Petróleo, desmatamento e queimadas - Le Monde Diplomatique

Disputa pelo pré-sal II

Petróleo, desmatamento e queimadas

por Roberto Kishinami
4 de novembro de 2008
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Se explorar corretamente os recursos do pré-sal, o Brasil terá a oportunidade única de combater sua herança de devastação ambiental. Em nenhum outro lugar o crescimento no consumo de combustíveis fósseis pode ser, em sua maioria absoluta, compensado com uma redução das emissões de gás carbônico

Crise financeira global, pré-sal e mudanças climáticas. Esses três fatores compõem hoje uma encruzilhada para o Brasil. A mistura de duas crises de escala planetária com um fato doméstico, num mesmo texto, tem um objetivo: evidenciar que mesmo num mundo globalizado e com dois colapsos profundos – um ambiental e outro econômico – é possível vislumbrar um futuro melhor, com a superação de aspectos da realidade nacional que não são apenas nossa herança, mas grilhões que mantêm o país atado a um passado indesejado.

Da crise financeira que desencadeou o atual quadro recessivo nas principais economias mundiais, interessa-nos apenas suas relações com o preço do petróleo, que esteve acima de US$ 100 por barril em boa parte dos últimos 12 meses1. O relatório 2008 da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) discute essa questão.

Ao apontar movimentos especulativos sobre os preços do produto, a organização relata duas causas principais. “O primeiro elemento está
relacionado à queda da cotação do dólar em relação às demais moedas. Por exemplo, ela foi de US$ 1,3 por euro, em agosto de 2007, para em torno de US$ 1,6, em junho de 2008. Isso representa um significativo enfraquecimento.”2

Assim, o uso do dólar americano nos contratos futuros teve papel inflacionário na cotação do petróleo. Sua desvalorização – com origem no aumento das emissões da moeda para cobrir os custos da guerra do Iraque – levou os produtores de petróleo a reduzir sua exposição à moeda em função do aumento do preço do produto. Mas essa não é toda a explicação. O relatório da organização aponta ainda que “outro elemento influenciou os preços: o papel dos contratos futuros de petróleo, regulados, em relação às suas vendas não reguladas.

O comércio de barris em papel expandiu-se dramaticamente nos últimos anos. Por exemplo, o número de barris em papel comercializados na NYMEX em relação aos barris fisicamente fornecidos aumentou exponencialmente nos últimos quatro anos. Em 2003, para cada barril físico, seis barris em papel eram comercializados; ao passo que hoje esse número subiu para mais de 18 barris, resultando num aumento de mais de três vezes. E esses números são ainda maiores nas operações futuras se forem consideradas as transações em Londres, em Cingapura, na não regulada Intercontinental Exchange, baseada em Atlanta, e as realizadas diretamente entre particulares, assim como o comércio de índices e produtos derivativos.”3

Jogo de ganha-ganha

O texto da Opep consolida uma percepção que já existia entre os operadores do mercado futuro de petróleo: a de que os movimentos especulativos tinham aumentado num movimento semelhante ao que ocorreu com o mercado imobiliário, tanto nos Estados Unidos como na Europa. Como se sabe, as condições creditícias e regulatórias permitiram uma especulação sobre os preços dos imóveis novos e usados, envolvendo bancos, seguradoras, re-seguradoras, prestamistas, investidores e corretores, num ilusório jogo de ganha–ganha, em que o aumento dos preços especulativos dos imóveis admitia novos empréstimos sobre os mesmos imóveis ainda em amortização no sistema financeiro habitacional, cujas condições de financiamento já eram – ressalte-se – bastante favorecidas.

No caso do petróleo, os contratos de fornecimento físico no futuro servem de base para a criação de papéis comercializados com investidores que não estão interessados em receber fisicamente os barris de petróleo. Ao invés disso, esses compradores de papéis apostam no aumento do preço futuro do produto para além daquele previsto no contrato, candidatando-se a embolsar a diferença. Dentro de certos limites esse jogo funciona, porque o próprio mercado de papéis derivados do contrato original (derivativos) sinaliza uma demanda – nem sempre artificial – que resulta no aumento do preço do barril de petróleo. O risco dessa aposta está na possibilidade de os produtores aumentarem rapidamente a oferta de petróleo, atraídos pelo preço mais alto. Mas nos momentos de pico desse mercado nos últimos 12 meses, em que o preço esteve acima de US$ 150 o barril, essa especulação foi o fator predominante, uma vez que nenhum dos fatos demandantes conhecidos – baixos estoques, inverno rigoroso, refinarias fora de serviço etc. –, além de alguns eventos climáticos momentâneos e sem maiores conseqüências, se fez presente nesses momentos.

Hoje, de todo esse movimento especulativo resta uma queda na demanda de petróleo por causa de um quadro econômico que, se não é recessivo, é de baixa atividade nas principais economias do mundo, o que derrubou o preço tanto no mercado spot como no futuro para pouco menos de US$ 70 o barril. E o que significa esse preço para a exploração de novos campos de petróleo ou para o aumento da produção nos campos existentes? Segundo a própria Opep, “a referência de preços para a cesta de óleos crus da Opep está fixada entre US$ 70 e US$ 90 por barril em termos nominais para o período. Entretanto, é importante observar que essa é uma hipótese e não reflete ou implica que seja um preço provável ou desejável.”

Assim, uma preocupação do lado dos países produtores é a queda nos investimentos para o aumento da produção, como expressou o ministro de Petróleo do Irã, Gholam Hossein Nozari: “Acreditamos que a queda nos preços do petróleo prejudicará os consumidores em longo prazo e eliminará a motivação para os investimentos”. A proposta da Opep é um corte na oferta de modo a trazer os preços de volta a patamares mais atrativos. Note-se que embora, de um lado, os preços abaixo de US$ 70 o barril não sejam interessantes para os países produtores tradicionais, do outro, os preços de US$ 100 ou mais o barril também não o são, porque estimulam o desenvolvimento de combustiveis alternativos aos derivados de petroléo e gás natural, assim como a exploração de jazidas que, até então, não eram atraentes por exigirem altos investimentos e novas tecnologias.

Aqui entra o petróleo do pré-sal brasileiro. Nos primeiros dias de janeiro de 2008, a Petrobras anunciou a descoberta de reservas recuperáveis estimadas entre 5 a 8 bilhões de barris, de petróleo e gás natural, no campo de Tupi, localizado na bacia de Santos. Essas reservas estão abaixo de uma camada de sal e, em média, a uma profundidade de 6 mil metros sob a superfície do mar, a uma distância de aproximadamente 250 quilômetros da costa brasileira e na altura dos limites entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Essa des
coberta é a maior desde o anúncio do campo supergigante de Kashagan, localizado no Cazaquistão. Além disso, o petróleo encontrado nessa região parece ser mais leve e menos poluente que a maioria da produção existente no Brasil. Em seguida ao anúncio do campo de Tupi, seguiram-se outras descobertas na camada pré-sal, incluindo Carioca, Iara e Guará. Estimativas preliminares do volume de óleo e gás recuperáveis em todas as reservas do pré-sal – que nessa região podem estar interligadas, formando uma enorme jazida – aproximam-se de 56 bilhões de barris de petróleo equivalente.

O anúncio dos novos campos colocou em foco a indústria petrolífera brasileira, dadas as implicações dos volumes estimados para o mercado mundial de petróleo e derivados. Entretanto, desafios consideráveis ainda devem ser superados para que essas reservas entrem em produção.

O professor Giuseppe Baccocoli, geólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e entusiasta da exploração do pré-sal, afirmou que o custo do projeto poderia ser multiplicado por mais de 10 em comparação com outros empreendimentos da Petrobras. “Se um poço na bacia de Campos pode custar US$ 10 milhões, em Tupi seriam US$ 120 milhões”, disse ele. O poço teria de perfurar 2 mil metros de sedimentos e 2 mil metros de sal. “Nessa profundidade, o sal se torna uma massa plástica, que se move tentando fechar o poço. Tentamos antes e sempre tivemos esse problema”, disse ele.

Investir na tecnologia de exploração

Mas o alto custo do investimento necessário aos campos do pré-sal, nos montantes citados pelo professor Baccocoli e corroborado por outros, não chega a inviabilizar a exploração. Apenas a torna mais difícil num momento em que a oferta de créditos para novos empreendimentos de maior risco praticamente desapareceu, após o início da crise financeira internacional. Tratando-se da Petrobras, a dificuldade é passageira, dado que sua estrutura de recebimento, transporte e logística já está estabelecida e seus custos de operação e manutenção são bem conhecidos. Com a perspectiva de que pelos próximos anos a cotação do barril de petróleo fique abaixo de US$ 100, mas acima de US$ 70, o mais provável é que os projetos de exploração do pré-sal recebam um tratamento mais conservador do que aquele inicialmente anunciado.

Isso significaria investir na tecnologia de exploração que, como alerta o professor Baccocoli, exigirá tubos de aço mais resistentes e apropriados para o ambiente, além de estudos sobre o fluxo de óleo e gás que efetivamente se pode alcançar nos campos identificados. A análise dos testes sísmicos é outra medida óbvia, uma vez que a camada de sal distorce – pela sua plasticidade – as ondas mecânicas geradas na prospecção geológica tradicional.

Um caminho mais conservador para a exploração dos campos do pré-sal pode ser também interessante para o país. O Brasil tinha 12,2 bilhões de barris de petróleo em reservas comprovadas, no início de 2008. Isso o tornava a segunda maior província petrolífera na América do Sul, depois da Venezuela. As bacias de Campos e Santos, no alto-mar da região Sudeste, contêm a maior parte das reservas provadas brasileiras. Em 2007, o Brasil produziu 2,28 milhões de barris/dia de petróleo. Essa produção tem crescido regularmente nos últimos anos: a de 2007 foi 5% maior do que a alcançada em 2006. A Agência Internacional de Energia (AIE) registrou um consumo brasileiro de derivados de petróleo de 2,37 milhões de barris/dia no ano passado, com uma projeção de 2,41 milhões de barris/dia em 2008 e 2,72 milhões de barris/dia em 2009.

Como resultado do aumento da produção doméstica, a AIE estima que o Brasil se tornará um exportador líquido de petróleo em meados de 2009.
Nesse ponto, cabe lembrar que, apesar da crise financeira mundial, o mundo continua enfrentando um aquecimento global sem precedentes, causado pelo acúmulo de gás carbônico na atmosfera, resultante da queima de combustíveis fósseis como o carvão mineral, o petróleo e o gás natural. Enquanto a atual crise econômica pode durar de dois a três anos, a crise ambiental representada pelas mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global terá seus efeitos amplificados ao longo de todo o século. A concentração atual de gás carbônico já chega a 380 ppm (partes por milhão) na atmosfera terrestre, contra cerca de 290 ppm até o início do século passado. E essa escala continuará subindo, até que os acordos internacionais em vigor – a Convenção Clima e seu Protocolo de Kyoto4 – produzam efeitos práticos e significativos pela redução do consumo de combustíveis fósseis.  Por ora, as perspectivas não são animadoras5.

Nesse sentido, a oportunidade do Brasil está na característica das nossas emissões de gás carbônico. Enquanto na China e na Índia essas emissões crescem pelo consumo cada vez maior de carvão mineral e petróleo, no Brasil, 75% delas devem-se ao desmatamento e às queimadas. Essas emissões, da ordem de 660 milhões de toneladas anuais de gás carbônico, podem ser não só reduzidas, mas revertidas, por meio do plantio de árvores para fins comerciais e para  restauração florestal6, num prazo de 10 a 20 anos. Isso, claro, se tivermos uma política florestal conduzida de forma correta.

O consumo brasileiro de petróleo previsto para 2010 é da ordem de 1 bilhão de barris por ano. Isso significa que as reservas do pré-sal, se confirmadas nos 56 bilhões de barris, supririam o consumo nacional por 29 anos, considerando um crescimento de 5% ao ano no período. Mas representa também uma emissão média de 880 milhões de toneladas de gás carbônico ao ano, no mesmo período. A posição do Brasil nesse contexto é única, pois em nenhum outro lugar o crescimento no consumo de combustíveis fósseis – supondo que eles sejam necessários em sua totalidade, o que é algo perfeitamente questionável – pode ser, em sua maioria absoluta, compensado com uma redução no desmatamento e nas queimadas, dois fenômenos perfeitamente dispensáveis da realidade nacional.

Na reflexão aqui exposta, o Brasil tem a chance de explorar um recurso fóssil significativo, que corretamente utilizado pode alavancar a superação de dívidas sociais e históricas – como o acesso à educação, o combate às situações extremas de pobreza etc. – desde que, ao mesmo tempo, combata uma das heranças do seu processo de colonização: a incorporação de territórios pelo desmatamento e pelas queimadas, com a conseqüente eliminação do que antes exi
stia: vida e sociedade. Se vamos conseguir colocar em prática um movimento tão orquestrado é algo que veremos na próxima década. Nela vamos testar nossa capacidade de sairmos das crises melhores do que quando entramos. Afinal, esse parece ser o caminho civilizatório a que nos dispusemos, em algum momento no longínquo passado.

 

*Roberto Kishinami é físico, especialista em planejamento energético da NGR Ltda.



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