"Plantas-remédios": desnecessárias e perigosas - Le Monde Diplomatique

DOSSIÊ TRANSGÊNICOS / FANTASIAS

"Plantas-remédios": desnecessárias e perigosas

por Christian Vélot
1 de abril de 2006
compartilhar
visualização

A manipulação genética é utilizada há um quarto de século para produzir, em laboratório, insulina, vacinas e outros medicamentos. Cultivar as plantas na natureza não traz nenhum benefício novo, e introduz o risco de contaminaçãoChristian Vélot

“Plantas-medicamento” são plantas geneticamente modificadas (PGM) nas quais é introduzido um gene, com o fim de se produzir uma proteína de interesse farmacêutico. Há um quarto de século, a tecnologia de manipulação genética é utilizada em laboratório para a produção de diversas proteínas com fins terapêuticos (insulina, hormônio de crescimento, vacinas, etc.), empregando células em cultura (bactérias, levedos) e também células de insetos, de ovários de hamster e de vegetais, em fermentadores fechados.

Dois argumentos sem consistência

Os argumentos utilizados para justificar a súbita “necessidade” de se recorrer a plantas cultivadas em campo são de duas ordens: técnica e econômica. O argumento técnico sustenta que, freqüentemente, as proteínas só são funcionais após modificações químicas (como a adição de açúcares), que as plantas seriam mais aptas a realizar. Ocorre que o levedo, por exemplo, tem um resultado tão bom, ou até melhor, que a planta. Mesmo que os vegetais constituíssem o sistema ideal, as culturas de células de plantas geneticamente modificadas poderiam ser feitas em em espaço confinado – como já é o caso de 23 proteínas medicamentosas. O desempenho das culturas de células vegetais independe de clima, solo e estações do ano, além de eliminar qualquer risco de contaminação do medicamento por pesticidas.

Por outro lado, o argumento econômico, de que a cultura em campo requereria menor investimento, não considera os custos ambientais e sociais que uma contaminação por produção em campo acarretaria. Aliás, com células de raízes, a proteína produzida é freqüentemente excretada no meio de cultura. Cultivar tais plantas geneticamente modificadas em campo provoca risco de consumo descontrolado, tanto por animais quanto por humanos, de moléculas cujo consumo exigiria prescrição médica. Por sinal, em 2004, a Academia Norte-americana de Ciências emitiu um parecer crítico sobre essas PGM (Biological confinement of genetically engineered organisms). Por que não nos serve, neste caso, o exemplo dos EUA, ao jamais deixamos de nos referir?



Artigos Relacionados

Eleições 2022: a mídia como palanque

Internet abre espaço para a diversidade de perfis, mas impulsiona velhas práticas

Online | Brasil
por Tâmara Terso
A CRISE DA CULTURA

Lei Aldir Blanc: reflexões sobre as contradições

por Rodrigo Juste Duarte, com colaboração de pesquisadores da rede do Observatório da Cultura do Brasil
AMÉRICA DO SUL

A “nova onda rosa”: um recomeço mais desafiador

Online | América Latina
por Cairo Junqueira e Lívia Milani
CORRUPÇÃO BOLSONARISTA

Onde está o governo sem corrupção de Bolsonaro?

Online | Brasil
por Samantha Prado
CONGRESSO NACIONAL

Financiamento de campanhas por infratores ambientais na Amazônia Legal

Online | Brasil
por Adriana Erthal Abdenur e Renata Albuquerque Ribeiro
EDITORIAL

Só existe um futuro para o Brasil, e ele passa pela eleição de Lula neste domingo

Online | Brasil
por Le Monde Diplomatique Brasil
UMA ENCRUZILHADA SE APROXIMA

Os militares e a última palavra da legitimidade das urnas

Online | Brasil
por Julia Almeida Vasconcelos da Silva
ELEIÇÕES 2022

Voto útil: o chamado ao primeiro turno em 2022

Online | Brasil
por Luísa Leite e Alexsandra Cavalcanti