CARTA ABERTA À DEPUTADA FEDERAL ERIKA HILTON

Prezada deputada e presidenta da Comissão da Mulher da Câmara, Erika Hilton

Você, Erika Hilton, transformou dor em força, resistência em política, abriu caminhos onde antes só havia muros”

Permita-me chamá-la de irmã. Sim, irmã na luta contra a violência de gênero, irmã de raça, de origem de classe, com uma trajetória de abandono, resistência e sobrevivência semelhante à minha. Eu e você chegamos até aqui contra todas as forças que nos queriam mortas, submissas e caladas.

No meu livro Cartas a um homem negro que amei (2022), cuja resenha na Folha de São Paulo recebeu o título Grito de um corpo violado, relato, como processo de expurgo, todas as violências pelas quais o meu corpo negro, de mulher empobrecida, passou. Então conheci a sua trajetória, os seus projetos e as suas intervenções públicas. Irmã, como a sua equipe jurídica trabalha bem! Acompanho cada entrevista sua, cada relato sobre existir como maior gesto de resistência, e como você transformou isso em luta. Suspirei diversas vezes ao ouvi-la: “Obrigada por existir”. Sim, Erika, obrigada pela coragem de dizer ao mundo que você é mulher, que não se apagou, que o seu corpo está vivo e luta por outras, pelas crianças e pelas existências vulneráveis. Isso nos torna mulheres do mesmo espectro político, muito mais do que muitas que nasceram com vulva e útero, mas fortalecem o poder e a dominação masculina todos os dias, sobretudo quando estas se valem do discurso de que o corpo determina a identidade. O teu corpo, e com ele a tua identidade ainda são alvos de ofensas e fúrias, recheadas de ódio; não se tem um minuto de paz neste país. Sinto muito por isso. Muito mesmo.

Muitas estão usando jargões como “só quem nasce com vagina sabe o que é ser mulher”! Que debate raso! Olha só, Erika, nós tivemos quase quatro séculos de escravidão no Brasil, e ainda vivemos as mesmas estruturas, onde mulheres com vulva, escravizaram (e ainda escravizam nas suas casas) outras mulheres com vulva. As primeiras vendiam as segundas, vendiam seus filhos, roubavam até o leite do seio para dar às próprias crias. Estamos falando de mulheres com vulva, sem nenhuma empatia e senso de justiça para com outras iguais anatomicamente.

Madalena Godoi, liberta do trabalho escravo em uma casa de família no interior de Minas Gerais, em 2020, pedia sabonete para os vizinhos, através de bilhetes deixados debaixo das portas, para lavar a sua vulva, enquanto servia outras mulheres, desde criança, sem salário, sem estudo, dormindo num quartinho abafado.

As mulheres que te atacam têm consciência dos abismos entre mulheres no Brasil? Como se não bastasse, feministas brancas, estão te colocando em Imagens de Controle, como bem conceituou Patricia Hill Collins, da negra “agressiva” e “raivosa”, como se você tivesse que aceitar calada todas as ofensas e ataques contra o seu corpo, já que no campo político, não podem dizer que você não luta pelas mulheres. O problema aqui, não é a sua suposta agressividade, que eu, e outras não viram, mas o fato do seu corpo de mulher trans e negra, ter um lugar determinado: Te querem Mammy, a negra calada e dócil, que as servem, que as escutam, enquanto falam sozinhas, como sempre fizeram na história do Brasil?

Por isso quero partilhar algo precioso com você. Certa vez deparei-me com um livro que prendeu a minha atenção na Itália. Princesa é o título. A história é de uma trans brasileira, Fernanda Farias de Albuquerque, presa no setor G8 do complexo do presídio romano de Rebibbia por uma acusação de tentativa de homicídio. Ela viveu de 1963 a 2000 (37 anos). Além dela, outras mulheres trans/travestis dividiam a cela com detentos de longas condenações, incluindo prisão perpétua, além de um grupo de brigadistas. O encontro dela com estes últimos gerou grande agitação e interesse pela história daquela mulher ali, no mesmo espaço dos homens. Fernanda, então, contou sua vida a Giovanni Tamponi, um detento da Sardenha. Giovanni a incentivou a escrever e mediou o encontro entre ela e Maurizio Jannelli, que publicou sua biografia anos mais tarde. Foi sob forte chuva, através de uma grade que dava para a capela do presídio, que ele a escutava sentado em um banco de confessionário. Depois, Jannelli foi transferido para outro pavilhão e o relato de Fernanda continuou por meio da escrita e da troca de cartas. O caderno em que Fernanda escreveu circulou pelo presídio, de um setor a outro, até virar Princesa, publicado em 1993 na Itália.

Sabe, Erika, eu nunca fui tão tocada pelo relato de transformação de uma mulher trans como fui com este livro. Tinha estudado ciência, teorias, e sei que o corpo humano é mais complexo do que o Patriarcado nos fez e faz crer. Há mulheres que nascem com concentrações altas daquilo que a biomedicina convencionou nomear hormônios masculinos (por exemplo, em casos de hiperplasia congênita da adrenal, para citar apenas um exemplo): ou seja, corpos que nascem com uma composição cromossômica XY enquanto a quantidade de hormônios é o que se verifica ser mais “comum” em pessoas XX, sem contar possíveis variações em estruturas cerebrais. E, nenhuma dessas diferenças neonatais, fisiológicas ou anatômicas informam, por si, o gênero das pessoas. Fernanda, por exemplo, nasceu com pênis, no agreste paraibano. Desde muito cedo, percebeu que algo nela não era exatamente o que assignaram sobre si. Como acontece com algumas crianças trans, Fernanda acreditou que ao não se identificar com essa assignação, estava errada sobre o próprio corpo. Órfã de pai muito cedo, foi super apegada à mãe, que já intuía seu lado feminino com palavras: “É melhor do que uma filha mulher, acorda cedo e me traz café e tapioca doce na cama. Lava os pratos e quer até lavar a roupa”. Os homens, percebendo o “menino” afeminado, violaram o seu corpo, embora publicamente condenassem seus gestos, sua delicadeza, sua suposta “ambiguidade”. Durante toda a infância, a colocaram no lugar do feminino, para depois a arrancarem dele, quando era ela a reivindicá-lo. Fernanda sofreu violência física, estupro aos dez anos, como “iniciação sexual”, além de “jogos infantis”: “Eu era a vaca, Genir o touro, Ivanildo o bezerro”. Na canção de Fabrizio de André dedicada a ela, com o mesmo nome do livro, Princesa, ele acentua esta parte fêmea que lhe atribuíram: “Sou a ovelha, sou a vaca”. E são pessoas que a chamavam assim, que tentam negar a palavra “mulher” a corpos como o seu.

Foto de Erika Hilton. Ela está falando em um microfone e com o cabelo meio preso na parte superior
Crédito: Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados

Como você, Erika, ela foi lançada com brutalidade para as ruas. O mundo a engoliu. Fernanda suicidou-se. Você, não. E não foi apenas a sua resistência: na época de Fernanda, nenhuma lei, nenhuma política pública a protegeu. Ela percorreu cidades e países, iniciou a transição sem amparo político, passando das ruas aos prostíbulos, saciando sexualmente os homens “de bem” daquela sociedade.

Erika, não tenho dúvidas de que você conhece essa experiência, com suas singularidades, em sua própria trajetória. Hoje vejo que você não está sozinha, e isso me alegra. Quanta gente te apoia, quanta gente olha para o teu corpo e se permite existir para além dos confins por bases biologicistas, que associam genital com gênero, nessa visão engessada e há muito ultrapassada.

Fernanda viajou o mundo em busca de existência, de vida digna. E não foi para a Europa em busca de sonho econômico. Olha o que ela disse: “Na Europa a polícia não te mata na rua. Uma maravilha”. A mulher queria viver. É pedir muito? Ela experimentou o que é ser mulher também no sentido político, que me aproxima dela e de você: a violência masculina, o escárnio do patriarcado, a violência do Estado burguês patriarcalista. Talvez por isso ela associe esse processo à figura do diabo, do bestiário, do animal infernal. E, por acaso, não é o mesmo que fizeram com Eva, no mito bíblico fundador do Judaísmo e Catolicismo? Eva foi expulsa. Eva tentou o homem. Eva desobedeceu a Deus. Eva foi má. Eva sangrou entre as pernas, Fernanda sangrou de outras formas. Eu te vejo destemida, Erika, e lembro-me do medo de Fernanda, sozinha num mundo hostil: “Tive uma hesitação: Tenho medo, Severina. Como medo? Se você quer se tornar mulher, primeiro vem a dor, só depois você será Fernanda”.

Tal como a carne das mulheres exposta em publicidades, filmes, redes sociais, sites, até nos computadores e celulares dos homens “de bem”, ela enfatiza: “Eu teria deixado de me vender como se vende carne de açougue. Teria vivido como uma mulher com um homem, ou então como artista em algum clube. Mais alguns anos de prostituição e eu poderia abrir um pequeno bar, uma boutique, ou um restaurante, primeiro pequeno e depois grande. Enfim, depois de Severina meu futuro estava enfeitado de festa. Pobre tola!”.

Não foi tola, não. A nossa sociedade a expulsou. Do outro lado do oceano, inverso à rota dos escravizados, tentou equilibrar-se, mas, sem nenhum ponto de apoio, caiu. A polícia não a matou, mas a sociedade a levou a fazer, para eximir-se da culpa. Você, Erika, não só se ergueu das cinzas, como entrou para a política, para uma instituição falocêntrica, projetada para homens brancos com dinheiro, e conquistou o seu lugar, com dignidade e brilho.

Olha só, você chegou à presidência de uma Comissão que nos representa, Fernanda chegou a Europa. E, é assim que ela a descreve: “Sem esforço, nos braços do demônio, na Europa, chega-se em voz baixa, silenciosamente. Aqui entre vocês, não se morre ruidosamente. A tiros ou de faca, entre gritos e tesouradas. Aqui desaparece-se caladas, em voz baixa. Silenciosamente. Sós e desesperadas. De AIDS e de heroína. Ou então dentro de uma cela, enforcadas em um lavatório. Como Celma, que eu gostaria de lembrar. Dormia na cela ao lado, dentro deste outro inferno onde agora eu vivo e que decidi não contar”.

Encerrar esta carta é também lembrar de Fernanda Farias de Albuquerque, cuja vida curta, cheia de riscos e dores, para se afirmar mulher, fora marcada pelo abandono de todas as instituições.  Ela não encontrou apoio, não teve políticas públicas que lhe garantisse vida, vida digna, e sua trajetória terminou em silêncio e desesperança, embora registrada num livro. E se ela te visse hoje? Se ela visse as pequenas e as grandes mudanças? Teria ficado?

Você, Erika Hilton, transformou dor em força, resistência em política, abriu caminhos onde antes só havia muros. Te vi tão combativa pelo fim da escala 6×1, pelos direitos das meninas, das mulheres. Em muitas ocasiões, Fernanda me veio em mente e eu, na impossibilidade de abraçá-la, queria te pegar nos meus braços, te acolher, te encher de afeto; não num gesto de pena ou salvacionismo, mas num ato de cumplicidade que abraça as nossas irmãs. Erika, a sua eleição como presidenta da Comissão da Mulher da Câmara dos Deputados é, além de mais uma grande vitória social, um marco histórico que honra todas nós, pois simboliza a vitória da diversidade e da coragem sobre o preconceito e a exclusão. Se Fernanda foi empurrada ao inferno da marginalização, você mostra que ocupar espaços de poder é possível, e que a política pode ser instrumento de justiça e liberdade. Sua vida é testemunho de que, ainda que existam fronteiras sociais para determinados corpos, elas não são infalíveis e não nos venceram, pois não são nem serão absolutas no ato de deter quem insiste em existir e lutar. Muito obrigada por existir e por ser quem você é!

 

Atenciosamente,

Fabiane Albuquerque

 

 

Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia pela UNICAMP, escritora, feminista negra, mãe do Pietro, que transita entre Brasil e França e escreve sobre a vida, situada num corpo e numa existência todinha política.

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