Perda
Meu corpo foi violentado de forma simbólica e concreta: me tirando da sala de aula, perpetuando violências de alunos, me removendo da minha escola de lotação
Sou Rogério Laurentino Reis, de 50 anos, um homem negro retinto, filho de doméstica, e carrego o peso e a honra de ser o primeiro da minha família a atravessar os portões de uma universidade federal. Em 2013, fui aprovado em concurso, mas esperei cinco longos anos até que finalmente entrasse em uma sala de aula. Para muitos, o lugar de negro, ainda mais retinto, que não é visto nem como cidadão, nem mesmo como gente, não é o lugar do saber. Lembro o meu primeiro dia em uma unidade escolar estadual pública do Méier, subúrbio do Rio de Janeiro. Com o memorando de posse em mãos, fui abordado na entrada da minha escola de lotação pela diretora adjunta. Ela afirmou, com a tranquilidade de quem organiza o mundo através de uma nuvem de gafanhotos: “O técnico do ar-condicionado já chegou!”. Eu não poderia ser o profissional do conhecimento; eu…

