Paulo Freire: A tentativa de se matar ainda mais aquele que já partiu - Le Monde Diplomatique

EDUCAÇÃO

Paulo Freire: A tentativa de se matar ainda mais aquele que já partiu

por Giam C. C. Miceli
17 de dezembro de 2018
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Acaba que, ao longo desse processo, Paulo Freire foi escolhido como um patrono às avessas. De acordo com a fração que se encontra no poder, ele representa aquilo que deve ser banido, aquilo que não deveria existir, aquilo que deve ser extirpado, mesmo depois de morto. Por quê?

Os últimos anos vêm sendo marcados por uma ofensiva contra aquele que é considerado o patrono da educação brasileira: Paulo Freire. Não é difícil perceber que nosso povo – sobretudo em decorrência de uma escolarização precária, da tentativa de se manter um ensino superior elitizado e aristocrático e da difusão manipulada de informações pela grande mídia – vem aderindo a uma série de chavões, mesmo sem que nenhum deles seja entendido. Sem entendimento, a crítica se torna escassa.

Um dos devaneios dos últimos tempos é o de uma escola que doutrina. Alega-se que a doutrinação existe e que deve ser combatida. Eis uma primeira questão: se a escola não pode doutrinar (como se doutrinasse), teremos a proibição voltada a colégios militares e colégios religiosos?

Dentro dos chavões de simples digestão que vêm sendo usados na atual onda conservadora (ou reacionária?), temos o emprego de termos como “doutrinação” e “ideologia”. Ao mesmo tempo, no Brasil, é muito comum presenciarmos processos formativos utilitaristas: aprende-se para algo, ensina-se para algo. Esse “algo” é algum objetivo prescrito, rápido e que é, supostamente, a garantia para o sucesso: vestibular, ENEM, concursos públicos, enfim.

O resultado de um ensino utilitarista é o desapego da esfera conceitual. Como diz o geógrafo Milton Santos, em seu Livro “Por uma outra globalização”, aumenta o número de pessoas alfabetizadas, mas diminui o número de pessoas letradas. Com isso, o uso de termos muito complexos, como doutrinação e ideologia, a partir de um viés simplista e rasteiro, gruda na cabeça da parcela da população que foi alvo de uma escolarização pobre e, em geral, precocemente interrompida. Cria-se um deslocamento (sem o mínimo caráter) que insinua que não existe ideologia conservadora e que toda doutrinação é “de esquerda” (ou, para tornar o debate ainda mais rasteiro e pobre: esquerdista. Se quiser piorar ainda mais: esquerdopata, termo adorado por Malafaias e Felicianos).

Acaba que, ao longo desse processo, Paulo Freire foi escolhido como um patrono às avessas. De acordo com a fração que se encontra no poder, ele representa aquilo que deve ser banido, aquilo que não deveria existir, aquilo que deve ser extirpado, mesmo depois de morto. Por quê?

O grupo no poder poderia ser menos intelectualmente limitado, reconhecendo o fato de Paulo Freire ter desenvolvido um método fulminante de alfabetização. Rápido, eficaz e competente. Em um contexto de alto índice de analfabetismo, um método rápido e eficaz de alfabetização deveria soar como algo positivo, ou não? Mas essa tentativa de matar ainda mais Paulo Freire pode ser entendida a partir de dois pontos.

O primeiro diz respeito ao fato de Paulo Freire afirmar e comprovar o óbvio: não existe educação sem uma base ideológica. Temos que optar por uma base que, de acordo com o autor, pode ser inclusiva ou excludente. Mas educação sem base ideológica não existe. O que os membros do movimento Escola sem Partido desejam é uma escola apoiada em uma base ideológica excludente, o que se inicia por naturalizar algumas atrocidades que podem ser socialmente, culturalmente e economicamente explicadas. Uma escola que ensina “é assim porque é assim” é uma escola que assume uma base ideológica excludente.

O segundo: Paulo Freire sistematizou algo que, no final das contas, é simples. Mas é simples, pois foi ele quem nos mostrou: quando aproximamos um estudante de seu meio de vida, quando aproveitamos os elementos que rodeiam esse estudante, o processo de ensino-aprendizagem se torna mais fácil e, o principal, se torna concreto. Sendo assim, torna-se simples aproximar a vida de um estudante de um determinado conceito trabalhado ao longo de sua escolarização. Trabalho, meio ambiente, sexualidade, ética, dentre outros, inclusive prescritos em documentos oficiais, precisam ganhar uma dimensão concreta, o que é possível a partir de aproximações realizadas.

É seguro afirmar que o MOBRAL, Movimento Brasileiro de Alfabetização, implementado durante o governo Médici, não conseguiu o efeito promovido por Paulo Freire. A maior evidência é a expansão do método Paulo Freire para países diversos, enquanto o MOBRAL caiu no esquecimento. E o irônico é que o método Paulo Freire influenciou o MOBRAL, principalmente no que diz respeito aos “temas geradores”. É algo irônico, mas, ao mesmo tempo, podemos ver que naquele período houve uma esperteza inexistente no período atual: mesmo que indiretamente, os militares da época admitiram a eficácia do método Paulo Freire.

*Giam C. C. Miceli é professor da rede municipal de Itaboraí, licenciado em Geografia, com pós em Educação e mestrado em História da Educação.



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