Entre o ressentimento e a coragem
Para que a democracia brasileira floresça, não basta esperar que pessoas iluminadas surjam milagrosamente. É preciso construir, de baixo para cima, as condições da própria República

Para que a democracia brasileira floresça, não basta esperar que pessoas iluminadas surjam milagrosamente. É preciso construir, de baixo para cima, as condições da própria República
Reter, burlar ou repassar tardiamente recursos de campanha destinados a candidaturas negras constitui uma forma de violência política de raça e gênero, operada para perpetuar a política como feudo exclusivo da branquitude e do patriarcado
A greve geral interprofissional ainda é possível nos dias de hoje? Claro, o movimento contra a reforma da previdência do inverno de 2019-2020 na França foi marcante por sua amplitude, pela duração da interrupção do trabalho de trens e metrô e pela forte aprovação da opinião pública. Mas ele também encontrou limites consideráveis
Os movimentos atuais assumem novas formas: manifestações e ocupações de massa e repentinas. Com variações em função das situações, apresentam-se como antiautoritários e horizontais. Mesmo que vejamos aparecer líderes e porta-vozes, nenhum deles os controla. São movimentos da era digital, mesmo quando essa característica não é suficiente para defini-los
O corte nas verbas da educação levou mais de 1 milhão de pessoas às ruas no dia 15 de maio. O governo não se sensibilizou com as mobilizações e o presidente classificou os manifestantes de “idiotas úteis”. Nesse mesmo dia, como uma retaliação às amplas manifestações por todo o Brasil, Bolsonaro assinou um decreto presidencial retirando a autonomia das universidades a partir de 25 de julho. É um decreto inconstitucional. É uma provocação.
A França festeja a salvação da minha fábrica. Foi o que eu lhe disse. E a honra de meu avô, operário da oficina de Depasse. De meu pai, mecânico de automóveis com 17 anos de idade. A honra de seu filho, que entrou para a Blanquefort em 1974, um ano após sua inauguração por Jacques Chaban-Delmas e Henry Ford II. A honra dos 862 assalariados em luta, aos quais em breve vão se juntar outros 2 mil, como na década de 2000.
Em 2011, o movimento Occupy Wall Street se construiu em torno de uma ideia, um slogan: “Temos em comum o fato de sermos os 99% que não toleram mais a avidez e a corrupção do 1% restante”. Diversos estudos acabavam de demonstrar que a quase totalidade dos ganhos da recuperação econômica tinha beneficiado o 1% dos norte-americanos mais ricos. (escute o artigo na versão original)
Seis anos após a independência, o Sudão do Sul é devastado pela guerra civil. Mediadores dirigem-se, desordenadamente, para o pequeno país petroleiro da África central. Mas não é possível vislumbrar nenhuma paz sustentável sem afastar as simplificações midiáticas: o conflito não é “étnico”, é político. E suas raízes remontam à colonização britânica
No período dos governos petistas o trabalho doméstico foi perdendo centralidade. Está aí a sua característica anticíclica. Quando todas as ocupações crescem e a economia retoma o dinamismo e o crescimento, o emprego doméstico tende a perder participação. Nas manifestações pró Impeachment, não raras vezes se erguiam cartazes denunciando o alto custo do trabalho doméstico
Enfrentando temperaturas abaixo de zero, mais de 1 milhão de sul-coreanos manifestaram-se toda semana durante mais de dois meses. Algo nunca visto desde a queda da ditadura, em 1987. Eles conseguiram o afastamento da presidenta Park Geun-hye, acusada de corrupção, e agora lutam por mudanças mais profundas
Em junho, dezenas de milhares de pessoas, agrupadas em torno da Praça Taksim, mas também em toda a Turquia, desafiaram o governo e denunciaram os desvios autoritários do presidente Erdogan. Ainda que este tenha conseguido se recompor e a contestação tenha acalmado, o movimento de múltiplas facetas reflete mudançasTristan Coloma
“Não há crise de liderança na África do Sul”, repetiu o presidente Zuma após massacre de Marikana. Criticado, ficou na defensiva. Escondeu-se atrás dos cantos de luta contra o apartheid. E se apoiou em números: casas construídas, ligação de luz… mas jamais empregos criados ou jovens negros saídos das universidadesSabine Cessou