FÉ E OMISSÃO

Por que a frente evangélica se distancia da agenda ambiental?

Em um Brasil majoritariamente cristão, a discussão ambiental ultrapassa o campo científico e engloba questões éticas, culturais e religiosas

O cuidado com o meio ambiente nunca esteve à margem do cristianismo: está entrelaçado com a sua história. Os antigos mitos e paganismos costumavam relacionar a natureza a uma grande mãe comum, e essas influências não foram isoladas pelas sociedades hebraicas que fundaram o cristianismo séculos mais tarde. Escritos milenares, como o Livro de Jó, associavam a terra ao grande ventre de onde o homem se originou.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han denomina essa capacidade humana de estabelecer relações e atribuir significados ao ambiente que o cerca de encasamento, isto é, tornar o mundo uma casa. São Francisco de Assis, no século XIII, chamava a lua e o sol de irmãos e a terra de sua grande mãe. Foi em 1999, em carta apostólica, que o papa João Paulo II (1920-2005), destacando a grandeza do santo, o proclamou “o celeste padroeiro dos cultores da ecologia”. 

Mais tarde, a encíclica  Laudato Si’, do Papa Francisco (1936–2025), inicia com um clamor da natureza “contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou”. Percebe-se, portanto, que na fé cristã existe uma convicção: Deus é a mente criadora que anima e ordena toda a biodiversidade, e reconhecer isso implica um chamado ético ao cuidado com o mundo confiado ao ser humano. 

Basta abrir as primeiras páginas de Gênesis para entender que o livro fundador das tradições judaico-cristãs começa pela criação, reconhecendo Deus como o autor de todas as coisas. Ao primeiro homem mencionado, Adão, o texto é claro: foi colocado no jardim do Éden “para cultivar e guardar”. Em hebraico, “cultivar” expressa o ato de servir, trabalhar e cuidar com propósito, e “guardar” significa proteger, zelar e vigiar. Desde o princípio, portanto, a narrativa que orienta a fé e a conduta dos cristãos é um ato de mordomia sagrada e a responsabilidade do homem com o que foi criado. 

Mais tarde, a encíclica  Laudato Si’, do Papa Francisco (1936–2025), inicia com um clamor da natureza "contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou".
Crédito: Mídia Ninja

Em um país marcado pela rica biodiversidade, as discussões ambientais estão sempre em pauta e, embora nem sempre produzam mudanças imediatas, contribuem para criar uma atmosfera comum de reflexão sobre as práticas humanas em um mundo de recursos limitados. Essa discussão, contudo, não pode se restringir ao campo científico e deve englobar também questões éticas, culturais e religiosas, que influenciam a conduta social e orientam as decisões do homem público. No Parlamento, essa influência se evidencia nas Frentes Católica e Evangélica, cujos integrantes atuam de forma expressiva em pautas centrais, inclusive ambientais. 

Essa relação ficou evidente recentemente com a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do PL do Licenciamento Ambiental, que flexibiliza regras de controle e fiscalização, justamente em um momento em que comunidades de todo o mundo observam o Brasil por conta da COP-30, em Belém. A proposta, apelidada por ambientalistas de “PL da Devastação”, tem sido criticada por alertar que pode aumentar o desmatamento e enfraquecer a fiscalização. Entre os que votaram a favor estão integrantes da bancada evangélica, que têm histórico de não apoiar pautas ligadas à proteção ambiental, conforme levantamento feito pela Agência Pública. 

Esse posicionamento contrasta com a própria tradição teológica do cristianismo, em que vozes como Jürgen Moltmann (1926–2024) e John Stott (1921–2011) enfatizam que o cuidado com a criação é parte essencial da fé cristã. Quando esse cuidado é negligenciado, especialmente à luz do chamado dado a Adão para preservar a terra, fica nítido o descompasso entre a herança teológica do cristianismo e a prática contemporânea, contribuindo para um devastamento que prejudica a própria criação. 

 

Elisama Reis, jornalista, especialista em Mídia, Cultura e Informação pela Universidade de São Paulo. 

Vinicius Santos, historiador pela Universidade Federal da Bahia, especialista em Teologia pelo ITFAD, mestrando em História pela UFBA e pesquisador voluntário em religiões pela PUC-SP. 

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