RESENHA

Passados traumáticos e futuros incertos no Antropoceno

Em O global e o planetário, o historiador indiano, Dipesh Chakrabarty investiga a humanidade enquanto força geológica que transforma a história do planeta

O impacto das atividades humanas nas mudanças climáticas é um dos consensos mais sólidos entre os cientistas de todas as áreas. O mesmo não se pode dizer, porém, sobre a proposta de nomear o Antropoceno, uma nova época geológica – um conceito que atribui à ação humana uma força de impacto planetário. Conceito esse que tem sido alvo de debates acalorados tanto nas ciências naturais quanto nas sociais desde que foi popularizado por Paul Crutzen, químico neerlandês ganhador do Nobel.  

Ainda que tenha sido um marco para conversas interdisciplinares entre cientistas sociais e naturais, as controvérsias, em geral, não são as mesmas. Entre os cientistas naturais, o principal ponto de polêmica é se a atividade antropogênica já teria os marcos materiais necessários para atender às formalidades científicas que permitam pôr fim ao Holoceno e inaugurar uma nova época geológica. Já entre os cientistas sociais, as polêmicas são mais diversas: menos focadas no formalismo da determinação de uma época geológica e mais voltadas para questões como quando o Antropoceno teria começado e se “antropos” é o termo adequado para nomear nosso tempo. Esses questionamentos conduziram cientistas sociais a sugerirem conceitos alternativos. 

Alguns destes conceitos ganharam tração teórica e ainda são bastante debatidos, como Capitaloceno (que enfatizaria que o impacto é menos da humanidade em geral e mais do modelo de produção capitalista); Plantationoceno (que enfatizaria o surgimento das plantations como o começo desse período de impacto das atividades humanas no planeta) e; Chthuluceno (termo criado por Donna Haraway para enfatizar a centralidade das relações multiespécies na constituição da Terra e para combater a homogeneização do que seja humano. De acordo com a autora, reduzir tudo que é humano ao “antropos” provoca distorções, como tratar povoados indígenas e grandes centros urbanos globais como igualmente responsáveis pelas mudanças do clima).    

É nesse contexto controverso que o historiador indiano Dipesh Chakrabarty, referência nos estudos pós-coloniais, publicou O global e o planetário: a história na era da crise climática, livro que chegou ao Brasil em 2025 pela editora Ubu. Reunindo e revisando trabalhos recentes, Chakrabarty interpreta o Antropoceno como o momento em que tempo histórico e tempo geológico colidem de forma irreversível. Em síntese, o autor parte da oposição globo x planeta não apenas para explicar como chegamos à crise atual, mas também para decifrar fenômenos que são simultaneamente globais e planetários, como os desastres ambientais e a pandemia. 

Apesar de demonstrar consciência das controvérsias em torno do conceito de Antropoceno por meio de citações e menções breves, fica evidente que seu exercício teórico parte de uma adesão à definição feita por Paul Crutzen. O principal argumento do químico neerlandês para dar fim ao Holoceno é reconhecer que vivemos o período em que a humanidade se tornou força geológica e uma “força avassaladora da natureza”. Chakrabarty mostra-se menos interessado em debater a existência de uma nova época geológica, seu marco temporal inicial ou possíveis nomenclaturas alternativas, e mais preocupado em investigar as implicações de entender a humanidade como força geológica para a História. Essa adesão ao conceito de Antropoceno de Crutzen também é manifestada na aderência a outros de seus argumentos, como na ênfase no período que o químico chamou de “Grande Aceleração” (nome para o período pós-guerra em que o consumo de combustíveis fósseis e da população global cresceu de modo acelerado e sem precedentes). É na Grande Aceleração que se tornaria irreversível o choque de tempo histórico e tempo geológico, planeta e globo.  

No começo do livro, o autor explica qual reflexão o levou a trabalhar com a distinção entre global e planetário. “Um momento-chave nesse caminho de descoberta foi quando me dei conta de que o conceito de globo na palavra globalização não equivalia ao conceito de globo na expressão aquecimento global. A palavra é a mesma, mas seus referentes eram diferentes”. Na obra, o global representa a temporalidade histórica, da globalização, do capitalismo e da percepção humana da história. Já o planetário representa a temporalidade geológica, onde a experiência humana é uma fração minúscula da história da Terra.  

O Antropoceno emerge como choque brutal entre essas duas temporalidades, onde a “humanidade”, em poucos séculos, tornou-se uma força capaz de alterar processos que, na escala planetária, levariam milhões de anos. Chakrabarty não está propondo os dois termos como opostos ou como binários, mas sim como categorias analíticas distintas e que estão em constante relação. Ao passo que a distinção entre os termos é produtiva do ponto de vista político e teórico, reconhecer sua implicação mútua é fundamental para compreender as mudanças climáticas.  

Uma das comparações centrais que compõem a oposição entre global e planetário na obra se apresenta na relação entre sustentabilidade e habitabilidade. A ideia de sustentabilidade é um futuro de ordem global, antropocêntrico. Seu uso como ferramenta para pensar nas mudanças climáticas parece assumir a inevitabilidade do progresso e argumentar por uma espécie de redução de danos, cujo objetivo é garantir longevidade ao atual modelo de vida e produção. A habitabilidade, por outro lado, é uma ideia de futuro de ordem planetária, que se coloca no lugar de discutir o que acontece quando as mudanças do clima tornarem a existência impossível para a maioria dos humanos. Como sobreviver num futuro distante, quando os modelos de produção e vida atuais estiverem colapsados?  

Como bem percebeu o antropólogo Lévi-Strauss em meados do século XX, o mundo existiu por um longo tempo sem humanos e continuará existindo por um longo período depois da extinção humana. Ainda que identifiquemos e separemos escalas globais e planetárias, as mudanças climáticas nos impõem o exercício impossível de conjugar sustentabilidade e habitabilidade. Enquanto bilionários planejam sua fuga para Marte, a busca por energia verde produz impactos ambientais irreversíveis em locais onde são minerados metais estratégicos – como no caso da cassiterita explorada na região amazônica.  

Usando a distinção de globo e planeta como estrutura para seus argumentos, o autor desenvolve uma narrativa muito convincente sobre como os interesses da História e da Ciência do Sistema da Terra acabam mutuamente implicados no Antropoceno. Por um lado, o impacto planetário das atividades humanas já não pode ser ignorado pelos cientistas acostumados a ter planetas como unidades de análise. Por outro, os historiadores agora precisam considerar os impactos históricos, políticos e climáticos de fenômenos naturais e problemas de ordem planetária.  

Crédito: Divulgação/Ubu

Ainda que modesto ao se propor como contribuição para a disciplina História, o livro de Chakrabarty tem um grande potencial para aprofundar o debate sobre mudanças do clima com o público interessado em temas ambientais e estudantes motivados a refletir sobre os aspectos sociais e físicos do aquecimento global. Seu maior trunfo é sua capacidade de promover um exercício crítico que nos compele a pensar nos fenômenos climáticos para além da perspectiva humana (global). Além de acrescentar a perspectiva planetária, a obra nos instiga a pensar os modos como essas duas perspectivas se tornam cada vez mais emaranhadas ao longo do tempo.  

Sendo um pouco mais rigoroso com sua proposta teórica, contudo, torna-se necessário apontar alguns problemas oriundos dessas escolhas. O principal deles, na minha opinião, é o apego exacerbado ao humanismo e uma ciência social antropocêntrica. Sua reflexão admite a inexorabilidade da perspectiva planetária, que impõe uma radical descentralização do humano (afinal, as mudanças planetárias não dão qualquer importância ou excepcionalidade para os humanos). Ainda assim, sua insistência numa temporalidade global como única alternativa ao planeta acaba por reforçar o antropocentrismo do qual ele pretende se esquivar. Ao aderir ao antropoceno de Crutzen sem de fato incorporar as muitas críticas que o conceito recebeu ao longo das últimas décadas, o historiador indiano acaba fazendo com que seu trabalho possa ser alvo dessas mesmas críticas.  

A escolha de trabalhar com duas temporalidades relativamente universais torna sua teoria incapaz de compreender temporalidades não humanas para além da geológica. Se podemos observar a evolução tomar corpo em tempo real hoje é porque as bactérias podem fazer dezenas de milhares de gerações num tempo relativamente curto e observável pelos humanos. É equivocado assumir que as temporalidades das outras espécies e sua relação com o planeta são as mesmas ou que funcionam na mesma temporalidade do globo. É questionável até mesmo se todos os grupos humanos operam na temporalidade do globo.  

Esse conjunto de críticas ao antropocentrismo nas ciências reverbera no conceito de Antropoceno e é muito bem fundamentado no feminismo ambientalista e por cientistas feministas como Donna Haraway, Maria Puig de la Bellacasa e também a indiana Vandana Shiva. Num momento em que trabalhos interdisciplinares de ciências sociais e naturais parecem cada vez mais seguros que compreender a dinâmica da vida e do clima do planeta demanda uma perspectiva multiespécie, a ideia de Antropoceno realoca o humano ao centro e invisibiliza o caráter multiespécie não apenas da vida, mas até mesmo do próprio corpo humano.  

Por um lado, é compreensível que uma reflexão pós-colonial advogue por uma perspectiva humanista de mundo: as diferenças históricas de classe, entre os países e as muitas mazelas humanas tornam urgente que esses problemas continuem tendo protagonismo mesmo diante de um planeta que impõe sua presença. Por outro, como nos lembram várias autoras feministas contemporâneas, o esgotamento do humanismo como centro explicativo do mundo é ele próprio um componente das mudanças climáticas. No caso de Chakrabarty, a retomada de um humanismo que tem claros sinais de esgotamento explicativo, no fim das contas, é uma escolha consciente sobre quais críticas ao antropoceno cabem dentro de sua reflexão.  

Ainda que o autor ensaie uma justificativa para essa escolha a partir de uma ideia já um pouco anacrônica de que só se pode compreender o mundo pelas narrativas humanas, não a considero convincente. Assinalar a excepcionalidade da linguagem humana não precisa implicar em uma filosofia antropocêntrica. Desde pelo menos a proposta do conceito de Umwelt, por Jakob von Uexküll na década de 1930, cientistas sociais e naturais têm se preocupado em como fungos, bactérias, outros animais, plantas (e até mesmo seres que recusam estas categorias, como líquens e micorrizas) se relacionam com o mundo e com o tempo. Embora a escolha de não engajar com esses trabalhos ou com as críticas ao esgotamento explicativo do humanismo seja legítima, ela tem o efeito indireto de enfraquecer seu argumento central e o potencial explicativo da relação global x planetário. 

Consideradas todas essas questões, penso que seu livro é instigante e uma adição importante ao debate sobre as mudanças climáticas. Apesar de sua adesão pouco crítica ao Antropoceno de Crutzen e de permanecer preso a um humanismo que, contraditoriamente, reforça o antropocentrismo do qual ele parece querer se desvencilhar, a obra oferece uma contribuição política crucial: um chamado ao desafio de administrar a incompatibilidade radical entre sustentabilidade e habitabilidade, que definirá o futuro humano na Terra. Já dizia Carlos Drummond de Andrade que “A história é um cemitério de mundos”. Quais mundos serão viáveis para as gerações vindouras? Qual será o lugar do globo no cemitério do planeta? Se ainda não temos as respostas, o trabalho de Dipesh Chakrabarty é um ótimo convite a refletir sobre as perguntas. 

 

Yama Chiodi é antropólogo e jornalista de ciência. Doutor em Ciências Sociais (Unicamp) e mestre em Divulgação Científica (Unicamp), pesquisa mudanças climáticas e tem experiência na cobertura de impactos socioambientais da mineração. 

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