XVI IRSA E 64º SOBER

Os sistemas alimentares no centro da agenda climática internacional

A construção de sistemas alimentares resilientes e de estratégias de adaptação às mudanças climáticas constitui um desafio urgente para governos, pesquisadores e sociedade

Enquanto pesquisadores discutiam adaptação climática, sistemas alimentares e desenvolvimento rural dentro das salas de conferência, a chuva intensa que atingia Porto Alegre lembrava, do lado de fora, que as mudanças climáticas já não pertencem ao futuro. Foi nesse contexto que cerca de 1.500 participantes de diferentes países se reuniram entre os dias 19 e 25 de julho de 2026 para o XVI World Congress of Rural Sociology (IRSA) e o 64º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER), transformando a capital gaúcha em um dos principais espaços internacionais de debate sobre o futuro da alimentação e dos territórios rurais.

O IRSA, associação científica com enfoque nos estudos rurais com preponderância mundial, está entre os encontros pioneiros em conectar sociologia rural, sistemas alimentares e desenvolvimento rural. Com discussões internacionais, estabelece diálogo entre pesquisas do sul e norte global. No ano de 2026, em que a IRSA completou 50 anos de existência, a eleição do professor doutor Sérgio Schneider, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), para a presidência da associação foi considerada um marco histórico. Pela primeira vez, um representante da Asociación Latinoamericana de Sociología Rural (ALASRU) assumiu a presidência da principal associação internacional de sociologia rural, ampliando a visibilidade da produção científica latino-americana no cenário global.

Fundada em 1959, a SOBER é a mais antiga associação científica brasileira voltada aos estudos sobre o mundo rural. Ao integrar as áreas de economia, administração e sociologia rural, consolidou-se como um dos principais fóruns nacionais de discussão sobre desenvolvimento rural. Seus congressos anuais, realizados em diferentes regiões do Brasil, reúnem pesquisadores, estudantes, gestores públicos e representantes de organizações da sociedade civil para debater pesquisas, políticas públicas e os desafios contemporâneos do meio rural.

A realização conjunta do XVI Congresso da IRSA e do 64º Congresso da SOBER representou um marco para a comunidade científica, ao aproximar duas das principais associações dedicadas aos estudos rurais e fortalecer o diálogo entre diferentes tradições de pesquisa em torno dos desafios contemporâneos do desenvolvimento rural. A iniciativa evidenciou a importância da integração entre diferentes áreas do conhecimento para compreender a complexidade dos sistemas alimentares e dos territórios rurais.

Realizado sob o tema Policies for Nature, Food, and Nutrition in Times of Uncertainty and Climate Change, o encontro foi marcado por um período de intensas chuvas que atingiram Porto Alegre e diversas regiões do Rio Grande do Sul. Em um contexto no qual as mudanças climáticas constituíam um dos principais eixos de debate do congresso, a ocorrência desses eventos extremos ultrapassou o plano das discussões teóricas e passou a integrar a experiência vivida pelos próprios participantes. De certo modo, o cenário climático reforçou a atualidade e a urgência dos debates sobre sustentabilidade, sistemas alimentares e desenvolvimento rural, evidenciando que as transformações ambientais deixaram de representar projeções futuras para se tornarem parte do cotidiano e dos desafios enfrentados pela sociedade. Mais do que uma pauta científica, tornou-se evidente que a construção de sistemas alimentares resilientes e de estratégias de adaptação às mudanças climáticas constitui um desafio urgente para governos, pesquisadores e sociedade. Assim, o congresso reafirmou a centralidade das políticas para natureza, alimentação e nutrição nas agendas científicas e políticas.

Exposição IRSA/SOBER 2026 – Foto: Acervo pessoal

A realização conjunta dos eventos aproximou duas comunidades científicas que compartilham uma preocupação comum: compreender as transformações do mundo rural e contribuir para a construção de respostas aos desafios sociais, econômicos e ambientais contemporâneos. Enquanto a sociologia rural amplia o olhar para as relações sociais, os territórios, as formas de organização da vida no campo e seu impacto ambiental, a economia e o desenvolvimento rural oferecem contribuições para a compreensão das políticas públicas, dos mercados, da inovação e das estratégias produtivas. Reunir essas diferentes perspectivas fortalece um diálogo internacional cada vez mais necessário diante da emergência climática.

Os impactos das mudanças climáticas deixaram de ser projeções para se tornar parte da realidade de agricultores e agricultoras, comunidades rurais e cidades. A falta de preparo para o enfrentamento dos eventos extremos compromete a produção, alteram cadeias de abastecimento, pressionam o preço dos alimentos e ampliam situações de insegurança alimentar. Ao mesmo tempo, recolocam os sistemas alimentares no centro da agenda internacional. A forma como produzimos, distribuímos, comercializamos e acessamos os alimentos passou a ocupar um lugar estratégico nas discussões sobre adaptação climática, desenvolvimento e redução das desigualdades.

Essa mudança aparece de forma clara na programação dos congressos. Os grupos de trabalho e sessões temáticas revelaram uma agenda de pesquisa que ultrapassa os limites tradicionais da produção agrícola. Agricultura familiar, agroecologia, sociobiodiversidade, bioeconomia, governança, mercados territoriais, cooperativismo, juventudes rurais, povos originários e tradicionais, inovação e políticas públicas aparecem conectados por uma questão comum: como fortalecer sistemas alimentares capazes de responder aos desafios ambientais, sociais e econômicos do século XXI. A emergência climática deixa de ocupar um espaço específico e passa a atravessar praticamente todas as discussões.

Conferência de abertura IRSA/SOBER 2026 – Foto: Acervo pessoal

A dimensão do encontro refletiu a relevância internacional dos debates promovidos ao longo da semana. Ao todo, foram submetidos mais de 1.600 trabalhos científicos, distribuídos entre os 40 grupos temáticos da IRSA e os 13 grupos temáticos da SOBER. Pesquisadores, estudantes e profissionais de mais de 30 países, representando os cinco continentes, ocuparam sete prédios e mais de 60 salas do Campus Centro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), transformando a universidade em um espaço de intenso intercâmbio científico e cultural. A diversidade de temas, perspectivas teóricas e experiências territoriais evidenciou a complexidade dos desafios relacionados às políticas para a natureza, a alimentação e a nutrição em um contexto de incertezas e mudanças climáticas, reforçando o caráter interdisciplinar e internacional do congresso.

Houve também programação com visitas de campo que aproximam os participantes de experiências desenvolvidas em diferentes territórios do Rio Grande do Sul, incluindo assentamentos da reforma agrária, comunidades indígenas Kaingang e Mbya Guarani, iniciativas de agricultura urbana, cooperativas da agricultura familiar, experiências de enoturismo e produtores de cachaça, projetos voltados à descarbonização da produção florestal e práticas tradicionais de pesca artesanal. Esses roteiros permitiram observar como diferentes comunidades constroem respostas para desafios comuns, articulando produção de alimentos, conservação ambiental, organização social e desenvolvimento territorial.

Saída de campo IRSA/SOBER 2026 – Foto: Acervo pessoal

Essa aproximação entre pesquisa e território constituiu uma das marcas dos dois congressos. O diálogo com famílias agricultoras, comunidades tradicionais, cooperativas e organizações sociais amplia a compreensão sobre os desafios enfrentados no cotidiano rural e evidencia que muitas das respostas à crise climática já estão sendo construídas em diferentes escalas e contextos.

A realização conjunta da SOBER e da IRSA ocorreu em um contexto de crescente demanda por evidências capazes de orientar políticas públicas voltadas à adaptação climática e à segurança alimentar. Após a COP30, o desafio deixou de ser apenas definir compromissos internacionais e passou a envolver sua implementação nos territórios. Ao reunir pesquisadores de diferentes países e contextos, o evento ampliou esse debate ao aproximar pesquisas, experiências e diferentes perspectivas sobre o futuro dos sistemas alimentares.

Para além da qualidade científica das atividades, o sucesso da realização conjunta da IRSA e da SOBER refletiu o trabalho dedicado da Comissão Organizadora. Durante meses, pesquisadores, docentes, estudantes e técnicos uniram esforços para viabilizar um encontro que mobilizou milhares de participantes, dezenas de atividades e uma complexa estrutura de apoio. A organização cuidadosa, a hospitalidade e o compromisso da equipe foram amplamente reconhecidos pelos participantes, evidenciando a capacidade da UFRGS e de suas instituições parceiras de sediar um dos mais importantes eventos internacionais dedicados aos estudos rurais.

A dimensão alcançada pelo evento somente foi possível graças à articulação entre universidades, agências de fomento, órgãos governamentais, associações científicas, organizações da agricultura e instituições parceiras, que contribuíram para a realização das atividades acadêmicas, visitas de campo e espaços de intercâmbio internacional. Essa ampla rede de cooperação demonstra que os desafios relacionados aos sistemas alimentares e às mudanças climáticas exigem respostas construídas de forma coletiva.

Mais do que pelos números ou pela amplitude da programação, o legado do encontro será percebido na consolidação de redes de pesquisa e cooperação internacional comprometidas com a construção de sistemas alimentares mais sustentáveis e resilientes. Em um contexto de intensificação das mudanças climáticas, Porto Alegre sediou não apenas um congresso científico, mas um espaço de construção de respostas para desafios que dizem respeito a toda a sociedade.

 

Beatriz Ribeiro Rocha é bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mestre em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Paraná (4P/UFPR), e atualmente está doutoranda pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR/UFRGS). É membro do Grupo de Pesquisa em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD).

Kamila Guimarães Schneider Mãe, professora da educação básica. Licenciada e bacharela em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), mestra em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (PPGAS/UFSC), e atualmente está doutoranda pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGS/UFRGS). É membro do Grupo de Pesquisa em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD) e do Grupo de Pesquisa Sociologia das Práticas Alimentares (SOPAS).

Marcela Donini de Lemos é professora de Sociologia, Licenciada em Ciências Sociais, mestra em Sociologia e doutoranda em Sociologia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É membro do Grupo de Pesquisa em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD). Atua nas áreas de sistemas alimentares, desenvolvimento sustentável e ativismo institucional.

Larisse Medeiros Gonçalves é engenheira agrônoma e doutora em Desenvolvimento Regional. Atua nas áreas de políticas públicas, Agroecologia e questões socioambientais, com ênfase em desenvolvimento territorial, agricultura familiar e sustentabilidade. É integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD) e do Centro de Estudos sobre Sustentabilidade, Populações Tradicionais e Educação na Amazônia (CESPE).

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