instituições democráticas de proximidade. O nível nacional implica a redefinição do político, da representação e da delegação na democracia, o reforço da ação pública e o controle democrático do poder do Estado. As grandes regiões são os espaços políticos ambientais, geoculturais e da multipolaridade. O nível mundial é o da urgência ecológica; das instituições internacionais, do direito internacional, que deve se impor em relação ao direito dos negócios; e da liberdade de circulação e instalação, em especial dos direitos dos migrantes.

 

Os movimentos sociais na era digital carregam uma contraofensiva em relação à hegemonia cultural reacionária atual

O que há de comum nos diferentes movimentos é o repúdio às desigualdades sociais e às discriminações e a rejeição à corrupção. Nisso, eles são portadores de uma contraofensiva em direção à ideologia dominante da globalização neoliberal. É preciso lembrar que o neoliberalismo foi preparado por uma ofensiva ideológica, carregada pela então nova extrema direita nos anos 1980, representada na França pelo Club de l’Horloge. Tal ofensiva era no início dirigida contra a igualdade. As desigualdades eram consideradas naturais, o que conduzia a uma concepção securitária: contra a desordem, era preciso reprimir as incivilidades, substituindo as estratégias de integração social que haviam sido realizadas durante o período dos Trinta Gloriosos.

As migrações foram destacadas pelos poderes dominantes para semear o medo e reforçar coesões racistas que apagariam as diferenças sociais do espírito dos povos. Os movimentos afirmam que as migrações não são o problema principal da humanidade, em especial as que envolvem os países do Norte, quando a maior parte das migrações são sobretudo de proximidade, provocadas por guerras e genocídios. Os movimentos sabem bem que um mundo sem migrações é irreal. Em relação à ofensiva da direita contra os migrantes, podemos contrapor um ponto de vista: o direito de viver e trabalhar no país; a liberdade de circulação e de instalação; o acolhimento incondicional.

A ideologia dominante é racista, xenófoba e securitária. Os migrantes são escolhidos como bodes expiatórios, mas o alvo dessa ideologia é a desigualdade. É por isso que podemos considerar que os movimentos sociais da era digital que denunciam as desigualdades e as injustiças são portadores de uma contraofensiva. Há, no entanto, movimentos sociais de direita e de extrema direita, como pudemos perceber nos Estados Unidos, no Brasil, na Índia, na Hungria e em outros lugares. Tais movimentos podem compartilhar certas características “técnicas” de movimentos sociais calcados à esquerda, em especial o conhecimento do digital e suas formas virais. É, portanto, no fundo político, e não nas ferramentas, que é necessário concentrar o debate, na coerência das reivindicações sociais, ecológicas e democráticas.

 

Os movimentos sociais da era digital mostram que as desigualdades e as injustiças se tornaram insuportáveis

Os movimentos sociais anunciam uma nova era em escala mundial, uma era análoga àquela dos direitos no século XVIII, à das nacionalidades em 1848, às revoluções socialistas do século XX, à da descolonização da segunda metade do século XX, à da contracultura e da liberação das mulheres dos anos 1960 e 1970.

A circulação mundial das informações, apoiada no digital, não está aí por acaso. Entre os movimentos em curso e a troca de reflexões, estratégias, cumplicidade e debates apaixonados que ocorrem no campo digital, uma nova era se desenha e uma nova força mundial se constrói. Ela encontra aí, no entanto, inclusive no âmbito digital, oposições conduzidas por poderes locais e acompanhadas de gigantes que se estabeleceram na economia digital. A dialética entre o Twitter e os gases lacrimogêneos, entre a ação de campo e a informação e coordenação digital tornou-se um elemento-chave de nosso período.

Essa revolução ainda subterrânea, mas cujos movimentos localizados, maciços e repetidos formam os principais portos seguros, é carregada pela ideia compartilhada em escala global de que as desigualdades, as injustiças, a arbitrariedade e a corrupção são insuportáveis. E que a revolta por não suportá-las mais é legítima. Tão mais legítima pelo fato de se tratar do futuro da própria humanidade, confrontada com uma crise climática e ecológica enorme que os poderes vigentes se recusam a considerar. As revoltas não são somente agitações de repúdio. As revoltas se tornam revoluções quando as questões parecem possíveis. Se as desigualdades e as injustiças se tornaram insuportáveis e inaceitáveis, é também porque um mundo sem desigualdades e sem injustiças parece possível.

 

*Gustave Massiah é membro do conselho internacional do Fórum Social Mundial e do conselho científico da Attac-França.

 

1 Raymond Benhaim, “D’un Hirak à l’autre” [De um Hirak ao outro], revista marroquina Zamane, out. 2019.

2 Gustave Massiah, “Le nouveau monde qui tarde à apparaître et la nécessaire pensée stratégique” [O novo mundo que tarda a aparecer e o pensamento estratégico necessário], Europe Solidaire Sans Frontière, 2016.

3 Obrigado a Hervé Le Crosnier por suas correções atentas neste artigo.

4 Édouard Glissant e Patrick Chamoiseau, “De loin, lettre ouverte au Ministre de l’Intérieur de la République Française” [De longe, carta aberta ao ministro do Interior da República Francesa], dez. 2005.



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