Os populistas norte-americanos contra o lobby dos médicos - Diplô Brasil

NOS ESTADOS UNIDOS, O GRANDE PAVOR DEMOCRÁTICO

Os populistas norte-americanos contra o lobby dos médicos

por Thomas Frank
31 de julho de 2020
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A negligência de Donald Trump e Jair Bolsonaro diante da crise sanitária reforçou a ideia de que os “populistas” seriam hostis à ciência, particularmente a médica. A história dos Estados Unidos e a do Canadá lembram o contrário: os populistas lutaram para democratizar o saber e a saúde, enquanto as corporações de médicos trabalham para reservá-los aos ricos

Neste ano de pandemia, a crise política que lhe serve de fundo teria relação, segundo dizem, com a obstinação do povo norte-americano em rejeitar a autoridade do discurso científico. Veja aquele pessoal brincando na piscina do restaurante, perto do Lago de Ozarks (Missouri), enquanto uma epidemia terrível varre o país… E toda aquela gente que espalha as mais absurdas teorias da conspiração, compartilha recomendações sanitárias fantasiosas nas redes sociais, faz compras sem máscara, lança fogos de artifício no meio da rua… E o que dizer do presidente imbecil, que ignora as recomendações de seus próprios especialistas, passa o tempo apontando os responsáveis sem nunca se incluir entre eles e chegou a aconselhar as pessoas a tomar desinfetante, já que funciona tão bem na limpeza da cozinha e do vaso sanitário?

Essa batalha implacável entre “ignorantes” e “iluminados” está há anos no centro da vida política dos Estados Unidos.1 Para muita gente, os democratas, os “progressistas”, são de longe os mais alinhados com a realidade objetiva: eles ouvem religiosamente as opiniões dos ganhadores do Prêmio Nobel e outros laureados por prêmios científicos de excelência. Já os republicanos viveriam em outro mundo – um mundo de fábulas e lendas, onde a verdade não tem valor.

Em tempos normais, nosso clube de comentaristas, autoproclamados formadores de opinião, aproveita-se da disputa para classificar cada lado. Nós somos os espertos! Eles são os estúpidos! Mas, com a pandemia, o confronto de repente ganhou outra nitidez. Os norte-americanos respeitáveis proclamam com voz trêmula sua eterna e inabalável confiança na ciência, e as autoridades democratas exortam uma nação de joelhos a seguir os conselhos dos especialistas como se fossem a palavra divina.

Nossos formadores de opinião também têm uma teoria para explicar os comportamentos irresponsáveis observados entre alguns grupos, que favorecem a propagação do vírus. Esses desgarrados não são apenas idiotas, garantem eles: agem sob a influência de uma verdadeira doutrina anticiência – o “populismo”. Os partidários dessa fé – os “populistas”, portanto – são asnos incultos ressentidos contra aqueles que são mais instruídos, devotando-lhes o mais profundo desprezo.2 Eles preferem confiar em palpites a acreditar no saber livresco, desdenham das recomendações dos profissionais de saúde, exaltam a sabedoria das multidões – e, é claro, são racistas. O populismo é o inimigo da ciência: está em guerra contra o pensamento racional. Ele é cúmplice na propagação do mal, se não for o próprio mal.

 

Privilégios do saber

Eis um pequeno silogismo que a classe intelectual norte-americana não se cansa de nos apresentar – e como poderia ser diferente, se ele é tão sedutor e acaricia as vaidades? A ciência médica é a verdade, o populismo está errado: essa evidência é tão flagrante que glorificar a primeira e condenar a segunda se tornou um tema banal, alimentando artigos e editoriais até a exaustão.

Acontece que tudo isso é um enorme equívoco. Se os Estados Unidos se mostram tragicamente incapazes de lidar com a ameaça do novo coronavírus, isso não é decorrência fundamentalmente da extraordinária estupidez de Donald Trump – embora ela tenha seu papel. Isso se dá em razão de um sistema: o sistema de saúde dos Estados Unidos. É ele que pisoteia a própria ideia de saúde pública e transforma o acesso à saúde em um luxo reservado a poucos. É ele que joga as pessoas na miséria por causa de uma simples perna quebrada, que recusa atendimento a quem não tem seguro, que retira o seguro de quem está desempregado – e a pandemia está tirando o emprego de milhões de pessoas. Por fim, é ele que, no dia em que a cura para a Covid-19 estiver disponível, a venderá a preço de ouro.

E esse sistema é o que é porque a “medicina organizada”, apoiada no prestígio de que goza a especialização profissional, luta há quase um século para garantir que ele não mude. Ao contrário, durante todo esse período, foi das fileiras populistas que saíram os impulsos de reforma que tentaram – sem sucesso – transformá-lo, a fim de que ele esteja a serviço da maioria. Em outras palavras, nossos especialistas, acadêmicos e pensadores muito sérios e supremamente inteligentes erraram em tudo. É precisamente porque nos prostramos demais aos pés das recomendações científicas que a saúde pública se tornou um sonho inatingível. E a cura para o mal que nos atinge não está em outra parte senão nesse populismo tão odiado e temido pelos especialistas.

Para entender o que está em jogo, precisamos começar definindo o termo. O vocábulo “populista” foi adotado em 1891 nos Estados Unidos, no Kansas, por membros de um jovem partido agrário. Com reivindicações que iam do abandono do padrão ouro à luta contra os monopólios, passando pela nacionalização das ferrovias, o movimento logo ganhou amplitude, a ponto de seu sucesso, por um tempo, parecer garantido. Mas isso não se confirmou: em menos de dez anos, o Partido Populista foi dizimado. Sua influência, porém, atravessou gerações, já que algumas de suas ideias podem ser encontradas no Partido Socialista Americano, no New Deal das décadas de 1930 e 1940 e nas campanhas presidenciais de 2016 e 2020 de Bernie Sanders.

A ascensão e queda dos populistas norte-americanos – e aqui falo daqueles que cunharam o termo – têm sido um assunto muito apreciado pelos historiadores com uma veia romanesca, e inúmeras obras foram dedicadas a ele. Todos esses trabalhos destacam um fato curioso: os representantes dessa corrente nada tinham contra a ciência ou contra a educação. Pelo contrário, seus discursos em defesa da tecnologia, do conhecimento e da educação eram tão sinceros e floreados que ficamos quase constrangidos em lê-los hoje. Por que esses panegíricos? Porque os populistas se consideravam perfeitamente alinhados ao progresso científico do fim de século, defendendo princípios como o Estado de bem-estar e a intervenção do poder público.

Paralelamente, estavam em constante luta contra as elites econômicas e intelectuais de seu tempo, com tantos especialistas declarando ver a mão de Deus na ordem estabelecida. Para os populistas, todas as formas de privilégio eram suspeitas, incluindo o prestígio no qual as profissões superiores baseavam sua autoridade. Um exemplo vívido dessa ideia está no célebre Jardim do Éden, localizado na cidade de Lucas, no Kansas: um parque de esculturas, construído na década de 1910, que é uma das primeiras tentativas de popularizar teorias populistas e socialistas. Entre suas principais atrações, há uma cena chamada “A força de trabalho crucificada”, na qual um trabalhador é torturado até a morte pelos mais eminentes membros da comunidade: um banqueiro, um advogado, um médico e um padre.

Em suma, a visão de mundo dos primeiros populistas era radicalmente democrática: o povo tinha o primado de tudo, e o justo papel dos especialistas em uma democracia deveria limitar-se a servir e informar os cidadãos.

Os populistas do final do século XIX eram pouco loquazes a respeito da política de saúde. É preciso dizer que a medicina norte-americana ainda não era o labirinto burocrático terrivelmente caro que conhecemos hoje. No entanto, assim que os preços dos medicamentos passaram a subir, nas décadas seguintes, começaram a florescer diversos sistemas alternativos mais democráticos, imaginados em conjunto por agricultores, organizações sindicais e instituições de caridade, com um único objetivo: tornar a assistência médica acessível às classes trabalhadoras.

Entre as realizações cujo crédito deve ser dado aos “neopopulistas”, há uma pela qual tenho um fraco. Ela nasceu em 1929, em Elk City, Oklahoma, estado onde as teses populistas tiveram forte ressonância no final do século anterior. Trata-se do estabelecimento de um sistema cooperativo de saúde no qual camponeses e suas famílias, em troca de uma pequena taxa anual, tinham garantia de acesso a médicos, dentistas e um hospital local com equipamentos modernos. Os membros da cooperativa – ou seja, todo mundo, mas sobretudo os trabalhadores da terra – eram responsáveis por eleger seu comitê de gestão e gerenciar o aspecto econômico.

Esse sistema foi inventado por um certo Dr. Michael Shadid, que decidiu montá-lo com a ajuda da seção local da Farmers Union, uma organização sindical camponesa. A presença dessa entidade confirma a dimensão populista do projeto, pois ela era uma descendente mais ou menos direta do partido criado na década de 1890. Mas a história pessoal do Dr. Shadid é ainda mais instrutiva.

Nascido no Líbano, Michael Shadid emigrou para os Estados Unidos em 1898. Desde o início de sua carreira, ele exerceu a medicina junto a agricultores que não tinham um tostão. Ele também teve uma breve adesão ao Partido Socialista. Apesar de suas convicções políticas incomuns, ele não era nada charlatão – pelo contrário, suas exigências em matéria de qualidade do atendimento eram particularmente altas. Shadid destacava-se de seus pares pela denúncia de uma prática da medicina que considerava predatória, especialmente nas pequenas cidades de Oklahoma. Buscando se distanciar desse modelo, ele se dizia um “médico do povo”3 capaz de resolver o eterno quebra-cabeça dos Estados Unidos, que até hoje continua sem solução: cuidados médicos caros e saúde ruim para a população. “Em tempos de guerra e de paz, de crise e de abundância, de tempestade e de calmaria, há fatos que não mudam: os pobres adoecem mais cedo, ficam mais tempo doentes e são os que menos recebem cuidados médicos, embora sejam os que mais precisam. Alguns são pobres porque estão doentes. Outros estão doentes porque são pobres”, escreveu.4

 

Ameaças de represália

Em outra obra, Shadid afirma agir em nome do “povo dos Estados Unidos”, lutando “para escapar à dominação dos privilégios, que está levando o país para o caminho da ditadura e do caos”. Citando essas palavras em um livro publicado em 1939, o jornalista James Rorty comentou: “São propostas simples, mais populistas do que socialistas, que atingiram em cheio os agricultores de Oklahoma, porque falavam exatamente daquilo que eles viviam”.5

É bastante claro que, quando falava em “privilégios”, Shadid estava pensando na American Medical Association (AMA, Associação Médica Americana), a organização profissional dos médicos. Seus membros simplesmente declararam guerra a ele por ter ousado abrir um hospital cooperativo, lançando contra ele os estratagemas mais diabólicos. Para eles, o plano do reformador neopopulista era “imoral”, pois planejava confiar decisões econômicas a não iniciados. Após tentar cassar sua licença, a AMA expulsou Shadid de sua seção local, fazendo-o perder assim seu seguro de responsabilidade civil. Ela também conseguiu dissuadir a maioria dos profissionais que ele tentou contratar de se juntar a ele.

Os comentaristas de hoje certamente descreveriam esse episódio, com ar de alta gravidade e caretas de desaprovação, como uma guerra do populista Shadid contra a ciência. Mas seria muito mais preciso falar em uma “guerra da ciência contra o populismo”.

Essa guerra durou muitos anos, e a AMA conseguiu combater e enterrar, uma após a outra, todas as propostas para democratizar o acesso aos cuidados de saúde. Seus membros organizaram, por exemplo, um boicote a uma fazenda de gado leiteiro a fim de induzir uma fundação de caridade vagamente ligada a ela a encerrar suas pesquisas no campo da “economia da medicina”, como se chamava então. O historiador Paul Starr também conta que, em Washington, onde uma cooperativa de saúde semelhante à de Elk City acabara de surgir, a AMA “ameaçava todos os médicos envolvidos na iniciativa com represálias, agia para impedir que conseguissem consultas ou que pacientes lhes fossem encaminhados pelos colegas e conseguiu convencer todos os hospitais do Distrito de Columbia a lhes negar a prerrogativa de admissão [isto é, o direito concedido a um médico, em virtude de sua condição de membro pertencente a um estabelecimento de saúde, de admitir um paciente em um hospital ou centro médico para fornecer-lhe diagnóstico ou tratamento]”.6

Esse ataque rendeu à AMA um processo baseado na legislação antitruste, mas não bastou para fazê-la parar. Afinal, ela não reunia os melhores especialistas de seu tempo, que estavam apenas exigindo ser tratados com o respeito que lhes era devido? Seu presidente chegou a ponto de protestar, em 1938, contra a abertura de uma investigação federal sobre a reforma do sistema de saúde. Ele afirmava que toda a hierarquia social fica pervertida quando se aceita que beócios peçam alto e bom som remédios de curandeiros, exigindo que profissionais os prescrevam. “É uma prática da medicina que não é científica nem economicamente racional”, afirmava com desprezo.

É realmente impressionante o que a ética profissional é capaz de impedir quando os profissionais sentem que seu status social está ameaçado. Reeleito presidente em 1948, após uma campanha muito mais populista do que a de Donald Trump em 2016, Harry Truman decidiu concentrar seu segundo mandato na cobertura universal de saúde. Poucos meses depois de assumir o cargo, ele apresentou um programa para isso, louvando as façanhas da medicina moderna, ao mesmo tempo que destacava que ela havia provocado a disparada dos preços dos medicamentos. “Dessa forma, os cuidados médicos estão inacessíveis não mais apenas aos pobres, mas a todos os grupos de renda, com exceção das mais elevadas”,7 declarou em 1949 em discurso ao Congresso.

O contra-ataque da AMA foi imediato. Criticando o “sistema nocivo, típico das nações decadentes”, ela argumentou que o plano de Truman colocaria os médicos, representantes superiormente qualificados de uma profissão altamente respeitada, sob a batuta de “uma enorme burocracia de administradores públicos, funcionários, contadores e comissões leigas”. Determinada a impedir esse presidente ignaro, a AMA convocou seus membros (bastante abastados, em sua maioria) a contribuir, cobrando uma cotização excepcional e, assim, reunindo um fabuloso tesouro de guerra. Esses fundos lhe permitiram contratar os serviços de uma agência californiana chamada Campaigns Inc., pioneira em comunicação política, a quem confiou a missão de liderar suas forças em campo. Logo o país se viu afogado em uma avalanche de panfletos, correspondências e cartuns abjetos, os quais sugeriam que o advento de uma “medicina socializada” significaria o irremediável fim da liberdade individual.

Por causa desses métodos, que infelizmente se tornaram clássicos, o projeto de Truman fracassou, assim como todas as tentativas ulteriores de estabelecer um sistema de saúde realmente universal nos Estados Unidos. Mas foi no Canadá que a guerra da ciência contra o populismo teve seus eventos mais explosivos, como nos recorda o historiador Robert McMath.8

Em várias províncias das pradarias canadenses, os ecos da revolta populista norte-americana da década de 1890 permaneceram por décadas. Durante a Grande Depressão, a personificação política por excelência dessa tradição foi um partido agrário radical chamado Co-operative Commonwealth Federation (CCF, Federação Cooperativa da Commonwealth). Em 1944, ele conseguiu uma vitória esmagadora nas eleições provinciais de Saskatchewan, formando então o que a história chamou de “o primeiro governo socialista da América do Norte”.

Reeleita várias vezes ao longo dos anos, a CCF fez campanha em 1960 em torno de um projeto de cobertura universal de saúde para toda a província, saindo mais uma vez vitoriosa de uma eleição amplamente dominada por esse tema. Dois anos depois, em julho de 1962, o governo local estava pronto para lançar o Medicare, seu sistema de saúde de pagador único, ou seja, cujos custos são cobertos por um único sistema público – o primeiro da nação canadense.

Foi então que a “ciência organizada” lançou sua arma de destruição em massa. No mesmo dia em que o novo sistema entrou em vigor, todos os médicos de Saskatchewan entraram em greve. Seus efetivos não passavam de mil pessoas, ainda assim esse foi, em todo seu esplendor, um “momento Ayn Rand”, para retomar o nome da filósofa e romancista do século XX, apóstola do individualismo, muito popular nos Estados Unidos.9 Com essa ação, o 1% dos instruídos e abastados intimaram o povinho a ficar em seu lugar e demonstrar respeito.

Essa versão canadense do confronto entre ciência e populismo – entre um grupo profissional pequeno, porém prestigiado, e os trabalhadores de Saskatchewan – também recorreu a manobras que só a AMA conhecia. Assim como ela, a associação de médicos da província canadense acumulou um enorme montante por meio da cotização de seus membros, utilizando-o para financiar seus esforços de propaganda. Não apenas o movimento recebeu apoio da Câmara de Comércio de Saskatchewan e outras associações comerciais, como também a imprensa local seguiu seus passos em uníssono, bradando contra a difusão do comunismo e das doenças. Ativistas de extrema direita também fizeram a festa, por meio de um coletivo vindo do nada, o Keep Our Doctors (KOD, Manter nossos médicos), que pretendia combater o sistema de pagador único por meio das reuniões públicas, da caça às bruxas e de insinuações racistas – pois o governo neopopulista anunciara sua intenção de trazer médicos do exterior para substituir os grevistas.

A questão central, evidentemente, era a do lugar que os especialistas deveriam ocupar em uma democracia. Os médicos viviam então uma situação de monopólio: somente eles decidiam sobre a escolha dos tratamentos e seu preço, e só prestavam contas a seus pares. O projeto da CCF – assim como o do Dr. Shadid e o do presidente Truman – vinha enfraquecer sua autoridade, confiando parte dela aos cidadãos comuns. Na época, um repórter do Washington Post observou: “Os médicos são os ‘sumos sacerdotes’ de nosso tempo e, como tal, não têm o hábito de receber ordens do governo”.

Convocado a mediar a controvérsia, o barão Taylor, médico e político britânico, resumiu os fatos em termos quase clínicos. A AMA, escreveu ele em 1974, estava “em uma oposição histérica a qualquer forma de seguro-saúde público, empenhando-se, não sem sucesso, para transmitir essa histeria aos médicos e à opinião pública de Saskatchewan”.10

O diagnóstico foi preciso, para dizer o mínimo: uma associação profissional havia deliberadamente espalhado histeria pelas pradarias canadenses. O resultado foi um ataque de “pavor democrático”, como costumo chamar aquilo que se produz quando os estratos superiores de uma sociedade se convencem de que o povo enfurecido coloca em risco seus privilégios. Essas crises periódicas de histeria têm várias constantes: a democracia é descrita como uma tirania, as camadas inferiores são criticadas por ousarem se meter em assuntos que não compreendem (seja economia, política externa ou, no caso em questão, medicina) e, claro, a mídia atua em bloco.

Todos esses ingredientes estavam presentes no grande pavor democrático de 1896. Naquele ano, a classe dominante norte-americana, apoiada por quase todos os órgãos da imprensa, acreditava-se ameaçada por um proletariado sanguinário que marchava sob a bandeira de William Jennings Bryan, o candidato presidencial democrata, um homem considerado radical e ao qual os populistas se uniram. Do alto de suas torres de marfim, os homens bem educados da virada do século se espalharam pelos jornais da Costa Leste para bradar que o movimento populista não passava de uma revolta de dementes e imbecis.

Às vezes, o pavor democrático atinge seu objetivo. Não foi o caso da grande greve do 1% que incendiou Saskatchewan em 1962 – seu fracasso foi, inclusive, retumbante. Se em um primeiro momento o medo teve seu efeito, logo a simpatia pela causa dos médicos arrefeceu, auxiliada pelos discursos exagerados do campo dos especialistas – um pastor evangélico que espalhava a opressão pelas ondas do rádio chegou a pedir que corresse sangue.11 A greve terminou em um mês. Cinco anos depois, todas as províncias do país tinham um sistema de saúde inspirado no modelo de Saskatchewan, e o Medicare é até hoje uma das realizações sociais das quais o Canadá mais se orgulha.

Nenhum dos movimentos de reforma que acabei de descrever contestou a importância da pesquisa científica ou de qualquer uma de suas conclusões. Todos esses pensadores neopopulistas admiravam a medicina moderna – eles simplesmente queriam torná-la acessível aos mais modestos. Em outras palavras, foram duas visões da sociedade que entraram em conflito: privilégio versus igualdade.

“A questão fundamental do conflito entre o governo e os médicos de Saskatchewan não é o seguro-saúde público, mas a democracia”, escreveu o jornal canadense The Globe and Mail algumas semanas após o início da greve. “Cedo ou tarde, não importa qual seja sua especialidade, o profissional precisa se submeter ao leigo, caso contrário a democracia não pode funcionar.”

Exatamente! – exclamaram alguns –, esse é o grande problema da democracia: ela dá a esses leigos ignorantes poder sobre aqueles que lhes são superiores. George Sokolsky, um editorialista norte-americano de audiência nacional, defendeu ruidosamente os grevistas de Saskatchewan, alegando que eles encarnavam “a luta dos especialistas em uma época na qual prevalece o governo da multidão”. Anticomunista até a medula, ele pintou um quadro em que médicos lutavam para manter a cabeça fora da água enquanto o planeta inteiro se afogava na onda do igualitarismo. “Houve um tempo em que as pessoas se respeitavam mutuamente pelo que valiam”, escreveu. “Agora, o lema parece ter se tornado: ‘Eu valho tanto quanto você’.” Essa filosofia, que ele considerava tão falsa quanto perniciosa, o enfurecia. Embora em um país como os Estados Unidos todos fossem livres para expressar suas opiniões, parecia-lhe natural que, à medida que o mundo se tornasse mais complexo, “apenas especialistas pudessem opinar sobre uma gama cada vez mais ampla de assuntos”.

Sokolsky era um macarthista fervoroso que avançava para a direita da direita. A CCF de Saskatchewan era um partido agrário e operário à esquerda. Hoje, o jogo virou, tudo se inverteu. O Partido Democrata que elegeu Harry Truman agora atende aos interesses de executivos ricos e graduados. Ele resgata diligentemente os pequenos gênios de Wall Street. Obedece escrupulosamente às injunções de economistas que glorificam o livre-comércio. E, quando seus representantes propõem a reforma da saúde, não o fazem consultando a base, mas reunindo especialistas de todos os setores envolvidos e pedindo que reorganizem o sistema entre si. Depois disso, ficam espantados quando a opinião pública expressa sua ira.

 

“Nós, o povo”

As forças presentes na cadeia de atendimento de saúde também mudaram. A AMA não é mais o forte baluarte dos profissionais de saúde que era antes. Na luta para impedir o advento da cobertura universal, novos atores – grupos hospitalares, empresas farmacêuticas e companhias de seguros – conseguiram superá-la em termos de poder e influência, porém com uma motivação inalterada: honrar o que agora é chamado de “inovação” e os profissionais que estão por trás dela.

A transformação mais profunda, porém, diz respeito ao pensamento de esquerda. A maneira como os autoproclamados progressistas usam e abusam da palavra “populismo” mostra que eles se voltaram resolutamente contra sua herança democrática. Agora os ouvimos nos lembrar das virtudes da censura12 e evocamos com nostalgia os felizes dias em que os patrões escolhiam nossos líderes para nós. A democracia coloca um problema, explicam eles, pois permite que o povo ignore a autoridade dos especialistas. É a essa democracia indócil que devemos a eleição de Trump e nosso desamparo diante do aquecimento global ou da pandemia de Covid-19. Tudo isso é culpa nossa: o culpado somos “nós, o povo” (palavras que abrem o preâmbulo da Constituição dos Estados Unidos).

O cenário político está, portanto, de ponta-cabeça, mas a luta continua a mesma. Agora mais ligados à pureza moral gelada da esquerda do que ao anticomunismo dos caipiras da direita, os especialistas continuam fulminando os insolentes que ousam desafiar seu poder. O verdadeiro tópico do debate são seus privilégios, e todos somos incentivados a nos prostrar a seus pés e à marcha cerrada em defesa de sua causa.

No entanto, deixando de lado as fantasias egoístas desse politburo moderno, a velha equação política ainda se distingue por trás do véu da suficiência de esquerda. Hoje, o senador abertamente populista Bernie Sanders é o mais ardente defensor de um sistema de saúde universal, enquanto os soldados da “ciência organizada” e do poder privado se empenham sistematicamente em atacar essa ideia. O populismo não é a última descoberta preciosa do mal que nos afeta; ele é o remédio que pode nos livrar desse mal.

 

Thomas Frank, jornalista e historiador, é autor de The People, No: A Brief History of Anti-Populism [O povo, não: uma breve história do antipopulismo], Metropolitan Books, Nova York, 2020.

 

1 Ver Chris Mooney, The Republican War on Science [A guerra republicana contra a ciência], Nova York, Basic Books, 2005.

2 Cf. Scott Lehigh, “Time to end populism’s war on expertise” [É hora de acabar com a guerra do populismo contra os especialistas], The Boston Globe, 7 abr. 2020.

3 Cf. Michael A. Shadid, A Doctor for the People: The Autobiography of the Founder of America’s First Co-operative Hospital [Um médico para o povo: a autobiografia do fundador do primeiro hospital cooperativo da América], Elk City, Oklahoma, Vanguard Press, 1939.

4 Michael A. Shadid, Doctors of Today and Tomorrow [Médicos de hoje e de amanhã], The Cooperative League of the USA, Nova York, 1947.

5 James Rorty, American Medicine Mobilizes [Quando a medicina norte-americana reúne suas tropas], W.W. Norton, Nova York, 1939.

6 Paul Starr, The Social Transformation of American Medicine. The Rise of a Sovereign Profession and the Making of a Vast Industry [A transformação social da medicina dos Estados Unidos. A ascensão de uma profissão suprema e a criação de uma vasta indústria], Basic Books, 2017 (reedição).

7 Harry Truman, “Special message to the Congress on the nation’s health needs” [Mensagem especial ao Congresso sobre as necessidades de saúde da nação], 22 abr. 1949.

8 Robert C. McMath Jr., “Populism in two countries: Agrarian protest in the Great Plains and Prairie provinces” [Populismo em dois países: protesto agrário nas províncias das Grandes Planícies e das Pradarias], Agricultural History, v.69, n. 4, outono 1995.

9 Ler François Flahault, “Ni dieu, ni maître, ni impôt” [Nem deus, nem patrão, nem imposto], Le Monde Diplomatique, ago. 2008.

10 Citado em Malcolm G. Taylor e Allan Maslove, Health Insurance and Canadian Public Policy: The Seven Decisions That Created the Health Insurance System and Their Outcomes [Seguro-saúde e política pública canadense: as sete decisões que criaram o sistema de seguro-saúde e seus resultados], McGill-Queens University Press, Montreal, 2009.

11 Gregory P. Marchildon (org.), Making Medicare: New Perspectives on the History of Medicare in Canada [Criando o Medicare: novas perspectivas sobre a história do seguro-saúde no Canadá], University of Toronto Press, 2012.

12 Jack Goldsmith e Andrew Keane Woods, “Internet speech will never go back to normal” [O discurso na internet nunca voltará ao normal], The Atlantic, Boston, 25 abr. 2020.



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