Pelo direito ao amor indefectível! - Le Monde Diplomatique

CARTA-CONFISSÃO AO EMBALO DE DJAVAN

Pelo direito ao amor indefectível!

por Volnei Canônica
18 de junho de 2018
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Encontrei meu grande amor indefectível! Aprendi que amar é perder o tom nas comas da ilusão. Revelar todo o sentido.

Quem nunca teve um amor indefectível para defender talvez não tenha experimentado a sensação de se sentir pleno no campo de batalha. Eu fui atrás desse amor indefectível.

Percebi que deveria buscar esse amor quando tinha apenas quinze dias de vida. O insight deve ter acontecido quando o último vestígio pendurado na região do meu abdômen, que me ligava a outra pessoa, se desprendeu. Há quem enterre a parte que resta do cordão umbilical, jogue-a num rio, no telhado, na privada e puxe a descarga. O meu umbigo virou correnteza e, possivelmente, foi engolido por algum peixe como Jonas foi engolido pela baleia.

Se parte de mim alimenta, outra é pura fome! E foi essa parte mais faminta que me fez ir atrás do eterno, do imutável, do indestrutível, do imperecível. Fui atrás do amor indefectível.

Encontrei-o em sacos de lixos no ferro velho do meu pai. Livros e mais livros que para algumas pessoas eram lixo, viraram a possibilidade desse amor que eu tanto procurava.

Apaixonei-me por Gabriela, Alice, Sherlock, Macabéia, Emilia, Robin Hood, Diadorim, Capitu, D’Artagnan e tantos outros. Seria eu um adepto do poliamor por me apaixonar por um, por dois, por três ao mesmo tempo? Sofria porque, muitas vezes, o romance levava apenas dois ou três dias. Ou durava até a última página do livro. Mas o amor era já indefectível.

Apaixonei-me pela minha professora. Quem nunca? Ia para a escola para encontrá-la. Entrava na sala e, como motivo de chamar a atenção, já perguntava: professora Marta, hoje é dia de ir à biblioteca? Lá íamos toda a turma. Eu corria na frente para entrelaçar a minha mão com a mão dela. Ao abrir a porta da biblioteca da escola, ela olhava para nós com ternura e dizia: “É para vocês, sirvam-se!” Mais que depressa eu subia numa cadeira para conhecer os livros que eram para leitores mais velhos. Tinha interesse em crescer logo. Ser grande. Queria comer o cogumelo da Alice e crescer. Queria ser mais velho e pedir a professora Marta em casamento. Enquanto isso não acontecia eu sonhava com Dorothy, Wendy, Robson, Iracema, Capitão Rodrigo e Lucíola. Amei todas essas pessoas que ficavam na sala mais importante da escola, a biblioteca. Fui muito feliz com esses novos amores.

Vi meu corpo mudar, meus pensamentos ganharem outras vozes e aparecer uma vontade de me aventurar nas artes. Encontrei no palco muitas personas. Vivi meus personagens, meus medos, minhas virtudes e me vi como em “Retrato”, da Cecília Meirelles:

 

“Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

– Em que espelho ficou perdida a minha face?”

 

Assim, sem um rosto definido, mas com uma face de mosaicos, montei o rocinante e me aventurei pelo Brasil como promotor de leitura. Por onde andará Dulcineia? Quixotescamente fui para o campo de batalha e descobri gigantes malvados que, disfarçados de impressionantes moinhos de vento, impõem um retrocesso e dificultam o acesso ao livro e à leitura literária em nosso país. Eis aqui o que encontrei:

– Muitos governos afirmando em seus discursos que a leitura, a educação e a cultura são a única maneira de mudança da sociedade. Mas jamais investiram recursos necessários para promover essa transformação. Afinal, mudar só é bonito na retórica, não é?

– A desvalorização dos profissionais da educação, com salários totalmente defasados e, muitas vezes, atrasados. Nenhum investimento na atualização da formação desses profissionais e em material de apoio para suas atividades.

– O fechamento das bibliotecas escolares por falta de profissionais nesse setor ou para transformá-las em salas de aula já que, para alguns governos, só importa ensinar a fazer conta e a ler, mesmo sem compreender o que se leu. Ou simplesmente, por não entenderem que a leitura literária é parte do processo de construção do conhecimento e da autonomia do cidadão crítico.

– A exclusão das disciplinas de humanas e de caráter formador do pensamento filosófico e crítico do currículo escolar. Tudo em nome de um emburrecimento da sociedade envelopado e etiquetado com o nome de Escola sem Partido, organizado por um movimento manipulador disfarçado de apartidário.

– Inúmeras bibliotecas públicas fechadas ou sucateadas por falta de estrutura humana e física, por falta de acervo, por falta de bibliotecários, por falta de gestão, por falta de amor ao próximo. Pela falta de respeito por parte de políticos pelo significado da palavra PÚBLICO!

– A falta de legislação, de marcos legais e de recursos orçamentários destinados para os equipamentos culturais, espaços que promovem a leitura, mercado editorial. Ou o desrespeito e não cumprimento das legislações vigentes por parte de governantes.

– A apatia de uma de parcela da população em relação ao valor que a literatura e a leitura representam para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa. O Brasil é um país em que a bola de futebol vale mais que o livro. O jogador vale mais que o autor. O técnico vale mais que o professor. O estádio vale mais que a biblioteca pública. Um país que se indigna pelo placar de 7×1, mas não pelo fato de uma pessoa não ter acesso à leitura, e por isso nunca conseguirá ler sete livros em um ano.

– A ausência da mídia brasileira como divulgadora dos inúmeros projetos, tão importantes para a promoção de leitura e de sua contribuição como formadora de leitores. Em todos os 5.561 municípios brasileiros o espaço dado pela mídia falada, impressa, televisiva e das mídias sociais na divulgação desses projetos é mínimo. Perdemos com isso uma grande oportunidade de criar valor simbólico para o livro e a leitura em nossa sociedade.

– A censura velada ou escrachada e o conservadorismo, atingindo a sociedade como um todo. Pais, professores, editores e governantes em busca do politicamente correto tentam boicotar ou eliminar da literatura temas que são fundamentais para a construção de uma sociedade mais tolerante. Pessoas que não conseguem perceber nas crianças a sua capacidade de raciocínio e de pensamento crítico.

– A insistência diária na desvalorização da literatura infantil e da literatura juvenil em comparação com a literatura para adultos, como se fossem um gênero menor.

– A tentativa de sempre dar uma função ou de passar informação e valores morais e comportamentais para as crianças e os jovens. NÃO! A literatura destinada aos jovens leitores é fruição, é deleite, é necessidade de desenvolvimento pessoal e permite a valorização desses seres poéticos e filosóficos.

– As gigantescas corporações de livrarias dentro de shoppings centers acabam por engolir as livrarias menores, tradicionais, que pela sua estrutura não conseguem competir com o modelo de negócio que se estabelece no Brasil. Um desequilíbrio desse mercado editorial pela falta de legislação que permita a ambos exercer o seu trabalho de dar acesso ao livro.

Roger Mello, Todo Cuidado é Pouco!, Companhia das Letrinhas (1980)

Ufa! Não sabia que era uma aventura tão difícil. Muitas vezes me senti como Robinson Crusoé contando os dias em sua ilha, sem perspectiva de sair. Foi aí que percebi ser impossível vencer tantos obstáculos, e que nunca estive só.

Como o amor é tão indefectível quanto a cumplicidade, fui encontrando muitas pessoas nessa caminhada. Apaixonei-me por Cláudia Santa Rosa, Miriam Dantas, Beto Silva, Glória Valladares Grangeiro, Noia Kern, Regina Zilberman, Veridiana Negrini, Carlos Honorato, Rafael Mussolini, Betânia Flor Flor, Helena Carlone, Guilherme Relvas, Beth Serra, Laura Sandroni, Simone Monteiro, Catharina Baptista, José Castilho Marques Netto, Maria Laura Pozzobon, Gláucia Mollo, Maria das Graças Castro, Fátima Bonifácio, Leda Fonseca, Elizabeth Orofino, Rodrigo Calabar, Zanilza Ventura, Ana Cristina Dourado, Bel Santos, Rafael Simões, Marisa Lajolo, Adriana Camelo Lucena, Lucília Soares, Gil Sales, Sérgio Alves, Renata Nakano, Raquel Menezes, Anna Rennhack, Teresa Sampaio, Mônica Mendonça, Rosália Meirelles, Verônica Lessa e muitas outras pessoas que se ligam a esses nomes.

Mas como canta Djavan, quanto querer cabe em meu coração e sem deixar de lado nenhum amor, me apaixonei mais e mais, por Bartolomeu Campos de Queirós, Marina Colasanti, Lygia Bojunga, Regina Yolanda, Joel Rufino dos Santos, Ziraldo, Caio Riter, Ninfa Parreiras, Mariana Massarani, Graça Lima, Ivan Zigg, André Neves, Rosa Amanda Strauz, Leo Cunha, João Carrascoza, Soccoro Acioli, Ciça Fittipaldi, Daniel Bueno, Rodrigo Mafra, Rosinha, Ana Maria Machado, Eva Funari, Ricardo Azevedo, Daniel Kondo, Angela Lago, Anna Claudia Ramos, Elvira Vigna, Roseana Murray, Graça Gauna, Elaine Potiguara, Tiago Haiky, Luiz Raul Machado, Nilma Lacerda, Marcelo Xavier, Marcia Leite, Nelly Novaes Coelho, Stela Maris Rezende, Fernando Vilela, Walcyr Carrasco e tantos outros autores que sempre tiram o meu fôlego quando fico namorando seu traço-palavra, seu traço-imagem, ou quando os encontro em pessoa.

Esse imenso, desmedido amor pelos professores, bibliotecários, promotores e mediadores de leitura, gestores públicos, gestores de instituições, editores, revisores, capistas, designer gráficos, livreiros, escritores e ilustradores me faz entrar no campo de batalha sempre de peito aberto, sem escudo, sem estratégia e sem medo. São os meus amores indefectíveis!

Recentemente escrevi no site PublishNews, onde sou colunista, sobre retrocessos e desvalorização para a literatura infantil e a literatura juvenil e para os diferentes profissionais dessa área e fui condenado, não por defender todos esses amores, mas por defender um amor específico.

Portanto, essa é uma carta-confissão. Posso apresentar muitas provas em minha defesa. Só não posso negar que caí nos pés do vencedor para ser o serviçal de um samurai.

O amor pelo povo do livro me levou a ele que é incontestável, infalível, sólido e fiel, todos significados que se escondem no indefectível. Nessa aventura errante e quixotesca eu encontrei Roger Mello, o grande artista, o grande homem que respeita o outro, as crianças, os jovens, os animais, a flora, as instituições, as culturas, as diferenças e que destrói todas as fronteiras na busca da união. Encontrei meu grande amor indefectível! Encontrei o companheiro Sancho Pança. Aprendi que amar é perder o tom nas comas da ilusão. Revelar todo o sentido.

Com o Roger chegou o convite a ser nômade e eu aceitei. Por que nem que eu bebesse o mar, encheria o que eu tenho de fundo.

Assim como Eros e Psiquê, Romeu e Julieta, Aquíles e Patroco, Baltasar e Blimunda, Salvador Dalí e Frederico Garcia Lorca, Therese e Carol, Elisabeth e Fitzwilliam, Oscar Wilde e Bosie, Álvaro de Azevedo e Luís, não podemos fugir desse amor indefectível. Estamos rendidos. Podem nos prender, apedrejar em praça pública, queimar na fogueira, arrastar nossos corpos pelas ruas da cidade.

Nada nos impedirá de lutar pelas crianças, pelos jovens, pelo livro, pela leitura, pela literatura, pelas bibliotecas, pelos mediadores, pelos artistas e pelo direito ao amor indefectível.

Se eu tivesse mais alma pra dar eu daria. Isso pra mim é viver.

 

*Volnei Canônica é colunista do site PublishNews. Formado em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul, com especialização em Literatura Infantil e Juvenil também pela Universidade de Caxias do Sul, e especialização em Literatura, Arte do Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. É diretor do Centro de Leitura Quindim e ex-diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, do Ministério da Cultura. Coordenou no Instituto C&A de Desenvolvimento Social o programa Prazer em Ler. Foi assessor na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Na Secretaria Municipal de Cultura de Caxias do Sul, assessorou a criação do Programa Permanente de Estímulo à Leitura. Também é jurado de vários prêmios literários.



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