Outro mundo impossível é possível - Le Monde Diplomatique

MUDANÇAS NA ECONOMIA PRECIPITADAS PELA COVID-19

Outro mundo impossível é possível

por Laurent Cordonnier
28 de dezembro de 2020
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Como será o pós-pandemia? As políticas para enfrentar a crise sanitária aceleraram tendências de fundos que atravessam as sociedades e preocupam as populações: incerteza, precariedade, automação voraz, eliminação das relações humanas. No essencial, essa transição para o capitalismo digital será pilotada pelo Estado 

A primeira onda do vírus e a colocação numa redoma de metade da humanidade entre janeiro e junho de 2020 fizeram um eco incomum às aspirações latentes – na maior parte do tempo dispersas, raramente decisivas, frequentemente derrotadas – de uma parte da população que tem por objetivo construir um mundo de depois que não carregaria todos os pontos negativos do antigo e teria até algumas virtudes. Um mundo no qual haveria músicos nas janelas, menos aviões no céu, patos pegando tranquilamente o anel viário, circuitos curtos recosturando a fenda entre a cidade e o campo. Um mundo em que as profissões fragmentadas pela divisão capitalista do trabalho se cumprimentariam, empoleiradas em suas varandas todas as noites, pelo trabalho social realizado durante o dia – e à noite também – por todos aqueles cujos salários teriam sido ajustados ao padrão. Um mundo onde o ar fosse mais limpo, o ter não substituiria o ser e o sorriso da moça do caixa não seria mais forçado. O período de desconfinamento e depois a segunda onda do vírus já provaram que era pedir muito. A esperança de um retorno a uma vida normal rapidamente suplantou as outras e, para as populações que pagarão por muito tempo o mais pesado tributo pelo colapso econômico, esse retorno ao normal já seria o bastante. 

Isso significa que não sobrou nada, chegado o inverno, daquelas belas aspirações – às vezes transformadas em ações – que pelo menos permitiram, de um jeito ou de outro, amenizar as dores do primeiro confinamento? No futuro, como arrisca o Observatório da Sociedade e do Consumo, não poderemos contar com o fato de que uma crise sempre envolve um poderoso efeito de aceleração das tendências que observamos antes de sua erupçãoEm suma, essa epidemia parece precipitar, no sentido temporal, mas também químico, essa tensão bem conhecida que [Antonio] Gramsci descreveu entre um velho mundo que se recusa a morrer e um novo que luta para nascer, analisa o observatórioUm interregno de todos os perigos que pode gerar os mais variados fenômenos mórbidosalertava Gramsci.1 Infelizmente, o novo mundo que tem dificuldades para nascer ainda não passou pela cabeça, e nada garante que seja novo, ou mesmo desejável. Outro mundo impossível ainda é possível. 

Não é certo que tenhamos tirado lições desse interregno forçado. Esse vírus, ao qual levamos promessa de uma humanidade comunitária, realmente aproximou as pessoas de todo o mundo, em favor de nossa comunhão nesse sofrimento planetário? Todos esses homens e mulheres padecendo ao mesmo tempo da mesma doença, da Índia a Guadalupe, de Tourcoing à Cidade do Cabo, de Vesoul a Los Angeles, permitiram que milhares de leitos de hospital e de médicos fossem redistribuídos por milagre de norte sul e de leste oeste? Ao contrário, o movimento continua seguindo a direção oposta. Reino Unido, Alemanha, França, Bélgica e Itália estão desviando médicos formados nos antigos países do bloco oriental e no sul do Mediterrâneo. Assim, a Romênia perdeu mais de 50% de seus médicos entre 2009 e 2015, e o êxodo continua, com 10% de seus médicos deixando o país anualmente. A Eslováquia, por sua vez, já teria perdido mais de 25% de seu pessoal médico desde 2004. […] Esse triste recorde de maior exportador de médicos torna a Romênia incapaz de lidar com a crescente demanda por cuidados de uma população em envelhecimento, e a crise epidêmica de Covid-19 deixa a situação particularmente alarmante.2 A mesma coisa na Tunísia, onde os médicos só sonham em ir embora. Eles seriam quase oitocentos a dar esse passo a cada ano, de acordo com o Sindicato Geral dos Médicos Tunisiano.3 

A pandemia não nos aproximou. Mesmo quando os aviões estavam voando, alguma vez nos aproximamos? Depois que estes foram pregados no chão, chegamos à conclusão de que eles permitiam sobretudo a alguns se evadir. Em uma escala menor, essa crise visivelmente ainda não aproximou o mundo da cultura e o mundo universitário – esses outros artistas do espetáculo vivo, confinados tanto quanto os primeiros, pelo menos tão secamente, quanto seus alunos, obrigados a distribuir remotamente sua produção, em frente a estantes mortuárias expostas em suas sessões de Zoom, essas estelas dispostas em filas e colunas, caracteres brancos sobre um fundo preto, trazendo uma inscrição, quase in memoriamde nomes improváveis. Além do mais, quem teria tido a ideia de fazer tal reaproximação entre todas essas salas vazias? 

O vírus também deveria nos ajudar a redescobrir as virtudes da organização, conforme o presidente Emmanuel Macron nos convidou em sua mensagem aos franceses, em 13 de abril de 2020: Vamos tirar disso todas as consequências, no devido tempo, quando se tratar de nos reorganizar. Com efeito, seria um momento bem escolhido para sair do fetichismo tecnológico e comercial em que se encontram mergulhadas nossas sociedades, que faz que a cada dificuldade encontrada a solução procurada venha a ser comercial ou técnica. Até agora, temos conseguido combater o vírus e, sem dúvida, evitar centenas de milhares de mortes, tendo como único recurso uma resposta organizada. As palavras, naquela noite de 13 de abril, eram algo como: teremos de construir uma estratégia em que encontraremos o tempo longo, a possibilidade de planejar, a sobriedade em termos de carbono, a prevenção e a resiliência que podem permitir enfrentar as crises que estão por virPalavras que já nos tinham feito vibrar em 12 de março: O que essa pandemia revela é que existem bens e serviços que devem ser colocados fora das leis do mercado. No fundo, delegar nossa alimentação, nossa proteção, nossa capacidade de curar, nosso ambiente de vida a outras pessoas é loucura. Devemos recuperar o controle disso…. 

Loucura, realmente? Ficou resolvido que era necessário fazer a lista dos cinquenta produtos industriais que é inconcebível não produzir em nosso território (além de máscaras e paracetamol), tanto por questões de emprego, de controle estratégico de nosso abastecimento e de escrúpulo ambiental? Uma lista dos cinquenta produtos que não poderiam ser colocados à venda sem que 50% de seu valor agregado fosse produzido localmente, como a promessa vanguardista de uma nova ordem do comércio internacional, um comércio baseado na reciprocidade entre as nações. 

O novo mundo que tem dificuldades para nascer ainda não passou pela cabeça, e nada garante que seja novo, ou mesmo desejável. (Mike Erskine/Unsplash)

Nada disso aconteceu, é claro. Até agora, nenhuma força autorredentora veio impulsionar o novo mundo rumo a uma direção melhor que a daquele mundo de antes. Os fenômenos mórbidos do momento não deixam entrever o desabrochar de um campo de papoulas no solo da crise. 

Para o big business, copiosamente amparado por subsídios públicos e pela redução de seus custos de mão de obra – mão de obra essque se tornou desempregada, como nos Estados Unidos, ou foi socorrida por medidas de desemprego parcial assumidas pela coletividade, como na França –, a última hora aparentemente ainda não soou. O índice Dow Jones, que resume o valor em Bolsa das trinta maiores empresas norte-americanas, havia caído 40% em março de 2020 (uma atmosfera de fim de mundo); desde então, recuperou-se consideravelmente, chegando a bater recordes históricos em dezembro, consolidando um aumento de 70% em cinco anos. 

Obviamente, os agentes financeiros nem sempre formulam uma previsão racional dos lucros que as empresas das quais eles vão comprar as ações terão nos próximos dez anos – três dias antes de o banco de investimento Lehman Brothers pedir concordata em 15 de setembro de 2008, sua ação ainda valia US$ 3,65! Mas daí a concluir que os pilotos do Titanic das finanças não perceberiam a menos de uma milha náutica o iceberg A-68A barrando o Estreito de Gibraltar, sem dúvida há algumas voltas de hélice. Desde o crack de março de 2020, eles tiveram tempo para ajustar seu binóculo e tornar a distância focal mais seletiva. 

Nesse cassino que, apesar do confinamento, permanece aberto dia e noite, os valores tecnológicos estão segurando a corda. O índice Nasdaq avançou 43% nos últimos doze meses. Vale a pena estreitar ainda mais a distância focal dessa bola de cristal para ver o mundo de depois que ela nos promete. Ao longo de 2020, as ações do Google subiram 32%; do Facebook, 36%; da Amazon, 79%; da Apple, 82%; da Zoom, 515% (apesar de uma queda de 30% após os anúncios de testes bem-sucedidos nos projetos de vacina). Em 10 de novembro de 2020, a ação da AirBnb, que havia pouco tinha sido inscrita na Bolsa ao preço de US$ 68, saltou para US$ 144 (alta de 113%), sem dúvida a prova de que nossa necessidade de nos aproximarmos, viajando num Boeing, em city-trips na casa de um morador do lugar (tendo ele mesmo partido para ir cuidar de seus próprios negócios), não sucumbirá ao vírus. No dia anterior, a introdução em Bolsa da ação DoorDash, empresa especializada na entrega de refeições e mantimentos em domicílio, pegava o mesmo elevador: valorização de 86%. A Deliveroo – que podemos facilmente imaginar compartilhando seu desempenho no mercado de ações com seus entregadores, convidados a entregar na entrada de condomínios de subúrbio peitos de pato recém-cozidos (vivam os circuitos curtos!) na saída do anel viário, antes de ir pedir sua própria comida no Restos du Cœur [restaurante popular da França] – cresceu 76% desde meados de janeiro de 2020. 

Seria quase possível compadecer-se dos acionistas da Pfizer, que se beneficiaram de forma medíocre do anúncio dos índices de eficácia de sua vacina contra o vírus: a ação subiu apenas 10% desde 25 de novembro. A Pfizer, uma empresa industrial nascida no século XIX, lastreada por suas fábricas e suas infraestruturas de outra época (49 locais de produção no mundo), seus trabalhadores, seus pesquisadores, seus refrigeradores caindo a –70 °C…, forçada a negociar seus preços com os poderes públicos. Uma empresa do mundo de antes, cujo sucesso só terá servido para iluminar o campo de jogo do mundo de depois, como o faz para nós a agência Business Insider France. Na sequência dos anúncios da Pfizer, os preços das ações norte-americanas subiram. As indústrias mais afetadas pelo vírus, sobretudo as companhias aéreas, hoteleiras e de cruzeiros, viram suas ações disparar nas negociações de Wall Street. Por outro lado, as empresas que prosperaram graças aos confinamentos e às atividades prolongadas em domicílio sofreram um golpe. A DocuSign, Peloton e Wayfair juntaram-se à Zoom e outras empresas na derrocada, com investidores apostando em um retorno ao mundo de antes. […] Essa queda nas ações stay-at-home [fique em casa] reproduz um padrão já observado após a publicação de outras informações positivas sobre as vacinas.4 

Vamos nos certificar de que isso é apenas uma corrente de ar descendente que faz o avião perder altitude. Durante a crise da saúde, a sociedade do totalmente digital se beneficiou em termos globais de um tremendo impulso acelerador, cujo efeito gatilho se transformaria em um novo trampolim. Para essas grandes empresas que – muito antes do home office – já afastaram nossas vidas, que tomam nosso tempo, nossos dados pessoais, nosso dinheiro, nossa esfera doméstica, nossa autonomia, nossos trabalhadores nos guichês, nossas consultas médicas, nosso ensino, nossos restaurantes etc., o controle total sobre nossas vidas sem contato já foi conquistado. Não se trata mais de escolher.5 

Nesse mundo de depois que já está aqui, as ações stay-at-home – um termo muito prático enquanto se espera pelo desenvolvimento de um índice de mercado de valores canibais e predatórios – são apenas um segmento desses valores que organizam nossas vidas separadas, cujas molas são nosso isolamento, já adquirido graças à sociedade de consumo (a qual estabeleceu nosso face a face solitário com a mercadoria), a fagocitagem das atividades econômicas do velho mundo e o deslocamento das portas de entrada de nossas casas, lojas, escolas, consultórios médicos, administrações, bibliotecas, jornais, salas de concerto etc., para os novos portais distribuídos ao longo das malhas cada vez mais estreitas da rede de suas plataformas de internet.  

No campo de jogo nivelado da competição global livre e não distorcida, nem todos estarão alojados no mesmo barco. Apesar dos esforços dos governos mais ricos para limitar sua amplitude, a catástrofe que se anuncia para pequenas lojas, restaurantes, salas de espetáculos, pequenos negócios de apoio a atividades turísticas e culturais, do setor de eventos e da comunicação etc. não será adiada indefinidamente. Para os 3.500 black cabs [táxis pretos] de Londres que deixaram a cidade para ir integrar desde junho os cemitérios de táxis nos subúrbios, onde se amontoam no meio de arbustos e do lixo, e para seus motoristas, que já não têm o suficiente para pagar seus compromissos com empresas privadas que lhes cobram mais de 300 euros por semana, a viagem de ida será sem dúvida sem volta. O coronavírus terá acelerado sua falência, já bem encaminhada pela uberização.6 

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Save the Children calcularam que, durante 2020, o número de crianças vivendo no mundo em famílias pobres (de acordo com o limite definido por cada país) aumentou em 142 milhões, chegando a 715 milhões (ou seja, 38,4% das crianças do planeta).7 Nos países ricos, o aumento da pobreza é igualmente ameaçador, sobretudo em relação àqueles que já estavam entre os mais precários. Na França, Louis Cantuel, chefe de relações internacionais dos Restos du Cœur, acredita que o recurso à ajuda alimentar aumentou mais de 30% nas grandes metrópoles no período de confinamento. […] Estamos numa situação que vai perdurar, para além da crise sanitária, a qual poderia anunciar um desequilíbrio duradouro na pobreza.8 

O velho mundo definitivamente não quer morrer e, mais do que nunca, expõe suas cicatrizes aos olhos do novo, que não o é tanto assim. A crise sanitária oferece-lhes um espelho de aumento. Em face desses perigos, que em sua maioria ainda estão diante de nós, o custe o que custar de Macron já parece estar se apagando diante dos cânones da ortodoxia orçamentária: em 17 de novembro de 2020, a Assembleia Nacional votou uma lei orçamentária para 2021 que prevê um retorno do limite de 3% de déficit público a partir de 2025. Com a promessa de não aumentar impostos. Um retorno ao normal, em última instância. 

 

*Laurent Cordonnier é economista e professor da Universidade de Lille (França). 

 

1 Antonio Gramsci, Cahiers de prison [Cadernos do cárcere], Gallimard, Paris, 1983 (1ed. 1948). 

2 Clotilde Armand, “Le passage à l’Ouest de médecins est-européens” [A passagem para o Ocidente dos médicos do Leste Europeu], Libération, Paris, 14 set. 2020. 

3 Maryline Dumas, “En Tunisie, le ras-le-bol des blouses blanches” [Na Tunísia, a insatisfação dos jalecos brancos]Le Figaro, Paris, 9 dez. 2020. 

4 “Les actions Zoom et Netflix s’effondrent à la Bourse après la bonne nouvelle autour du vaccin Pfizer” [As ações da Zoom e da Netflix entram em colapso no mercado de ações após as boas notícias em torno da vacina da Pfizer], Business Insider France, 9 nov. 2020. 

5 Ler Julien Brygo, “Travail, famille, Wi-Fi” [Trabalho, família, Wi-Fi], Le Monde Diplomatique, jun. 2020. 

6 Mark Landler, “‘Field of broken dreams’: London’s growing taxi graveyards [Campo de sonhos desfeitos: os crescentes cemitérios de táxis de Londres], The New York Times, 3 dez. 2020. 

7 “Children in monetary poor households and Covid-19” [Crianças em lares pobres e Covid-19], Unicef, Nova York, 11 dez. 2020. 

8 France Info, 6 nov. 2020. 

 

 

 



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