Palestina em campo - Le Monde Diplomatique

ESPORTE

Palestina em campo

por Maíra Kubík Mano
1 de agosto de 2010
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Enquanto os olhos do mundo se voltavam para a África do Sul, a seleção feminina de futebol da Palestina desembarcou no Brasil para um intercâmbio com o Santos FC. Durante sua estada na Vila Belmiro, as garotas falaram sobre política, futebol e machismo, temas que inevitavelmente se misturam quando elas jogam bolaMaíra Kubík Mano

“Se elas baterem bola tão bem quanto dançam, vão ganhar todas as partidas”, alguém comentou, quase gritando. A observação tinha lá seu sentido: diante de nós se formava uma ciranda perfeitamente ritmada, puxada pelas jogadoras da seleção palestina de futebol. A zagueira Sharihan Khweis, de apenas 16 anos, era uma das mais empolgadas. Entrava e saía do meio da roda, gesticulando e acompanhando o alaúde com suas palmas. Sharihan e suas companheiras vieram ao Brasil para treinar durante 15 dias no Santos Futebol Clube e a festa marcava o encerramento desse estágio.

Tudo começou com um pedido quase despretensioso de uma das jogadoras, que encontrou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, durante uma visita à Igreja da Natividade, em Belém, em março deste ano. Ele estava em viagem oficial pelo Oriente Médio e foi surpreendido com a solicitação da jovem. Quando retornou ao Brasil, Amorim contatou a coordenadora-geral de intercâmbio e cooperação esportiva do Itamaraty, Vera Cintia Alvarez, que por sua vez acertou todos os detalhes com o alvinegro praiano. Depois de alguns meses de conversa, as palestinas embarcaram para São Paulo e conheceram o gramado que consagrou Marta, uma de suas ídolas.

Dificuldades

“Eu a amo”, disse-me Sharihan, escancarando um sorriso. “Das mulheres que jogam bola, só gosto da Marta. Dos homens, prefiro o Pelé e o Messi”, completou. Rebato dizendo que o meia argentino tinha deixado a desejar na Copa do Mundo – nosso encontro ocorreu um dia após a eliminação da selección diante da Alemanha por 4 gols a zero. Sharihan concorda, mas afirma que ele é muito bom, de qualquer forma. Enquanto os olhos do planeta se voltavam para a África do Sul e o evento milionário comandado pela Fifa (Federação Internacional de Futebol), ela se satisfazia por ter conseguido praticar um pouco fora de sua terra natal.

“Moro em Jerusalém e é muito difícil treinar lá. Temos uma quadra pequena, que comporta apenas 4 ou 5 jogadoras por vez. E, como dividimos o espaço com os meninos, só podemos treinar no fim da tarde e durante uma hora”, relata. A diferença para o CT do Santos? Bem, para começar, a grama, a bola, as chuteiras, o uniforme, o preparador físico…

Apesar de a Palestina ter vários times, há muito pouco apoio para o esporte, especialmente quando praticado por mulheres. A remuneração é inexistente e tanto as atletas quanto a comissão técnica não podem dedicar-se integralmente à sua prática.
Além disso, não é nada fácil organizar amistosos, muito menos um campeonato. Sharihan explica-me que as tentativas esbarram nos checkpoints do exército israelense. “Há jogadoras em Nablus, em Belém, em Ramallah, mas demoramos para nos reunir”. Gaza, então, nem se fala: Israel não autoriza as jogadoras a atravessar para a Cisjordânia.

A pressão é tamanha que o técnico anterior pediu demissão após ser detido simplesmente porque estava deixando o país para acompanhar o time em uma partida. Com tantas restrições, o primeiro jogo em casa ocorreu há apenas um ano, contra a seleção da Jordânia. A partida terminou empatada em 1 a 1, o que para as palestinas foi um belo resultado: enquanto as vizinhas ocupam a 53ª posição no ranking da Fifa1, elas estão em 91º. A título de comparação, o time feminino do Brasil atualmente figura em 3º – mesmo lugar que a seleção masculina –, atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha.

Os problemas familiares e religiosos são um capítulo à parte. Em um local cujo nome instantaneamente remete à guerra santa e aos conflitos, não dá para evitar que tais questões entrem em pauta. Das 20 atletas palestinas, 13 são muçulmanas e 7, cristãs. Sharihan, que por ser a que melhor fala inglês a essa altura já virou a porta-voz do time no evento de despedida, diz-me que estudou o Corão, livro sagrado do Islã, de cabo a rabo e não encontrou nada lá que as impedisse de jogar bola. Consciente de que sua escolha cotidiana contribui para derrubar por terra preconceitos ancestrais, parece tratar o assunto com total tranquilidade. “Claro, temos que estar atentas às vestimentas. Não podemos mostrar nossos ombros ou nossas coxas”, ressalta.

Quase uma estrela

Peço a ela que traduza algumas perguntas para a capitã do time, Niveen Alkaleb, de 25 anos, uma das poucas a usar o véu em campo. Quero saber se Niveen já sofreu alguma forma de discriminação. “Não, nunca sofri. Aliás, sinto-me praticamente uma estrela, porque todos apontam para mim. Quando chegamos ao Brasil, todo mundo pedia para tirar fotos comigo, inclusive as jogadoras do Santos”, diverte-se. Por um momento, penso que garotas são garotas em qualquer lugar.

A conversa é interrompida para cantar parabéns. Três das jogadoras fizeram aniversário durante sua estadia aqui. Tento equilibrar o gravador, o bloquinho e o brigadeiro de colher – verdadeiro vício – para continuar falando com Niveen. Noto que algumas delas dão risada da repórter atrapalhada e me mostram suas mãos em forma de coração. “Nós te amamos”, dizem. Solto uma gargalhada contida.

Prosseguindo, Niveen afirma que, para ela e as demais jogadoras, o começo foi muito difícil. As famílias não entendiam a opção e ficaram surpresas com a prática profissional do esporte. “Mas, por fim, a maioria nos deu o suporte de que precisávamos”, acrescenta Sharihan. A maioria porque, desde que o time surgiu, já perdeu duas mulheres: foram forçadas pelos maridos a pendurar as chuteiras após se casar.

Aproveito o assunto e pergunto à capitã, uma das mais velhas da equipe, o que fará depois de se aposentar. E é claro que ela não respondeu outra coisa a não ser virar técnica. “A minha vida é o futebol. Sou apaixonada pelo esporte. É só no que penso.” Niveen ressalta que também gosta de viajar, algo perfeitamente compatível com seus planos profissionais. Recentemente, a seleção palestina esteve em Abu Dhabi e na Alemanha e pretende comparecer às principais competições internacionais nos próximos anos. “O Brasil é o primeiro país onde não me sinto sozinha, porque as pessoas nos dão muita atenção”, faz questão de pontuar, simpática.

Mas, apesar de já terem algum traquejo com seleções estrangeiras, Sharihan afirma que nunca enfrentará a equipe de Israel: “Só jogo com quem joga limpo dentro e fora de campo”. Fico surpresa com a declaração contundente e insisto um pouco, só para ter certeza: “E se elas apoiassem a seleção palestina e sua causa?”. Sharihan respira fundo e, com paciência, coloca seu ponto de vista: “Olha, da forma como as coisas estão hoje, isso é impossível. Simplesmente não vai ocorrer. Parece que nunca iremos concordar umas com as outras”.

Ao contrário do que podem pregar os ideólogos do futebol, na Palestina o esporte não é uma solução saudável para resolver desavenças, e sim uma rota de fuga. “É uma forma de sairmos desta realidade, que é tão dura. Desviamos a atenção da situação de tensão em Gaza e na Cisjordânia”, diz.

A dança recomeça e o olhar enérgico de Sharihan muda de foco. Outra válvula de escape?

 

Maíra Kubík Mano é jornalista, foi editora de Le Monde Diplomatique Brasil e atualmente é docente do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA).



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