Pessoas sem escolaridade têm taxa de mortalidade por Covid-19 três vezes maior - Le Monde Diplomatique

FAVELAS DO RIO DE JANEIRO

Pessoas sem escolaridade têm taxa de mortalidade por Covid-19 três vezes maior

por Laura Toyama
13 de outubro de 2021
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Segundo dados da pesquisa “Coronavírus nas favelas: a desigualdade e o racismo sem máscaras”, elaborada pelo coletivo Movimentos: Drogas, Juventude e Favela pessoas sem escolaridade têm taxa de mortalidade por Covid-19 três vezes maior (71,3%) em relação às pessoas com ensino superior (22,5%); pretos e pardos sem escolaridade morrem até quatro vezes mais.

As vítimas do coronavírus são majoritariamente negras, pobres e periféricas, e as mulheres negras são o grupo com  a maior taxa de mortalidade pela doença, segundo dados de nota técnica emitida pela Rede de Pesquisa Solidária, no último dia 20 de setembro. Esse cenário se desenha desde o início: a primeira vítima fatal do Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica de 63 anos, moradora do município de Miguel Pereira, no sul fluminense. Antes de se contaminar, ela percorria, semanalmente, 120 km da sua casa até a residência em que trabalhava no Leblon, onde contraiu o vírus de sua patroa, recém retornada da Europa. 

Outros dados escancaram as desigualdades sociais brasileiras. De acordo com o estudo “Coronavírus nas favelas: a desigualdade e o racismo sem máscaras”, publicado pelo coletivo “Movimentos: Drogas, Juventude e Favela” no final de setembro, pessoas sem escolaridade tiveram taxa de mortalidade três vezes maior (71,3%) em relação às pessoas com ensino superior (22,5%). Acrescentando o recorte racial, pretos e pardos sem escolaridade morrem até quatro vezes mais. Apenas 16% dos moradores das favelas cariocas analisadas têm ensino superior e só 33% estudavam, no momento da pesquisa. 

E não há qualquer perspectiva de mudança já que a pandemia só agravou as desigualdades também em relação à Educação. A adoção do ensino à distância (EAD) não é uma alternativa para uma boa parte dos moradores das favelas do Rio: 40% não têm condições de acompanhar aulas via internet. As razões para isso vão desde falta de acesso à luz e aparelhos eletrônicos até tempo para dedicar-se aos estudos, segundo a pesquisa. 

Para coletar os dados do estudo, a organização entrevistou 995 pessoas, moradoras dos principais centros periféricos da cidade: 342 pessoas na Cidade de Deus, 305 no Complexo da Maré, 165 no Complexo do Alemão e 183 espalhadas por comunidades menores. A pesquisa foi feita durante os meses de setembro e outubro de 2020.

A dificuldade de acesso à Educação se reflete no ingresso no mercado de trabalho. Dos 54% que se declararam empregados, somente 26% tinham carteira assinada. Entre pretos, pardos e indígenas cerca de 30% ocupavam cargos informais. 

taxa de mortalidade
Cor e status de empregabilidade durante a pandemia

Baixe o estudo no site https://www.movimentos.org.br/

 

O isolamento social impossível nas casas de pequenos cômodos

O isolamento social foi uma das principais medidas de prevenção contra a disseminação do  coronavírus, sugerida por diversas autoridades sanitárias. No entanto, se analisadas as condições de moradia e transporte de grande parte da população brasileira, é impossível cumprir a medida. Segundo os dados coletados pela pesquisa, cerca de 22,9% dos entrevistados declararam residir em casas com até três cômodos. Em um panorama comparativo das condições de moradia entre mais ricos e mais pobres, casas com dois cômodos têm uma média de 4,25 pessoas infectadas pela doença, enquanto uma com sete ou mais tem média de 2,75 infectados, segundo dados do estudo.

Antigo problema de saúde pública nas favelas do Rio de Janeiro, a falta de saneamento básico também figurou entre os principais entraves nos cuidados contra a covid-19. A falta de água impossibilitou que se cumprisse a mais básica das profilaxias: higiene das mãos e objetos de uso pessoal. Para Aristênio Gomes, ativista e um dos coordenadores do Movimentos, essa questão está ligada ao racismo ambiental e representa um impeditivo de acesso à direitos básicos para a sobrevivência. “A favela vive uma realidade separada do resto, sempre fez parte da rotina dos moradores não ter água disponível para higiene, para cozinhar”, denuncia “há relatos de famílias que ficaram de duas semanas a um mês sem água”, disse. 

O problema foi apontado como rotineiro para 37% dos moradores das comunidades, e 63% denunciam terem ficado sem o recurso pelo menos uma vez, desde o início da pandemia. Em março de 2020, moradores do Complexo do Alemão e da comunidade Chatuba de Mesquita chegaram a ficar 20 dias sem fornecimento de água pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio, a Cedae.

O principal motivo para não cumprimento da quarentena foi a necessidade de trabalhar para 55% das pessoas entrevistadas, sendo que 54% declararam não terem se isolado de forma adequada. “A precária situação econômica dessas pessoas, que muitas vezes não permite nem a aquisição de máscaras e álcool em gel, também não permitiu que parassem de trabalhar porque tinham que se sustentar”, explica Aristênio. 

Vale ressaltar que a forma de deslocamento para chegar ao trabalho também pode ter contribuído para a contaminação dos moradores das favelas: quase metade usa o transporte público como principal meio de locomoção. A prefeitura do Rio chegou a diminuir a frota em circulação, medida completamente ineficaz se considerada a necessidade de deslocamento dessas pessoas, e que acabou por superlotar, ainda mais, os meios de transporte comunitários em funcionamento. 

Principais impeditivos para o cumprimento do isolamento social nas favelas.

 

A pobreza, o desemprego e o ensino piores do que nunca

O desemprego durante a pandemia também foi alto entre os moradores (54%), o que aprofundou as condições de pobreza. Por meses, o povo esteve desamparado pelo Estado, até a liberação das primeiras parcelas do auxílio emergencial de R$ 600, em maio de 2020. A medida, no entanto, foi interrompida nos primeiros meses de 2021 e só foi retomada depois de muita pressão popular e de parlamentares da oposição, com a  metade do valor antes oferecido. Entre os entrevistados pela pesquisa, 62% solicitaram o auxílio entre 2020 e 2021, mas somente 52% chegaram a receber alguma parcela do benefício. 

Quantidade de respondentes que perderam o emprego desde o início da pandemia

 

O limitado acesso aos serviços públicos de saúde

Até abril de 2021, segundo o painel de monitoramento da plataforma Vozes das Comunidades, o número de casos registrados nas favelas em questão foi de 17.739, com 1.600 óbitos. Em termos absolutos, o maior número de casos se concentra no Complexo da Maré, seguido do Complexo do Alemão e da favela da Rocinha. 

Mesmo quando os serviços de saúde estão disponíveis, são insuficientes para atender a toda a população, ocasionando superlotação e a busca por serviços particulares, em detrimento dos públicos. É o que acontece com as Clínicas da Família, espaço de atendimento médico multidisciplinar municipal, que atua por região e é usado por 57% dos entrevistados. Unidades estão presentes nas três favelas analisadas, mas não foram capazes de comportar a demanda de atendimento na pandemia.

 

Necropolítica estatal, saúde mental e a violência em mais de um formato

Em junho de 2020, o ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin proibiu, por meio do julgamento ADPF 365 – movida por organizações e movimentos sociais, operações policiais em favelas durante a pandemia. No entanto, não houve interrupção desse tipo de ação nas comunidades. O Movimentos registrou que 69% dos entrevistados presenciaram ou souberam de ações policiais, mesmo após a proibição, dado complementado pelos 83% que relataram terem ouvido tiros no lugar onde vivem. A letalidade policial, há muito tempo denunciada pela sociedade civil e pelos moradores das favelas, também passou por um significativo aumento de 58%. Ricardo Fernandes, coordenador do Movimentos e morador da Cidade de Deus, acredita que esse aumento da violência, mesmo num momento vulnerável, está alicerçado numa lógica de menos valor que o estado atribui à vida dos mais pobres. “Esse aumento da letalidade vem para deixar um recado, marcar algo. E o que é marcado com balas nessas operações são os nossos corpos”. 

Somente nos dois primeiros meses de 2021, o estado do Rio de Janeiro foi palco de nove chacinas, uma delas, na comunidade do Jacarezinho, na zona norte da capital, registrada como a mais letal da história, somando 29 mortos. Ricardo também analisa que essas mortes não são um efeito colateral, uma consequência de um objetivo maior, elas fazem parte de um plano sólido de extermínio, em curso nas favelas desde seu surgimento: ”É uma consequência causada”.

Número de respondentes que presenciaram ou souberam de operações policiais nas favelas onde vivem, durante a pandemia.

A saúde mental dos respondentes da pesquisa mostra uma relação clara entre o aumento de transtornos psíquicos, como ansiedade e depressão, e a grande chance de ter a vida ceifada, por bala ou por vírus. Algum nível de depressão (de leve a profundo), foi sentido por 388 dos participantes (43,1%), e a ansiedade  aparece como sensação muito ou extremamente presente na vida dos entrevistados (34%). Em algum período da pandemia, 76% declaram ter sofrido de algum distúrbio do sono. O perfil mais atingido por esses relatos de sofrimento psíquico é o de mulheres negras, de 30 a 39 anos. Somada a violência policial, muitas passaram por sobrecarga de trabalho, além do aumento preocupante da violência doméstica.

Observou-se um aumento no número de feminicídios, e uma diminuição na notificação de crimes contra a mulher e na expedição de medidas protetivas, o que pode  indicar uma maior dificuldade em denunciar a violência de gênero. Cerca de 381 pessoas (40%) alegam terem presenciado violência doméstica, sendo o Complexo da Maré o território com maior percentual (no qual 43% relatam serem testemunhas). 

taxa de mortalidade
Presenciou algum episódio de violência doméstica durante a quarentena.

O racismo também figura como a mais constante das violências sofridas pelos moradores das favelas. Das 50 pessoas entrevistadas que relataram terem sofrido violência física, 43 são pretos e pardos na faixa dos 20 aos 39 anos, sendo 25 mulheres, 24 homens e uma sem gênero especificado. Desse grupo, 16% denunciam terem sofrido algum episódio de racismo durante a pandemia, dos quais quase 31% ocorreram na internet, seguido de meios de notícia (29,3%) e da rua (29%).

Escala de saúde mental de vítimas de racismo/discriminação, que varia entre: nem um pouco (Um); um pouco (Dois); mais ou menos (Três); muito (Quatro) e extremamente (Cinco).

 

 

Laura Toyama faz parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.



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