Pitangas verdes: o amadurecimento negado às mulheres
Pitangas Verdes, vencedor do concurso literário Vila-Labrador, aborda a violência estrutural e a responsabilidade precoce a que as mulheres são submetidas, e oferece outro caminho: o de imaginar
Há uma pressa que marca a vida das meninas brasileiras. Uma pressa cruel, que rouba o tempo da fantasia. Crescemos em alerta, obrigadas a amadurecer antes mesmo de entender o que isso significa. Antes dos 14 anos, muitas já conhecem experiências que deveriam lhes ser estranhas: a de se defender, cuidar de si mesmas e, às vezes, de outros. Essa perda precoce da imaginação e, com ela, da própria infância, foi o ponto de partida do meu primeiro romance, Pitangas verdes.
A protagonista, Ana, evoca memórias de infância enquanto lida com a morte da mãe. Ao reabrir caixas guardadas, reencontra marcas do que foi vivido e do que precisou ser esquecido. Como tantas mulheres, precisou tornar-se adulta cedo demais para sobreviver.
Essa aproximação de Ana com a história da mãe é o eixo da obra. Ao revisitar o passado, ela percebe o que a sua trajetória, a da mãe e a da avó têm em comum: a falta de espaço para fantasiar. Para muitas mulheres, é difícil imaginar uma vida diferente daquela imposta por papéis tradicionais e responsabilidades que nunca cessam. Falta tempo, sobram violência e dever. E Ana vai entendendo que abrir espaço para sonhar é um gesto de resistência.
A interdição ao sonho atravessa gerações. De Ana, destaco a relação com o pai: um homem bem-intencionado, mas cuja ausência lhe imprime um desamparo duradouro. Da mãe, a abnegação de criar a filha sozinha, após a separação. Da avó, o fato de ter sido vendida como empregada doméstica em Alagoas e ter sido mãe no começo da adolescência. O episódio mais doloroso do livro – o estupro de Ana pelo tio materno – é o marco dessa passagem forçada da infância à vida adulta e reflete a violência estrutural que atinge meninas e mulheres no país.
O título Pitangas verdes surgiu da imagem do fruto colhido antes da hora. Quis falar sobre o amadurecimento forçado, sobre essa passagem abrupta da fantasia para o real e, ao mesmo tempo, oferecer um gesto de delicadeza: a literatura como tentativa de devolver às mulheres o direito de sonhar, ainda que pela memória e pela palavra.

Escrever e ler para mim, são formas de exercitar de empatia. A literatura tem o poder de fazer sentir uma verdade. Não necessariamente a verdade literal, os fatos, mas a verdade de um afeto. Permite compreender por dentro o que a realidade muitas vezes apenas sugere. É uma forma de conhecimento que passa pelo corpo e pela imaginação.
Talvez por isso eu tenha voltado à escrita depois de tantos anos. Formada em Direito e diplomata de carreira, vivi em países marcados por conflitos e desigualdades. A escrita foi meu modo de traduzir o que não cabia nos relatórios nem nas estatísticas; aquilo que só a ficção pode dizer.
Pitangas verdes nasceu desse desejo. O Concurso Literário Vila Labrador, que premiou o livro entre mais de seiscentos originais inéditos, me permitiu torná-lo público. Por ser um relato íntimo, embora não seja autoficção, decidi que só o publicaria se tivesse algum reconhecimento. É um tema caro demais a mim para colocá-lo no mundo sem a certeza de que estava bem trabalhado. O concurso, julgado por Jeferson Tenório, Mariana Salomão Carrara e Socorro Acioli, me deu esse respaldo. Iniciativas como essa são fundamentais para que novas vozes, especialmente de mulheres e autoras inéditas, possam ser ouvidas.
Escrever é sempre um ato político. Ao escolher o que e como contar, disputamos o olhar e os afetos dos leitores. Minha escolha foi narrar a história de meninas, mulheres e mães que foram impedidas de imaginar livremente a vida que queriam para si. Mulheres que aprenderam cedo demais o peso da responsabilidade. O peso para todas nós, que seguimos tentando equilibrar dor e delicadeza, ferida e fantasia.
Mariana Lobato Botter é diplomata, formada em Direito pela USP, pós-graduada em Escrita Criativa pelo Instituto Vera Cruz e graduanda em Letras na USP. Serviu na Palestina, em Boston e em La Paz. Pitangas verdes, seu primeiro romance, foi vencedor do Concurso Literário Vila Labrador.

