Os talibãs enriquecem no Afeganistão - Le Monde Diplomatique

CONFLITOS NO ORIENTE

Os talibãs enriquecem no Afeganistão

por Louis Imbert
1 de setembro de 2010
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Os principais alvos da extorsão por parte dos talibãs são os militares estadunidenses, ou mais precisamente, seus subcontratados. Todo mês, de seis a oito mil comboios entregam a cerca de 200 bases o material necessário para continuar a guerra: munição, combustível, papel higiênico etc. Não sem antes pagar pedágioLouis Imbert

Hajji Mohammad Shah não teve muita sorte. No ano passado, ele tentou construir uma estrada nos arredores de Kunduz, no norte do Afeganistão. Eram 25 quilômetros que permitiriam aos camponeses do distrito de Chahar Dara vender produtos no mercado central do município. Custo do projeto: 63.600 euros, fornecidos pelo Banco Asiático de Desenvolvimento. Assim que a obra começou, um talibã veio cobrar impostos. O Conselho de Anciãos do distrito, que estava à frente dos trabalhos, pagou 13.900 euros para que a via não fosse destruída antes mesmo de ser terminada. Em seguida, apareceu um segundo emissário e eles pagaram novamente. Para o terceiro solicitante, os anciãos explicaram que não tinham mais dinheiro. Resultado: certo dia de março de 2010, quando Shah voltava de sua pausa para o almoço, encontrou seus operários cercados por homens armados, que queimaram dez máquinas. As perdas chegaram a 176 mil euros.  

  

Governo paralelo 

  

Mohammad Omar, governador de Kunduz, não consegue explicar o que ocorreu: ele não sabe se os anciãos não pagaram o suficiente ou se simplesmente não molharam as mãos certas. Resume, fatalista: “Os talibãs fazem o que querem aqui. Matam, torturam, extorquem à vontade.” Omar sabe bem o alcance do sistema de extorsão implementado por seus colegas talibãs, que estabeleceram um governo paralelo insurgente em Kunduz, que fica com uma porcentagem sobre quase tudo o que se constrói na região: estradas, pontes, escolas, clínicas etc. Quanto mais se “reconstrói” o Afeganistão, mais os talibãs enriquecem. 

  

Mas os bolsos do mulá Omar também estão cheios. Uma palavra resume sua fonte de renda: ópio. Esta substância, segundo um relatório publicado no fim de 2009 pelo Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime1, representa apenas 10% a 15% dos rendimentos dos talibãs, entre taxas e tráfico. “O essencial do dinheiro é levantado localmente”, confirma Kirk Meyer, encarregado da Afghan Threat Finance Cell na embaixada norte-americana de Cabul. “Nós não sabemos em que medida os lucros realizados graças ao ópio de Helmand2 são redistribuídos para as províncias mais pobres. Aliás, os talibãs vivem de donativos de organizações não-governamentais de fachada, além de roubos, contrabando de cedro e minerais de cromo na fronteira paquistanesa…”, explica. 

  

Abdoul Kader Modjaddedi, 32 anos, é engenheiro. Ele é sobrinho de Sibghatullah Modjaddedi, atual presidente do Senado e primeiro presidente da república após a queda do regime comunista em 1992. O engenheiro está construindo sete pequenos quilômetros de estrada sob as montanhas da província de Laghman. Em torno das máquinas ficam postados guardas. Um detalhe chama a atenção: metade deles porta uniforme, enquanto a outra ostenta túnicas tradicionais e sistematicamente barba. Por quê? A segunda metade dos milicianos foi enviada pelos chefes talibãs locais, em troca de 52 mil euros até o fim dos trabalhos. “Isso não é nada!” garante Modjaddedi, sorrindo. “Se eu tivesse de pagar cem guardas, isso me custaria 16 mil euros por mês. Com os talibãs, são oito mil euros, e o canteiro de obras fica seguro.” Ele já sofreu quatro ou cinco ataques, mas nos últimos seis meses tudo se acalmou. O governador da província está nas nuvens. Os Estados Unidos, que financiam a estrada através da Provincial Reconstruction Team, um programa militar que visa “conquistar corações e mentes”, fazem vista grossa. 

  

Extorsão 

  

Esse pequeno canteiro de obras de Laghman não é um caso isolado. Wali Mohammad Rasuli, antigo vice-ministro de obras públicas, aposentado há quatro meses, defende o sistema: “Eu falei duas vezes com o presidente Hamid Karzai, por mais de duas horas. Se nós terminássemos as estradas, a segurança automaticamente aumentaria em consequência da circulação e do comércio. Nós já pagamos aos talibãs, é preciso acabar com essa hipocrisia!”. Para o ministro em exercício, assim como para todos os doadores internacionais, essa hipótese está fora de questão. Mas, claro, eles se atêm à linha oficial: nós não damos nada aos insurretos. 

  

Os principais alvos dessa extorsão são os militares estadunidenses, ou mais exatamente seus subcontratados. Todo mês, seis a oito mil comboios entregam a cerca de 200 bases o material necessário para continuar a guerra: munição, combustível, material de escritório, papel higiênico, televisores etc.3 Os comboios são quase inteiramente garantidos por companhias privadas, nos marcos de um contrato de US$ 2,16 bilhões (o equivalente a 16,6% do Produto Interno Bruto afegão em 2009), segundo os dizeres do Host Nation Trucking, assinado em março de 2009. “Nós não conhecemos as fileiras de subcontratação. Não sabemos se elas pagam aos talibãs para passar em segurança. Nós injetamos bilhões lá dentro, e é possível que milhões acabem chegando às mãos dos insurretos”, declara um oficial estadunidense da Força Internacional de Assistência à Segurança no Afeganistão (Isaf). 

Zarghuna Walizada é a única mulher a dirigir uma companhia de transporte no Afeganistão. Ela atende sem véu, em um escritório lilás guarnecido com móveis dos anos 1970. Walizada sabe da pressão sob a qual trabalham os estadunidenses e também reconhece que eles não reembolsam os caminhões atacados no caminho. “A quem eu preciso pagar? À polícia, aos insurretos, aos talibãs. Isso não me interessa. O importante é que os caminhões passem.” Em alguns casos, a transferência é feita até sem escolta: “Para que precisaríamos de escolta? Os talibãs garantem nossa segurança.” 

  

“Claro, nós pagamos aos talibãs”, admite Ahmad Nawid, chefe do principal sindicato de transportadores rodoviários. “Em nome de Deus, você pode acreditar em mim: é extorsão pura e simples. Certas companhias de segurança nos pedem US$ 2 mil por contêiner, para algumas centenas de quilômetros de estrada. Desse valor, talvez metade esteja nas mãos dos talibãs.” 

  

Como se negocia a passagem? Não de maneira direta, evidentemente. “Meu patrão não gostaria nem um pouco que eu negociasse cara a cara com os chefes tribais de Helmand”, afirma Juan Diego Gonzales, ex-militar estadunidense e chefe da companhia de segurança privada afegã White Eagle. “Nós temos intermediários, que recrutam nossos guardas localmente. Às vezes é o próprio chefe tribal, ou seu filho, que dirige o comboio. O que fazemos é esperar justamente que eles não tenham laços muito diretos com os talibãs.” Ele diz trabalhar em estradas onde o equilíbrio de poderes é volátil, nenhum senhor de guerra é capaz de garantir sozinho a travessia. Isso lhe dá certa margem para escolher seus parceiros. Mas, como adverte um encarregado afegão da companhia privada de origem australiana Tac Force, há outras estradas em que “se você vai sozinho, vai criar graves problemas para si mesmo. Se não tiver a autorização do senhor local, você morre”. Segundo ele, a Tac Force segue as recomendações do Ministério do Interior afegão para identificar os “bons” senhores da estrada. 

  

Atualmente, o mais poderoso deles chama-se Ruhullah. Esse comandante, que nunca esteve com um oficial do exército estadunidense, tem cerca de 40 anos. Ele usa um Rolex sob seu shalwar kamiz – a veste tradicional –, fala com a voz estranhamente bem postada e controla uma parte essencial da autoestrada n° 1, que liga Cabul ao sul pachtun via Kandahar. Ruhullah trabalha associado aos irmãos Popal, proprietários do grupo Watan e primos do presidente Karzai. Em sua estrada, um comboio típico reúne 300 caminhões, acompanhados por 400 ou 500 guardas privados. A passagem de um contêiner em direção a Kandahar pode custar até 1.200 euros. No total, segundo recente relatório da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos4, o senhor da estrada e seus associados anglofónos embolsam “muitas dezenas de milhões de dólares por ano” para escoltar os comboios estadunidenses. Ruhullah, assim como os irmãos Popal, nega firmemente pagar aos talibãs onde não consegue passar à força. Ele diz ter perdido 450 homens no ano passado. 

  

Muitas companhias de segurança e transporte já se queixaram repetidas vezes ao exército estadunidense sobre as perdas financeiras acarretadas pelo recurso sistemático aos senhores da guerra, sem que os militares tenham conseguido resolver o problema. 

  

Mas o dinheiro dos talibãs não é todo ganho graças ao fuzil. Ele também passa por banqueiros eficazes, discretos, que fazem transitar doações vindas do Golfo, via Dubai e Paquistão. Um lugar crucial é o mercado de câmbio de Cabul: três andares de galerias abertas para um corredor, onde bancas de madeira colocadas até no chão estão recheadas com maços de dólares, rúpias, yuans e uma verdadeira multidão de frequentadores. Segundo um estudo da afegã Threat Finance Cell, 96% dos afegãos preferem esses mercados ao guichê dos bancos para suas transferências de dinheiro. Eles só precisam empurrar a porta do escritório de um agente financeiro (hawala), em meio à centena dos que estão disponíveis. São estandes estreitos, que não condizem com a amplitude do comércio praticado ali, em que meia dúzia de empregados afundados em sofás brilhantes de couro passa, a cada final de tarde, as receitas do dia pelas contadoras de cédulas. Essas redes datam do século VIII. Elas permitem que em algumas horas centenas de milhares de euros cheguem ao outro lado do planeta por um agente afiliado, com uma comissão mínima. Segundo Hajji Najeebullah Akhtary, dirigente do sindicato local, quatro milhões de euros transitam por ali todos os dias. O sistema está assentado na confiança: todo mundo conhece seus clientes ou fiadores. 

  

Desde 2004, o Estado vem tentando registrar esses agentes e obter mensalmente os detalhes de suas transações. Akhtary, sentado embaixo de um televisor que exibe um episódio do desenho animado Tom e Jerry, lembra que “dezenas de agentes de informação andam por aqui todos os dias” e dão uma olhada nos livros de conta. Mas o mercado de Kandahar, extremamente ativo, continua inaccessível aos inspetores, pela falta de segurança. E é justamente por esse sistema de hawala que passa uma parte considerável das finanças dos talibãs. 

  

A Unidade de Inteligência Financeira do Banco Central registrou o trânsito de US$ 1,3 bilhão em notas sauditas no país desde janeiro de 2007. Segundo o jovem dirigente, Mustafa Masudi, “O dinheiro simplesmente aparece nas zonas tribais paquistanesas”. E completa: “Você consegue me dizer quem precisa de moeda saudita (riyal) lá? A partir de Peshawar [no norte do Paquistão], as notas são enviadas por hawala a Cabul, onde são trocadas por dólares. Os dólares sobem então as colinas, e os riyais voltam a Dubai, na mais perfeita legalidade, pelo aeroporto”. 

  

É preciso dar ouvidos ao general Mohammad Asif Jabbar Kheel, encarregado da segurança do aeroporto de Cabul, que contesta aos quatro ventos a lei que autoriza qualquer particular a sair com alguns milhões em dinheiro, desde que se proponha a declará-los. Em Dubai, as autoridades são ainda menos cuidadosas em relação à origem dos fundos, desde que foram atingidas pela crise econômica, em 2009. Um oficial estadunidense relata que mais de 1,75 bilhão de euros foi transferido nos Emirados, no ano passado, a partir do aeroporto de Cabul. Detalhe impressionante: segundo Masudi, somente uma dezena de pessoas, agentes de hawala em sua maioria, realiza o grosso dessas transações. O general Jabbar nos mostra uma lista. Os nomes estão raivosamente sublinhados, e as somas são impressionantes: 360 milhões de euros para um, em 2009, 69 para outro… 

  

Nem todo esse dinheiro está ligado aos talibãs. Algumas somas são legais, outras representam uma parte da ajuda internacional desviada por oficiais, outras ainda advêm do tráfico de drogas, que está longe de ser gerido unicamente pela insurreição. As empilhadeiras carregadas de cédulas embaladas com plástico nos porões da Ariana Airlines são também o sintoma das dificuldades do Estado em gerenciar suas finanças. Apenas 636 milhões de euros de rendimentos aduaneiros foram coletados no ano passado, quando a administração poderia conseguir o dobro. O chefe da aduana, o jovem vice-ministro de boa vontade, não pode chegar a certas fronteiras. No posto de Spin Boldak, na província de Kandahar, ele prefere a escolta paternal de um senhor da guerra suspeito de conchavo com os talibãs. 

Louis Imbert é jornalista.



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