Podemos, "a nossa estratégia" - Le Monde Diplomatique

A ESPANHA ENTRE DUAS ELEIÇÕES

Podemos, “a nossa estratégia”

por Pablo Iglesias
6 de julho de 2015
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Crise financeira, pauperização maciça, descrédito dos profissionais da política: tudo teria conduzido à renovação da esquerda na Europa. Entretanto, ela cambaleia por toda parte. Isso explica a concentração de interesses na Espanha, onde o partido Podemos exibe uma inventividade estratégicaPablo Iglesias


A atitude de Berlim para com Atenas durante as negociações não me surpreendeu. Embora a Grécia seja um Estado fraco, o governo de Tsipras voltou a questionar o modo de funcionamento da União Europeia sob a hegemonia alemã, de modo que o grau da provocação é desproporcional ao tamanho do país. De resto, o Podemos aparece agora como um ator político importante na qualidade de candidato ao poder na quarta economia da zona do euro. Os gregos já nos disseram: nossos bons resultados nas pesquisas não constituem necessariamente uma boa notícia para eles. Nossos adversários receiam que uma vitória do Syriza afete nossos próprios resultados, que ela passe a nos alimentar no balão de oxigênio. Seu objetivo não se limita, portanto, a manter em xeque o governo grego: eles querem também barrar o caminho a outras ameaças, como a que representamos a seus olhos. Pressionar o Syriza significa fazer o mesmo com o Podemos, demonstrar que não existe alternativa. “Vão votar no Podemos? Olhem bem o que está acontecendo na Grécia”: esse é, em suma, o refrão gritado atualmente aos espanhóis.

De nosso ponto de vista, Alexis Tsipras se mostrou muito esperto: conseguiu criar a imagem de uma Alemanha isolada, cujos interesses nem sempre coincidem com os do resto da Europa, mesmo em termos de política externa. Foi o que ele tentou impingir à França e à Itália com sucesso moderado, mas igualmente aos países do Leste. Não é o caso de admirar que a Alemanha se mostre tão intransigente nas negociações.

Nossos camaradas gregos elaboraram uma estratégia similar à nossa, embora em um contexto bem diferente. Para começar, pretendem restabelecer a legitimidade institucional do governo, que foi metodicamente abalada e depois destruída. Isso assume feições de reforma tributária, para dar ao Estado certa margem de manobra, sobretudo no setor das políticas públicas, e reconstituir o tecido social cujos liames acabaram rompidos pela austeridade. Em seguida, no plano exterior, gerar contradições no seio do bloco hegemônico do grupo europeu. Isso se traduziu, principalmente no início, em críticas tímidas à maneira pela qual a Alemanha provocou a crise na Europa. Não há dúvida alguma de que o objetivo era desfazer o consenso dominante.

Nossa estratégia seria outra, em especial porque a Espanha representa 10,6% do PIB da zona do euro, contra 1,9% da Grécia.1 Entraríamos, pois, na disputa com a certeza de dispor de uma margem de manobra bem maior. Abordaríamos também, é claro, a questão da reforma dos tratados orçamentários, a fim de aumentar os gastos públicos em investimentos e incrementar as políticas sociais, notadamente as aposentadorias, e ainda pôr termo à corrosão dos salários que diminui o consumo. Feitas essas reformas – e só então –, poderíamos atacar o problema da dívida em âmbito europeu, no quadro de uma reestruturação que almejasse, por exemplo, vincular os reembolsos ao crescimento econômico. Somente uma estratégia em escala europeia – que ainda não existe – permitiria visualizar outro paradigma, que não fosse o das políticas de austeridade.

Ora, essa medida suscitaria contradições junto a nossos adversários, sobretudo no seio das forças social-democratas. Sabemos bem da imensa resistência que ela encontraria no aparelho estatal espanhol e também no Eurogrupo; todavia, se um país tão pequeno e fraco como a Grécia logrou se tornar um fator de instabilidade na zona do euro, nossa capacidade de revelar contradições desse tipo no seio das forças social-democratas seria ainda maior. Ficaria claro que o projeto europeu não é compatível com as políticas de austeridade – e isso abriria espaço político para discutir a questão econômica.

 

Uma longa primavera

As eleições municipais de 24 de maio último [que viram a vitória do Podemos e de seus aliados em Madri e Barcelona] constituem um momento-chave do processo de mudança, sem precedente desde a transição democrática [iniciada em 1975 com a morte do general Francisco Franco]. Ainda que isso tenha sido mais lento do que esperávamos – e desejávamos –, logo chegamos a uma situação na qual o bipartidarismo não permite mais compreender a vida política na Espanha. Os dois grandes partidos – Partido Popular (PP, de direita) e Partido Socialista Operário (Psoe, de esquerda) – alcançaram seus piores resultados desde o retorno da democracia.

Surge assim uma situação inédita para as eleições gerais,2 tendo em vista que a batalha será travada em torno de uma frente principal: continuidade ou mudança. Não há nenhuma dúvida de que o Psoe tentará também se apresentar como uma força de mudança, mas isso não será fácil.3 Para o Podemos, essas eleições representam ao contrário um encontro natural, já que vêm encerrar o ciclo político aberto pelas manifestações do Movimento 15 de Maio.4

Saímos de um inverno difícil, durante o qual nosso adversário pensou que poderia nos fazer fracassar. Sofremos golpes, mas resistimos, e enfrentamos essas eleições municipais, assim como as eleições andaluzas,5 em boas condições. No entanto, precisamos tirar algumas lições da campanha, assim como do resultado do pleito.

Durante algumas semanas estivemos na defensiva. Mas nossos esforços para nos reapropriarmos do nosso discurso original – com o objetivo de representar as classes populares e defender os direitos sociais, valorizando a ação dos movimentos sociais – se revelaram o melhor meio de encarnar a novidade, a regeneração. Nesse terreno, o Ciudadanos (Cidadãos)6 não tem condições de combater.

Outra lição: a denúncia da corrupção como modelo econômico e político do qual o PP seria a pedra angular permite introduzir uma separação eficaz. Aqui, é o Psoe que não está em condições de nos enfrentar.

Esses dois eixos – defesa das classes populares e recusa da corrupção –, concebidos como as duas faces de uma mesma moeda, nos permitiram ser a única força política capaz de desafiar o bipartidarismo em muitas municipalidades.

O inverno está terminando: chega uma primavera que nos conduzirá até novembro. O terreno não nos é favorável, mas nossa presença institucional se apoia agora em uma experiência de combate. Precisamos sair das trincheiras em que tivemos de nos recolher; só nos restam alguns meses.

Daqui até lá, a possibilidade de um acordo com o Psoe é, antes de tudo, um problema estratégico, pois nosso principal objetivo – sempre fomos muito claros a esse respeito – são as eleições gerais de novembro. Assim, toda decisão e toda situação devem ser analisadas à luz da conjuntura em que nos colocamos para esse escrutínio. Ao mesmo tempo, não podemos ignorar a amplitude do desejo de mudança manifestado pelo povo, o que implica ficar à altura desse desejo.

Existe, portanto, a questão dos resultados eleitorais, não resta dúvida; mas existe também, e sobretudo, a nossa capacidade de exercer pressão sobre as outras forças políticas. Quando nos perguntam: “Vocês farão acordo com o Partido Socialista?”, nós respondemos: “Os socialistas devem, primeiro, executar um giro de 180º”. Sabemos que há duas tendências no seio do Psoe. Uma se caracteriza pela lógica de sistema ou de regime, segundo a qual a prioridade consiste em nos deter, em paralisar nosso movimento. Na visão deles, isso poderia se traduzir em uma grande coalizão com o PP ou o Ciudadanos. A outra raciocina em conformidade com a lógica de partido: ela sabe que essa escolha conduziria à implosão do Psoe, dando mais espaço ao Podemos. O problema dos acordos será resolvido, assim, em função dos resultados eleitorais, mas também da análise que fizermos das diferentes situações, levando em conta nossa capacidade de explorar as dissensões dos adversários (sobretudo se, como sugerem as pesquisas, a Espanha estiver a caminho de um sistema de quatro partidos, com fatias entre 15% e 25%).

Na Andaluzia, o que pretendemos não é formar uma coalizão. Delineamos três condições ao nosso apoio ao Psoe, para que ele forme o governo regional. Exigimos, em primeiro lugar, a saída de dois ex-presidentes da Andaluzia, suspeitos de corrupção (um tem assento na Assembleia Nacional; o outro, no Senado). Exigimos ainda que o governo andaluz não assine nenhum contrato com estabelecimentos financeiros que demitem sem propor remanejamento. Exigimos, enfim, uma redução no número de funcionários de alto nível, de modo a permitir a reintegração do pessoal afastado de escolas e hospitais durante a crise. Isso não é um programa de governo, mas três condições para que não bloqueemos o caminho do Psoe. Entretanto, como nossos resultados foram mais fracos que os do Partido Socialista, nossa margem de manobra é exígua. Estamos tentando agir de modo que todo apoio institucional do Podemos – inclusive quando for apenas o caso de não vetar nomes para cargos – se traduza imediatamente em medidas sociais que demonstrem ser possível uma mudança […]. Tais exigências não custam nada, não aumentam em um centavo a despesa pública. O Psoe escolheu o apoio do Ciudadanos.

A criação desse partido foi um tremendo golpe de astúcia, não tanto porque esse partido vá drenar diretamente eleitores que outrora votavam no Podemos, mas sobretudo porque ele enfraqueceu nosso discurso, pelo qual nos apresentávamos como a opção da mudança, e roubou-nos uma parte do espaço que a mídia nos concedia por esse motivo. Existe agora outro “partido da mudança”, que se apresenta com traços bem diferentes, pois o Ciudadanos emerge em grande parte do próprio seio do establishment liberal. Isso nos levou a reformular o caráter do Podemos.

Nosso objetivo básico sempre foi ocupar o centro do campo político, tirando vantagem da crise. Isso nada tem a ver com o “centro” político do discurso burguês. Em termos gramscianos,7 nosso alvo nessa guerra de posições tem sido criar um novo “senso comum” que nos permita ocupar uma posição transversal no âmago do espectro político recentemente reconfigurado. Hoje, o espaço político disponível está reduzido pelos contra-ataques da elite, a começar pelo advento do Ciudadanos. Portanto, nossa tarefa será doravante mais delicada, já que requer uma nova inteligência estratégica. As iniciativas do adversário colocaram, além disso, novas dificuldades até mesmo entre nós.

De início, o surgimento do Ciudadanos nos substitui em uma lógica que há tempos consideramos perdedora: a do eixo esquerda-direita tradicional. Achamos que, nessa base, não existe possibilidade alguma de mudança na Espanha. O perigo, agora, consiste em sermos empurrados outra vez para esse eixo e não conseguirmos definir uma centralidade nova – a qual, permitam-me repetir, nada tem a ver com o centro do espectro político. Nesse panorama, o discurso plebeu do Podemos, organizado em torno da oposição entre “os de baixo” e “os de cima” (a oligarquia), correria o risco de ser reinterpretado como a fala tradicional da extrema esquerda, o que o exporia a perder sua transversalidade e o privaria da chance de ocupar a centralidade nova. Por fim, enfrentamos o desafio – que representa igualmente uma alavanca potencial – da normalização. Já não aparecemos como outsiders (o impacto da novidade se diluiu), mas o Podemos ganhou em força e experiência: tem agora mais capacidade de representação. Precisamos a todo custo redefinir ou aperfeiçoar nosso discurso para rechaçar os contra-ataques e reaver o espaço que nos foi tirado. Isso não será fácil.

 

Manter aberto o jogo político

Fomos confrontados com um problema durante a visita oficial do rei da Espanha ao Parlamento europeu, em 15 de abril de 2015. Semelhante acontecimento nos coloca diante de uma questão difícil: a da monarquia. Por que difícil? Porque, logo de início, nos interdita a centralidade do terreno. Existem, grosso modo, duas opções. A primeira, tradicionalmente adotada pela esquerda (por exemplo, a Izquierda Unida), resume-se a dizer: “Somos republicanos. Não apoiamos a monarquia e não compareceremos à recepção em honra do rei da Espanha. Não reconhecemos esse espaço de legitimidade ao chefe de Estado”. Ainda que seja perfeitamente sustentável no plano ético e moral, essa postura nos insere desde logo no espaço da esquerda radical, no quadro rígido da tradição. Ficamos instantaneamente alienados de vastas camadas do povo, que simpatizam com o novo rei8 – e isso independentemente do que pensem de outras questões e do fato de associarem o antigo monarca à corrupção do regime anterior. A monarquia continua sendo uma das instituições mais apreciadas na Espanha […]. Duas opções, portanto: não vamos à recepção e permanecemos aferrados ao esquema de análise tradicional da extrema esquerda, que oferece muito poucas possibilidades de ação; ou vamos, e o Podemos se mistura à classe política, validando assim o quadro institucional. Em suma: passaremos por traidores, monarquistas ou coisa que o valha…

Como resolvemos esse problema? Fomos lá, mas sem mudar nada em nossa maneira habitual de nos apresentar, com roupas de todos os dias e ignorando o protocolo. Pouca coisa, mas que caracteriza bem a postura do Podemos. Não bastasse isso, ofereci ao rei os DVDs da série Game of Thrones, qualificando-a de um instrumento de interpretação daquilo que acontece na Espanha […]. Sem dúvida, essa é uma atitude complicada para manter, mas a única que nos permite conservar aberto o jogo político, a única que nos dá a possibilidade de atuar no cerne das contradições – ou seja, questionar o statu quoem vez de assumir uma posição pura, mas impotente.

 

Pablo Iglesias é deputado europeu e secretário-geral do Podemos. Este texto foi extraído de uma entrevista publicada na New Left Review (maio-jun. 2015). A análise do resultado das eleições de 24 de maio de 2015 foi redigida para o Le Monde diplomatique.



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