Por trás da seca na Amazônia - Le Monde Diplomatique

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Por trás da seca na Amazônia

por Carlos Afonso Nobre
3 de janeiro de 2011
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A intensidade da seca, medida pelo nível do rio Negro, foi sem paralelo e atingiu o menor valor da série histórica que teve início em 1902, à época da inauguração desse porto. O que houve? Foi o aquecimento global, o desmatamento ou as emissões de CO2? Estaríamos assistindo uma possível savanização da Amazônia?Carlos Afonso Nobre

A recente seca de grandes proporções que se abateu sobre a Amazônia ocidental e central tem suscitado várias questões sobre sua possível relação com o aquecimento global ou mesmo com desmatamentos e queimadas locais. A imprensa mostrou leitos de rios quase secos, expondo imensas áreas de várzea. A intensidade da seca – medida pelo nível do rio Negro no Porto de Manaus – foi sem paralelo e atingiu o menor valor da série histórica que teve início em 1902,  época da inauguração deste porto. O rio próximo a Manaus chegou a um nível tão baixo que expôs pela primeira vez hieróglifos que podem ter sido feitos de 5 a 6 mil anos atrás por civilizações antigas da Amazônia. Mas há alguma coisa de anormal nas secas da Amazônia?

A Amazônia apresenta números exuberantes como sistema natural: abriga até 15% da biodiversidade do planeta; despeja no Oceano Atlântico aproximadamente 18% do fluxo de água doce de todos os rios do mundo; armazena entre 100 e 120 bilhões de toneladas de carbono na sua biomassa, funcionando como grande reservatório de carbono; o mecanismo de produção de suas chuvas constitui-se numa grande fonte de calor para as circulações atmosféricas, com impactos para todo o planeta.

As variações climáticas interanuais das chuvas da Amazônia fazem parte da variabilidade natural do clima tropical da América do Sul e os ecossistemas normalmente estão adaptados a elas. O que chama a atenção é que, num curto intervalo de seis anos, do início da seca em 2005, observamos a mais drástica seca, em 2010, e a terceira maior seca no rio Amazonas em 2005 – a segunda maior seca ocorreu em 1963 –, e ainda tivemos a maior enchente do mesmo rio em 2009. Em poucos anos, portanto, vários recordes climáticos foram ultrapassados. O que poderia estar acontecendo? Não temos uma explicação completa sobre o porquê de tantas cheias e secas na bacia amazônica em tão pouco espaço de tempo. Isso gerou, claro, enorme interesse científico nacional e internacional em estudar tais fenômenos, mas é cedo para afirmar quando teremos explicações completas sobre essas anomalias climáticas, ainda que vários estudos já estejam prontos para publicação em 2011.

 

Hipóteses

A causalidade mais imediata, o que fez as chuvas atrasarem, a ciência pode explicar. A questão é: por que essa coincidência de extremos climáticos num curtíssimo espaço de tempo? Há 108 anos existem registros nos níveis do rio Negro, em Manaus e não há nada parecido com o que observamos nesse período. Uma das possibilidades, não é a única, é: se o planeta continuar aquecendo da forma como vem acontecendo nas últimas décadas, em 50 anos esse tipo de extremo climático se tornará uma variação climática habitual. Portanto, se não conseguirmos reverter o aquecimento global, essas flutuações exacerbadas podem ser uma amostra de como será o clima no futuro.

Para falar de secas, é preciso caracterizá-las. Há basicamente dois tipos de seca na Amazônia: um primeiro tipo, mais comum, são as causadas, principalmente, por perturbações climáticas que se originam no Oceano Pacífico associadas com seu aquecimento (fenômeno conhecido como El Niño). O El Niño causa a seca acentuada no norte e leste da Amazônia.

Outro tipo de seca, normalmente mais raro, é induzido quando o Oceano Atlântico Tropical ao norte do Equador está mais quente, o que muda a circulação atmosférica na Amazônia, diminuindo as chuvas, uma vez que o transporte de umidade pelos ventos alísios deste oceano para dentro do continente diminui. Nesse caso, a seca se manifesta mais no oeste e sudoeste, como foi o caso em 1963, 2005 e, novamente, em 2010. Apesar de hoje termos um bom entendimento desses dois tipos de seca, o que nós não temos ainda é a capacidade de prever a longo prazo, por exemplo, como vai ser o regime de chuvas nos próximos anos ou décadas.

Também é preciso diferenciar secas meteorológicas de secas hidrológicas em uma bacia de drenagem. O que vimos em 2010 foi a mais drástica seca hidrológica do registro histórico, que isolou várias comunidades ribeirinhas, ocasionando um desastre natural que afetou mais de 60 mil pessoas. Ocorreu uma diminuição das chuvas no oeste-sudoeste da Amazônia, isto é, o canal principal do Amazonas recebeu fluxos menores de água dos tributários da margem direita. O déficit de chuva também atingiu alguns tributários da margem esquerda originários do hemisfério norte. A combinação dessas duas “ondas de seca” vindas de ambos os hemisférios resultou na menor vazão registrada no canal principal.

 

Há relação com o desmatamento?

A análise das secas da Amazônia de 2005 e 2010 indica com relativa segurança as causas prováveis que devem ser buscadas na circulação global da atmosfera e na interação da atmosfera com os oceanos tropicais. Vários estudos realizados colocam as maiores temperaturas da superfície do mar no Oceano Atlântico Tropical ao norte do Equador como fator deflagrador das secas. Possivelmente, nesse caso, desmatamentos e queimadas não podem ser responsabilizados como principais fatores causadores. Num ano de seca, tipicamente há mais queimadas, lançando mais aerossóis na atmosfera. Há uma teoria sobre o efeito dessa “fumaça de queimadas” sobre as chuvas, no sentido de causar o atraso do início da estação de chuvas. Se isso, de fato, estiver ocorrendo, as queimadas passariam a ser o fator de intensificação de uma seca iniciada por outras causas.

Saindo um pouco da várzea do rio Amazonas, vale a pena questionar o efeito de secas sobre a floresta de terra firme. A floresta tropical úmida somente existe onde a estação seca é curta, isto é, deve existir água no solo para manutenção da floresta tropical durante todo o ano. Como secas intensas têm ocorrido aparentemente com mais frequência, uma pergunta mais ou menos óbvia é se há um limite de chuva abaixo do qual não seria possível manter a floresta tropical (mas, antes de responder, é preciso esclarecer que a floresta resiste galhardamente a uma seca intensa. A mortalidade de árvores aumenta, mas as coisas voltam ao normal com o retorno das chuvas regulares). Existe um cálculo para isso: o grau de impacto de mudanças climáticas na floresta é uma combinação dos níveis de chuva e do aumento de temperatura. Então, se o aquecimento global ou o desmatamento na Amazônia causar uma mudança permanente do clima, em que a soma média da chuva na região diminua em torno de 10% ou 15% e a temperatura aumente quatro graus; as duas coisas ocorrendo, mais de 50% da Amazônia poderá se tornar propício a outros tipos mais secos de vegetação. Com isso, ou teremos uma floresta seca ou um tipo de savana bastante degradada, diferente do cerrado do centro e do sul da Amazônia, pelo empobrecimento em diversidade biológica. A esse processo, a literatura científica tem dado o nome de processo de “savanização” da Amazônia, querendo dizer que mudanças climáticas de origem global (por exemplo, aquecimento global devido à emissão antropogênica de gases de efeito estufa) ou local/regional (por exemplo, desmatamentos) tornam o clima regional mais parecido com aquele das savanas tropicais, com longos períodos de estiagem.

Uma pergunta muito frequente é saber até que ponto o clima – principalmente o regime de chuvas de outras partes do Brasil fora da Amazônia – poderia ser alterado por desmatamentos de grande escala daquela região. Hoje, não conseguimos estabelecer uma relação clara entre as chuvas da Amazônia e o clima do restante do país. Há um número pequeno de estudos que indicam a relação com a chuva de inverno no sul no Brasil, norte da Argentina e Uruguai. Nesse caso, se não houvesse floresta, provavelmente a evaporação ocorrendo na Amazônia seria menor durante a estação seca. As correntes atmosféricas carregam ar que atravessa a Amazônia para o sul, principalmente para o sudeste da América do Sul, na região mencionada acima. Hipoteticamente as chuvas de inverno nesta região poderiam ser afetadas por receber menos vapor d’água trazido pelos ventos. A floresta é muito importante para o clima da própria Amazônia. As chuvas seriam menores na Amazônia se não houvesse a floresta. A influência do clima da Amazônia no resto do país e no clima do mundo é algo sobre o qual  temos algumas ideias científicas sendo exploradas, mas não há qualquer comprovação forte, ainda que não se possa descartas mudanças remotas no clima de regiões distantes se a Amazônia for desmatada.

 

Concentração de gás carbônico

O aquecimento global e o desmatamento são fatores que afetam negativamente a resiliência dos ecossistemas da Amazônia. Entretanto, o gás carbônico pode funcionar no sentido contrário, isto é, aumentando a resiliência. Lembremos que as concentrações do CO2 estão aumentando na atmosfera em função das emissões antropogênicas, sendo esse o principal gás de efeito estufa responsável pelo aquecimento global. O CO2 é um combustível da fotossíntese. Quanto mais CO2 houver na atmosfera, mais matéria orgânica as plantas vão produzir, utilizando menos água – até certo limite. O que nós não sabemos é como um sistema complexo como uma floresta tropical responde ao aumento do CO2. Sabemos é que uma floresta com muitas espécies não responde da mesma maneira que uma planta isoladamente. Vários experimentos foram feitos no hemisfério norte e mostraram o quanto as florestas de lá acumulam CO2. O valor acumulado foi de 25% do valor máximo de acúmulo que se poderia esperar pelo aumento teórico da fotossíntese. Isso porque a floresta é um sistema complexo que responde a uma série de fatores (por exemplo, água no solo, limitação de nutrientes, entre outros) e não somente ao CO2.

A grande incerteza em relação à Amazônia é que não sabemos como a floresta tropical responderá ao aumento de CO2, porque nunca fizemos um experimento desses. É algo nada trivial fazer tal experimento na floresta, ou seja, manter um pedaço de floresta tropical com concentrações elevadas de CO2 por vários anos e, na Amazônia, seria menos trivial ainda. Portanto, não sabemos precisamente como a floresta tropical responde ao aumento da quantidade de CO2 na atmosfera, o que torna mais urgente a necessidade de realizar tal estudo de campo.

 

Perda da biodiversidade

Reconheçamos que o grande efeito de uma mudança climática na Amazônia é a possibilidade de perda colossal de diversidade biológica. O impacto na biodiversidade pode ser direto devido a desmatamentos e queimadas, ainda que não tenhamos boas estimativas do que pode estar acontecendo, já que aproximadamente 17% da área da floresta Amazônica já foi desmatada e ocorrem milhares de incêndios florestais todos os anos, afetando a resiliência dos ecossistemas. O impacto indireto na biodiversidade pode dar-se por meio de uma lenta, mas inexorável, alteração de ecossistemas mais adaptados a climas mais quentes e com período de estiagem mais longo, tipicamente ecossistemas de savana tropical, que detém a vantagem adicional de conviver com o fogo, já que a floresta tropical úmida é praticamente impenetrável pelo fogo.

Os desmatamentos da Amazônia vêm decrescendo significativamente nos últimos anos, tendo a taxa anual de desmatamento caído 65% em 5 anos na porção brasileira da Amazônia. Este fato tem colocado o Brasil em posição de liderança em duas das convenções ambientais internacionais das Nações Unidas: a convenção sobre mudanças climáticas e a convenção sobre diversidade biológica. Para a primeira, a redução dos desmatamentos implica que as emissões brasileiras de gases de efeito estufa vêm caindo e devemos lembrar que desmatamento de florestas e do cerrado é a principal fonte de emissões do país. Esta redução dos desmatamentos foi fundamental para o Brasil ver aprovada a legislação que estabelece metas de redução de emissões até 2020, lembrando que são as metas mais ambiciosas de qualquer país em desenvolvimento. Deve-se também à redução dos desmatamentos a posição de proeminência do país na recente e bem-sucedida conferência das partes da convenção de diversidade biológica, em Nagoia, Japão, na qual se chegou a acordos importantes para a proteção da biodiversidade global.

As possíveis mudanças climáticas na Amazônia podem afetar as grandes hidrelétricas planejadas para a região. O exemplo de Belo Monte, no rio Xingu, pode ser tomado como paradigmático pelo lado climático, mesmo sem levar em conta outros aspectos. A maioria dos cenários de mudanças climáticas indica a redução das chuvas na bacia do Xingu e o aumento da sazonalidade destas (estação seca ainda mais seca) durante este século, isto é, podendo ocorrer ainda durante boa parte da vida útil do empreendimento. Nesse caso, o potencial de energia firme poderá diminuir significativamente no futuro, tornando o investimento improdutivo. Estranhamente, cenários de mudanças climáticas ainda não foram levados em consideração no planejamento energético brasileiro no tocante a aproveitamentos hidrelétricos no futuro.

O que fazer para evitar a savanização da Amazônia? Bem, o primeiro ponto é que isso está ao alcance dos brasileiros. É preciso construir políticas públicas que enfoquem a redução dos desmatamentos da Amazônia, algo que vem ocorrendo nos últimos anos. Vamos dizer que estamos no caminho certo uma vez que o desmatamento está diminuindo. Precisamos continuar e reduzi-lo para próximo de zero. Agora, mesmo que consigamos fazer tudo isso, se o aquecimento global continuar sem alterações, na segunda metade deste século já vamos ter efeitos muito graves na Amazônia. E isso pode levar a um risco de savanização da região. Podemos zerar o desmatamento, mas isso será insuficiente com a continuidade e aceleração do aquecimento global. Temos de criar uma estratégia mundial de redução das emissões, não só no Brasil. Este é o grande desafio. Se não reduzirmos as emissões da queima de combustível fóssil, que é a principal forma de emissão de gases de efeito estufa, pagaremos um preço muito alto mesmo se reduzirmos os desmatamentos a zero.

Carlos Afonso Nobre, engenheiro, é Doutor em Meteorologia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e integra o Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).



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