O CONFLITO AINDA ESTÁ LONGE DE ACABAR

Qual o impacto dos drones na guerra da Rússia e Ucrânia?

Ao invés da paz, o campo de batalha vem ganhando um componente extra tático-estratégico

A Guerra da Rússia e Ucrânia está próxima de completar quatro anos, sem um desenlace favorável a paz. A falha no cessar-fogo articulado pelos Estados Unidos indica que o conflito ainda está longe de acabar. Um dos motivos que leva a essa constatação é que os objetivos políticos da guerra não foram alcançados por nenhum dos lados. Por um lado, os russos não alcançaram uma vitória rápida que aumentasse a sensação de segurança na fronteira com a Otan. Por outro lado, os ucranianos não conseguiram recuperar os territórios perdidos para os russos desde a Crimeia. 

Ao invés da paz, o campo de batalha vem ganhando um componente extra tático-estratégico. O uso de drones de última geração para atacar infraestruturas críticas (aeroportos, hospitais, comandos militares, distribuidores de energia elétrica, dentre outros), e por consequência, acabar com a morte de soldados e civis. Nas últimas semanas, apesar da dificuldade de acompanhar o número de mortos em tempo real, a Organização das Nações Unidas vem se esforçando para mostrar o impacto dos drones na guerra. Qual seria esse impacto? 

A missão de monitoramento dos Direitos Humanos da ONU na Ucrânia revelou que desde julho houve um aumento do uso de drones no campo de batalha ucraniano. As consequências foram a morte de soldados e civis. O estudo que analisa os ataques de drones em solo ucraniano desde junho de 2022 até abril de 2025 demonstrou que no total foram mortas 379 pessoas e foram feridas 2635 pessoas por ataques de drones 

Esses dados podem ser cruzados com os números totais de feridos e mortos no conflito, para que se tenha uma análise mais global do impacto dos drones nas baixas da guerra. O centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), alocado em Washigton, fez um relatório divulgando o número de mortos de russos e ucranianos. Do lado russo, estima-se que até junho haviam tido aproximadamente 950 mil baixas, com 250 mil mortes russas. Do lado ucraniano, o número foi menor, com 400 mil baixas, e aproximadamente, entre 60 e 100 mil mortes 

Os números frios revelam que em termos de mortes e feridos, os drones ainda não alcançaram um impacto grande como outros tipos tradicionais de armamento utilizados no campo de batalha (mísseis, armas, tanques, aviões, etc). Entretanto, o impacto está além do número de mortos e feridos. Os drones estão mudando profundamente a lógica da guerra ao introduzir um novo equilíbrio entre vigilância, precisão e custo operacional, ampliando a capacidade de reconhecimento e ataque sem exposição direta dos soldados. 

"Qual o impacto dos drones na guerra da Rússia e Ucrânia?" Fotografia de um drone
Quadcopter drone. Original public domain image from Wikimedia Commons

Na Ucrânia, os drones têm sido empregados não apenas nos ataques diretos a alvos estratégicos, mas também em missões de inteligência, transporte e correção de fogo de artilharia, tornando-se um instrumento de guerra multifuncional. Mas, essa inovação tecnológica não chegou a ocasionar uma “revolução” no campo de batalha, pois  depende da integração com táticas convencionais e estruturas logísticas já existentes como sistemas de defesa aéreos eficientes e guerra eletrônica. O conflito passa a ser moldado pela informação e pelo controle aéreo de baixo custo. O que se percebe é uma mudança no paradigma: conflito passa a ser moldado pela informação e pelo controle aéreo de baixo custo.  

Outra questão que chamou atenção é a utilização de drones na fronteira da Rússia e dos países da Otan. Recentemente, drones russos foram vistos avançando a linha divisória com a Polônia. Esse movimento gerou uma tensão política entre russos e o ocidente, com ameaças de lado a lado sobre a escalada do conflito. Inclusive, um dos efeitos desse movimento foi a possibilidade da União Europeia colocar drones defensivos em aeroportos próximo à fronteira com a Rússia. A iniciativa foi chamada de “muro de drones” a fim de aumentar a segurança no espaço fronteiriço europeu contra incursões da Rússia com seus drones.   

Além disso, essas tecnologias acendem um alerta no campo do Direito Internacional. A operação remota dificulta a identificação de responsáveis por possíveis violações em ataques a civis e instalações militares, criando um vácuo jurídico e ético. Especialistas apontam que o avanço da guerra à distância está muito à frente das regras que deveriam regulá-la. O desafio agora é adaptar o direito internacional às novas realidades tecnológicas que ganham mais destaque nos conflitos contemporâneos.  

 

Danilo Sorato é professor de História e Relações Internacionais. Doutor em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do Laboratório de Política Externa Brasileira (LEPEB/UFF) e Pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFF/UFPel).  Escreveu diversos artigos acadêmicos e jornalísticos sobre as relações internacionais do Brasil, em especial os governos Temer, Bolsonaro e Lula. 

Alana Tenório é mestranda em Segurança Internacional e Defesa na Escola Superior de Guerra (ESG). Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Amapá.  

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