“Porque a todo aquele que tem será dado, e terá em abundância; mas daquele que não tem, até o que tem será tirado”
Inspirado no “Efeito Mateus”, artigo analisa como vantagens acumuladas estruturam desigualdades raciais no sistema científico brasileiro
Assim como em outros empreendimentos, a ciência brasileira opera segundo mecanismos cumulativos de vantagem, nos quais recursos, reconhecimento e prestígio tendem a se concentrar em trajetórias previamente consagradas, em grupos estabelecidos.
A literatura clássica sobre desigualdades em Ciência e Tecnologia (C&T) no Brasil demonstra que a distribuição de infraestrutura científica, recursos humanos qualificados e financiamento público não ocorre de maneira aleatória ou equilibrada, mas segundo uma lógica cumulativa. Estudos produzidos a partir dos anos 1990 evidenciam que as condições iniciais de formação institucional, como presença de universidades consolidadas, programas de pós-graduação avaliados positivamente e redes de pesquisa estruturadas, tendem a influenciar decisivamente a capacidade de captação de novos recursos. Isso gera um ciclo de auto reforço, conceituado por Robert Merton como o Efeito Mateus.
Nesse sentido, análises sobre desigualdades interestaduais em C&T identificam que estados com maior estoque de infraestrutura científica concentram também maior volume de bolsas, auxílios e projetos financiados por agências federais. Assim, vantagens históricas são convertidas em posições duradouras de liderança. A literatura sobre sistemas regionais de inovação reforça esse diagnóstico ao demonstrar que a densidade institucional e a articulação entre universidades, empresas e governo ampliam a competitividade científica, aprofundando assimetrias territoriais.
Adicionalmente, estudos sobre políticas de avaliação e produtividade acadêmica indicam que critérios baseados em desempenho acumulado, publicações, orientações, redes internacionais, tendem a favorecer instituições e pesquisadores já consolidados, reproduzindo hierarquias preexistentes. Essa dinâmica aproxima-se do que a sociologia da ciência denomina “Efeito Mateus”, segundo o qual o reconhecimento e os recursos tendem a se concentrar nos agentes que já ocupam posições privilegiadas no campo científico.
Em síntese, os estudos clássicos convergem na demonstração de que a política científica brasileira historicamente opera segundo mecanismos de dependência de trajetória e retornos crescentes. Nesse cenário, desigualdades iniciais se transformam em desigualdades persistentes, estruturando a distribuição de poder e capacidade no sistema nacional de ciência e tecnologia.
Esse padrão não pode ser explicado por déficits individuais de qualificação das pessoas negras. Ao contrário, a literatura evidencia que os critérios dominantes de avaliação, produtividade acumulada, histórico contínuo de financiamento, inserção em redes consolidadas e internacionalização, operam sobre trajetórias socialmente desiguais, convertendo, sob a aparência de neutralidade, em políticas de fomento do racismo estrutural. Isto ficou evidente no relatório “Pesquisadores negros(as) importam? O que revelam as chamadas publicas do CNPq sobre o racismo institucional”.

Além da dimensão distributiva, a desigualdade racial na ciência produz efeitos epistêmicos profundos. A homogeneidade racial dos espaços de produção e validação do conhecimento restringe a pluralidade de perspectivas, experiências e problemas considerados cientificamente relevantes. Em um país como o Brasil, marcado por desigualdades raciais, territoriais e de gênero, essa limitação compromete a capacidade da ciência de formular diagnósticos adequados e soluções socialmente eficazes.
A transversalidade de gênero aprofunda esse quadro. Mulheres negras enfrentam barreiras adicionais no acesso à formação avançada, ao fomento e à liderança científica, em razão da sobreposição entre hierarquias raciais e de gênero. A exclusão dessas pesquisadoras dos espaços de decisão e prestígio não apenas reforça desigualdades individuais, mas empobrece o próprio sistema científico.
Diante desse diagnóstico, o enfrentamento da desigualdade na ciência exige soluções estruturais, coerentes com o princípio constitucional da igualdade material e com o papel estratégico da ciência no desenvolvimento nacional. No eixo da formação de recursos humanos, isso implica políticas capazes de garantir trajetórias contínuas de formação científica para pessoas negras: acesso equitativo a bolsas, programas de excelência e oportunidades de internacionalização. No eixo do fomento, torna-se indispensável a incorporação explícita da dimensão racial nos instrumentos de política científica. Os mesmos incentivos que outrora foram dados para as pessoas brancas.
Em síntese, ao excluir ou marginalizar pesquisadores negros, o país não apenas viola princípios de justiça, mas reduz sua capacidade científica coletiva, desperdiçando talentos, restringindo a diversidade epistêmica e limitando a produção de conhecimento socialmente relevante. Enfrentar a desigualdade racial na ciência é, portanto, condição para fortalecer a qualidade, a legitimidade e a função pública do sistema científico brasileiro.
Edmilson Santos dos Santos é professor do Magistério Superior na Univasf. É Pesquisador da Associação Opará, atuando na área de políticas públicas de ações afirmativas. Nos últimos anos, também coordenou a elaboração do relatório “A implementação da Lei nº 12.990/2014: um cenário devastador de fraudes” e do livro “A Mão Invisível do Racismo Institucional e a Sabotagem da Lei de Cotas Raciais (Lei nº 12.990/2014)”.
Alisson Gomes dos Santos é doutorando em Economia Aplicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisador associado na Associação Opará.

