Precisamos entender a África - Le Monde Diplomatique - Acervo Online

PARA ALÉM DE ESTEREÓTIPOS E CONSTRUÇÕES FICTÍCIAS

Precisamos entender a África

Acervo Online | África
por Gabriel Dantas Romano
16 de abril de 2021
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Legado do neocolonialismo, a noção simplificadora e estereotipada afeta o nosso entendimento em relação a diferentes aspectos do continente. Sem enfrentar esse tipo de visão, nunca teremos acesso à realidade complexa e própria da região. É dessa forma que distorções históricas ganham terreno fértil, explorado pela mídia e charlatões nas redes sociais

No imaginário ocidental, a palavra “África” constantemente evocou um cenário exótico de savanas áridas habitadas por animais selvagens, homens primitivos e lugares inusitados prontos para serem desbravados. O estereótipo de um continente dominado por lugares difíceis e inóspitos, ocupado por tribos e vilarejos pobres, ainda predomina na cabeça de muitos que não conhecem a diversidade da região. O grande continente abrange uma complexidade de biomas distintos, de povos com características próprias e de nações com diferentes histórias. Acreditar na África de um cenário só, de um povo só, é apostar numa construção fictícia que desconsidera as diversas identidades das diferentes populações que residem nesse continente. A África não pode ser considerada em sua totalidade como uma coisa só, ela é complexa demais para isso.

Seguindo essa constatação, o jornalista e historiador polonês Ryszard Kapuscinski, no livro Ébano, disse que “a África é um continente demasiadamente grande para ser descrito. É um verdadeiro oceano, um planeta separado, um cosmos variado e imensamente rico. Somente com a maior simplificação, por uma questão de conveniência, podemos dizer ‘África’. Na realidade, exceto como denominação geográfica, a África não existe”.

Por séculos, o chamado “continente escuro” foi considerado um lugar de mistérios e riquezas que despertaram a curiosidade e a cobiça dos europeus. No livro O destino da África, o historiador Martin Meredith diz que “desde a época dos faraós, a África tem sido cobiçada por suas riquezas”. O relato bíblico menciona a terra de Ofir, de onde o rei Salomão recebia presentes preciosos como ouro, prata, pérolas e animais como macacos e pavões. Segundo Meredith, essa história bíblica, “3 mil anos mais tarde, inspirou aventureiros europeus em sua busca por ouro a iniciarem uma guerra de conquista no sul da África”. Já os romanos “dependiam do vital abastecimento de trigo de suas colônias no norte do continente para alimentar a acrescente população de Roma”. Durante a Idade Média, a expansão islâmica dominou o Norte da África. No século XV, os marinheiros europeus instalaram postos comerciais em torno da costa atlântica. Do interior do continente, partiam caravanas de camelos transportando ouro até o litoral e o comércio de escravos seguia a mesma direção. O interior pouco conhecido abriu espaço para especulação e curiosidade dos europeus sobre as riquezas e terras inexploradas. No século XIX os entrepostos comerciais foram base para colonização e expansão colonial. Durante todo esse processo, o olhar ao universo africano foi reduzido à busca pela exploração e interesse econômico.

A divisão do território pelos europeus durante a Partilha da África criou “entidades artificiais, com fronteiras que davam pouca atenção à miríade de monarquias, cacicados e outras sociedades na região. A maior parte deles abrangia dezenas de diversos grupos que não compartilhavam qualquer história, cultura, língua ou religião”, segundo as palavras de Meredith. “As potências europeias tinham fundido cerca de 10 mil sistemas políticos africanos em apenas quarenta colônias.” Essa desconsideração aglutinou povos rivais em um só território. Mais tarde, esse problema desencadeou conflitos étnicos como em Ruanda, onde uma minoria tutsi foi massacrada por extremistas hutus.

Em 1997, o diplomata sul-sudanês Francis Deng disse que “a história privou os povos da África da dignidade de construir suas nações sobre seus próprios valores, instituições e herança nativas. O moderno Estado africano é produto da Europa, não da África. (…) Hoje, praticamente todos os conflitos africanos têm alguma dimensão étnico-regional. Mesmo aqueles conflitos que podem parecer isentos de preocupações étnicas envolvem facções e alianças construídas em torno de lealdades étnicas. A etnia, especialmente quando combinada com a identidade territorial, é uma realidade que existe independentemente de manobras políticas.”

Legado do neocolonialismo, a noção simplificadora e estereotipada afeta o nosso entendimento em relação a diferentes aspectos do continente. Sem enfrentar esse tipo de visão, nunca teremos acesso à realidade complexa e própria da região. É dessa forma que distorções históricas ganham terreno fértil, explorado pela mídia e charlatões nas redes sociais. É também dessa forma que colocam em dúvida a construção de pirâmides antigas e outras grandes construções arquitetônicas da África. É dessa forma que apagam grandes civilizações e impérios africanos da memória popular. É dessa forma que hoje pouco se entende sobre seus personagens históricos e discussões distorcidas sobre as características físicas da Cleópatra repercutem nas redes sociais. É dessa forma que filmes exploram sempre uma imagem desgastada da África como uma imensa savana semiárida.

Como mencionado anteriormente, essa noção simplificadora afeta nosso entendimento de diferentes formas: em relação a sua história, em relação a suas características físicas e ambientais, em relação a suas figuras históricas…

Primeiro que se possui dificuldade de compreender diversos biomas como africanos. É claro que em uma área de aproximadamente 30.363.000 km quadrados não pode existir uma paisagem só. Além do famoso Deserto do Saara do Norte da África e das savanas da África Oriental, imagens mais facilmente associadas à região, o continente possui a segunda maior floresta tropical do mundo, atrás da Amazônia. A Floresta do Congo se estende pela parte equatorial da África, abrange uma vasta biodiversidade e cobre seis países. Com o clima típico da Linha do Equador, a floresta recebe chuva e umidade que favorecem sua formação.

De acordo com a Oxford Bibliographies, a África “possui uma grande diversidade de condições ambientais. Ela é dividida ao meio pelo Equador, de modo que as estações estão seis meses defasadas ao norte e ao sul dele. Existem florestas tropicais no lado oeste, bem como no centro do continente. Em anéis quase concêntricos fora da floresta, existem tipos de vegetação progressivamente mais secos, desde florestas, savanas e pastagens até o deserto. A rica diversidade em habitats e vida biológica da África se reflete no alto número de biomas terrestres que contém: nove em cada quatorze globalmente”. Fica claro que um conjunto de paisagens distintas podem ser associadas à África: no extremo norte e no extremo sul do continente, uma pequena porção de floresta chamada “floresta mediterrânea de bosques e arbustos” se repetem; ao norte e ao sul, acontece o mesmo com o Deserto do Saara, Deserto da Namíbia e do Kalahari, respectivamente; o Sahel, abaixo do Saara, é coberto por estepes; da África Ocidental a Central, a selva do Congo; e ao seu redor as savanas da África Oriental.

Precisamos entender a África
Um dos templos de Abu Simbel, no Egito (Unsplash)

Em segundo lugar, precisamos entender que a África tem a população de maior diversidade física do mundo. Segundo a enciclopédia acadêmica Britannica, “a África tem as populações mais variadas fisicamente do mundo, dos povos mais altos aos mais baixos; a forma corporal e as características faciais e morfológicas também variam amplamente. É o continente com a maior variação genética humana, refletindo seu papel evolutivo como fonte de todo o DNA humano”. Diante desse fato, apostar numa visão estereotipada em relação à cor de pele ou à forma física dos seres humanos nascidos na África é apostar num erro. Apesar da maior parte da população africana ser composta por povos negros, eles se dividem em milhares de grupos étnicos diferentes, com características físicas, culturais e sociais distintas. Cada grupo étnico africano forma um povo único, particular, com características próprias; portanto, não podem ser generalizados. Por exemplo, na África subsariana predominam os povos falantes da língua bantu. Porém, os falantes de linguagens bantus se dividem em centenas de grupos étnicos, como é o caso dos tutsis e hútus, conhecidos mundialmente pela rivalidade que ocasionou o genocídio de Ruanda em 1994.

Também é preciso lembrar que nem todos os povos nativos da África são negros. As populações nativas do Norte e parte do Noroeste da África são distintas das populações nativas da África subsariana em relação a atributos físicos e culturais. Como é o caso dos berberes, povo autóctone do Magreb, e os egípcios, povo autóctone do Saara que migrou para o Nilo. O Norte da África sofreu grande influência estrangeira na sua composição étnica. Desde fenícios, gregos e romanos até árabes que exerceram sua dominação depois da expansão islâmica. De qualquer forma, a composição étnica africana é mais variada do que se costuma imaginar.

Hoje, a visão simplificadora ignora grande parte da história da África. Isso levou muitas pessoas a entrarem numa polêmica sobre o fenótipo de figuras históricas como Cleópatra. A escalação da atriz Gal Gadot para o papel da rainha do Egito criou muita objeção nas redes sociais. Apesar de nenhum especialista dizer isso e sem nenhum tipo de consenso historiográfico, afirmações de que Cleópatra seria negra e que a história europeia tentou embranquecê-la começaram a se popularizar. A verdade é que Cleópatra possuía ascendência europeia. Membro da dinastia ptolemaica, ela descendeu diretamente dos gregos macedônios que conquistaram o Egito na época de Alexandre, o Grande. Várias personalidades históricas africanas eram brancas, descendentes de europeus que habitaram a região, como é o caso de Agostinho de Hipona e Hipátia de Alexandria. Para quem conhece a história, esse fato não é desconfortável e nem incomum, já que desde a Antiguidade regiões da África receberam influência estrangeira. O mundo é mais multiétnico e multicultural do que estamos acostumados a pensar.

O mais correto e fiel à realidade é encarar a África como um lugar de riquezas, não apenas riquezas de recursos naturais, mas também riqueza de culturas, povos e fenótipos. Entender esse continente é entender uma parte importante da história da humanidade. O mundo influenciou a África e a África influenciou o mundo.

Gabriel Dantas Romano é estudante de Ciência Política da Universidade de São Paulo.

Indicações de leituraMEREDITH, Martin. (2017) — O Destino da África: cinco mil anos de riquezas, ganâncias e desafios. Zahar Editora.KAPUSCINSKI, Ryszard. (2002) — Ébano: minha vida na África. Companhia das Letras.



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