Pessoas de bem - Le Monde Diplomatique

INTOLERÂNCIA

Pessoas de bem

por Valéria Guimarães
14 de junho de 2016
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Os distintos diplomados, talvez tidos em seu meio como “pessoas de bem”, afirmam nesse livro que a homossexualidade é “distúrbio sexual determinista” e que a manifestação pública de homossexuais fere os diretos da família e a dignidade das criançasValéria Guimarães

De todas as dúvidas que pairam nesses tempos sombrios, talvez uma seja a mais inquietante: como explicar a adesão massiva a um projeto conservador, ultrapassado e retrógrado por significativa parcela de brasileiros? Além da óbvia ação de certos meios de comunicação e grupos organizados, nada que é semeado brota se não tiver um terreno fértil.

Elias Canetti por décadas tentou entender seus contemporâneos que apoiaram o nazismo. Muitas “pessoas de bem” estavam entre os que preferiram a sofisticação e contenção da Cavalgada das valquírias ao percussivo e sensual jazz americano, como em Vichy. O que se conclui é que existia um campo aberto à recepção de ideias que culminaram no horror, como a História nos mostrou. Pessoas apoiaram porque compartilhavam esses valores tidos como superiores. Ou que as faziam se sentir superiores e mais corretas. Só que talvez não esperassem que suas consequências fossem tão assustadoras e, pior, que pudessem se voltar contra elas próprias.

O que vemos hoje no Brasil só pode ser entendido por essa chave: raízes do conservadorismo mais tacanho não precisaram de muitas regas para irromper como plantas daninhas gigantescas e ameaçadoras. O terreno estava pronto. O solo, fertilizado por séculos. Embora tivesse sido limpo e preparado com terra nova, mostrou-se inóspito para o desenvolvimento de outra cultura.

Veja só um exemplo: como conselheira de uma biblioteca, fui chamada a manifestar-me acerca de uma moção do Ministério Público solicitando a retirada do acervo de um livro de direito, por ferir os princípios fundamentais do Estado democrático previstos na Constituição de 1988. Recuso-me a nomear os autores pois não cabe aqui fazer publicidade para o que repudio. Os distintos diplomados, talvez tidos em seu meio como “pessoas de bem”, afirmam nesse livro que o homossexualidade é “distúrbio sexual determinista” e que a manifestação pública de homossexuais fere os diretos da família e a dignidade das crianças. Em outro temerário trecho, destacam que são contrários ao serviço militar feminino por ir contra o bom senso. Essa concepção passa pela alegada fragilidade física do sexo feminino, o que os faz defender que o lugar da mulher deve restringir-se ao recatado ambiente familiar a educar filhos, em prol da paz social.

Ao ler tal descalabro fui reportada imediatamente à passagem do século XIX e XX. Discriminação de toda ordem, fartamente difundida pela imprensa em amplas campanhas de “regeneração”. Jornais e revistas – com lauta referência pseudocientífica, inspirados nas correntes do darwinismo social, na teoria da degenerescência, na escola italiana de Lombroso e em tudo aquilo que culminou nos fascismos e que teve apoio de várias instituições oficiais – combatiam com veemência aqueles que eram julgados como “degenerados” em um amplo espectro que comportava de loucos a suicidas, de boêmios a anarquistas/comunistas, de mestiços, negros, “carcamanos” ou “chinos” a mulheres e afeminados, da cultura popular à moralidade do pobre ou simplesmente do diferente daquilo que as oligarquias patriarcais julgavam ser o modelo de “pessoas de bem” e que deveriam compor a honrada família, núcleo da jovem nação. Havia exceções em nossa imprensa miúda, claro, mas não tinham a mesma força institucional de que gozavam as supostas “publicações de qualidade”.

Mas não, caro leitor. Para minha desagradável surpresa, o livro era de 2009! O mais assustador é que seu conteúdo remonta a uma tradição enraizada em nossa sociedade, erva daninha que ceifamos sem sucesso e que a cada poda parece voltar mais revigorada, irrigada e adubada por tendências obscuras, fruto da ignorância ou talvez da pura perversão. Uma sociedade que produz uma obra que defende tais ideias em pleno século XXI não aparece do nada. Esse fato isolado em muito explica a opção de parcela da população brasileira em corroborar com o projeto conservador do qual será ela própria a vítima.

A moção do MP foi, enfim, acatada e o livro (fruto de uma doação) foi retirado do acervo pois afronta o Artigo 3º, inciso IV que proíbe o preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade etc., conquistas sociais que preveem uma sociedade mais justa e em respeito à diversidade. Não foi, porém, sem causar muita estranheza e constrangimento que reagi ao fato de que semelhante título estivesse presente no catálogo de uma biblioteca universitária onde supostamente o pensamento crítico deveria prevalecer.

Talvez aí esteja o porquê de tantos cidadãos estarem jogando as conquistas dos últimos anos na fogueira. A adesão ao conservadorismo que se revela atualmente é apenas face do mesmo fenômeno que produziu esse livro perturbador. Se você ainda não tinha se dado conta disso e tem apoiado plataformas que defendem o retrocesso de mais de um século, tem adubado ainda mais esse nosso solo fértil para que o atraso se mostre em sua plenitude, talvez deva parar e refletir, caso não queira se confundir com aquelas “pessoas de bem” que acham que estão do lado certo da História.

Valéria Guimarães é professora de História da Unesp.



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