Quando o governo Bolsonaro não consegue esconder sua verdadeira face

Não é Naftalina, é Zylikon B

Quando o governo Bolsonaro não consegue esconder sua verdadeira face

por Daniel Tourinho Peres
20 de janeiro de 2020
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A arte entra na guerra porque ela joga com os limites da nossa sensibilidade. Não são apenas os nossos juízos e avaliações estéticos que estão em jogo, e sim nossos juízos políticos e morais, isto é, nossa cultura.  A arte nos obriga a uma abertura do mundo, ela amplia nossos horizontes, tanto sensíveis quanto intelectuais, e isto é tudo que este governo mais deseja combater.

O agora ex-secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, foi demitido por pronunciamento em que anunciava o programa do governo federal para a área no ano de 2020. De um governo que, dia sim e no outro também, nega a ciência, ataca as universidades e a liberdade acadêmica, agride a imprensa, não havia qualquer razão para imaginar que, com as artes, ele agiria de modo diferente. Não se esperava, porém, que o vídeo em que o programa é apresentado provocasse medo.

Segundo o ex-secretário, a arte deve – assim mesmo, deve – estar atrelada a nossos supostos mitos fundadores: a pátria, a família, o amor a Deus. Mais ainda, a arte deve estar a serviço da luta contra o mal. Dessa arte, continuava o então esteta do planalto, surgirá uma forma estética vinculada à nossa nacionalidade pura. Basta a gente imaginar Paulinho da Viola, Cartola ou Vinícius de Morais em uma luta contra o mal para ver que a coisa toda é, do ponto de vista da arte, um completo disparate. Além do mais, só um tolo imagina que, hoje, deva-se pintar como Mestre Ataíde, esculpir como Aleijadinho, ou compor como Carlos Gomes. É preciso reconhecer, portanto, que, não tivesse essa figura poder, tudo isso seria risível.

Além do vídeo, outras ações do Secretário já chamavam a atenção: nomeação para a Fundação Palmares de indivíduo que afirmara que a escravidão havia sido benéfica, nomeação posteriormente barrada na justiça; nomeação como presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de um indivíduo que destaca, no resumo do currículo, ser “filho primogênito de Fulana”, ex-diretora de uma escola de Belas Artes; nomeação como presidente da Funarte de sujeito que afirma serem os Beatles obra do demônio; a anulação de nomeação, para cargo a ser exercido na Casa de Rui Barbosa, de um dos mais brilhantes cientistas políticos do país, pois ele teria ideias execráveis sobre o presidente.

Goebbels

Vejamos as ideias de Roberto Alvim: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo – ou então não será nada”. E compare essas ideias com as de Goebbels, o responsável pela política cultural do nazismo: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante – ou então não será nada”. Afinal, quem tem ideias execráveis?

Joseph Goebbels, o ministro e braço direito de Hitler (Divulgação)
Joseph Goebbels, o ministro e braço direito de Hitler (Divulgação)

O plágio aqui é o de menos! O próprio secretário, com a rapidez das redes sociais, defendeu-se afirmando uma “coincidência retórica”. Afirma que jamais citaria Goebbels. Mas não nega, ao contrário afirma, que compartilha dos mesmos ideais estéticos. Imagino que, assim como Hitler e Goebbels, ele avalie toda a arte moderna e contemporânea como arte degenerada. E arte degenerada era, por exemplo, Pablo Picasso, Piet Mondrian, Paul Klee, Marc Chagall.

A demissão do secretário em nada altera a avaliação que se tem sobre o governo, qual seja, um governo integralmente abjeto. Destarte, pouco antes do anúncio em canal da Secretaria Especial de Cultura, o agora ex-secretário, junto com o infame Ministro da Educação, participou de live com o Presidente da República, em que foi apresentado como a verdadeira cultura do Brasil. E lá está tudo: uma arte conservadora, que dignifique o brasileiro, que apresente a verdade, a verdadeira história do Brasil, que salve o Brasil da sua suposta decadência moral.

Olavista

Roberto Alvim não era, portanto, figura exótica ao governo. Muito pelo contrário. Talvez mais do que nenhum outro ele tornou evidente a verdadeira natureza deste governo, e por isso caiu. Mas suas ideias são compartilhadas, de modo claro, não apenas com Presidente, mas com o obscuro ministro das Relações Exteriores e o infame ministro da Educação, ou seja, com a ala olavista deste governo cujo projeto é, sem tirar nem pôr, totalitário.

Ninguém tem mais o direito de ser ingênuo. Não há escolha difícil aqui. Não havia escolha difícil antes. No vídeo em que aparecem juntos o presidente e o seu secretário de Cultura, o presidente insiste em que é preciso combater uma arte que se destinaria a uma minoria, combater um modo de representar a história que não encontraria, segundo ele, sustentação na realidade. Com isso, em especial no que diz respeito à representação da história, o governo se reafirma como aqueles que negam os crimes cometidos durante a ditadura de 1964, que negam toda a violência que marcou a história do Brasil, violência dirigida contra negros e índios. Afinal, para eles, trabalhar o nosso passado, fazer a crítica do nosso passado é, nas palavras do presidente, “coisa de cachorro que gosta de osso”, coisa de gente de esquerda que melhor faria se tivesse se deixado assassinar durante a ditadura, gente que recusa a naturalização da violência e da pobreza, que insiste em afirmar que este país, por mais que se tenha feito no sentido contrário, ainda está assentado na exclusão.

Desde a campanha, Bolsonaro colocou como seu objetivo exterminar aqueles que fizeram oposição à ditadura, ou seja, exterminar o Brasil democrático. A esquerda fez a sua crítica, e não há entre nós movimento de esquerda sério, consistente, que não faça a crítica do enfrentamento da ditadura pela via da luta armada.

Roberto Alvim, em pronunciamento com plágio de Joseph Goebbels (Reprodução)
Roberto Alvim, em pronunciamento com plágio de Joseph Goebbels (Reprodução)
Democracia

Desde 1979, com a publicação de “Democracia como valor universal”1, de Carlos Nelson Coutinho, a esquerda tem, na democracia, sua orientação. Foi esta esquerda, democrática, que mais efetivamente trabalhou para o final da ditadura. A determinação da centralidade da questão democrática para o pensamento e a prática da esquerda foi um movimento lento, mas consistente, de modo que a resistência que havia em abraçar a democracia é hoje residual.

Se ainda há uma retórica revolucionária e mesmo um imaginário revolucionário, ambos são negados cada vez mais pela prática parlamentar da negociação e do compromisso, pela participação em eleições, nas quais precisamos conversar e convencer pessoas que pensam diferente, sem que tenhamos de abrir mãos de nossos ideais.

Os militares que chegaram ao poder junto com Bolsonaro, porém, jamais aceitaram a democracia. Sempre se consideram injustiçados por não terem sua suposta moralidade cívica reconhecida. São figuras movidas pelo ressentimento, que se querem apresentar como conservadores dos “verdadeiros” valores da brasilidade.

Sob a bandeira do conservadorismo, contudo, o que eles desejam – e agem para que tal desejo se realize – é a destruição de nossa democracia, o extermínio dos opositores do governo, o estreitamento de nossos horizontes de expectativas quanto à construção de uma país mais justo, mais igual, com mais liberdade, mais democrático. A eles se somaram uma elite econômica irresponsável, indiferente, quando não contrária à democracia, lideranças evangélicas inescrupulosas e, para dizer com todas as letras, criminosas, mas também milhões de brasileiro desesperançados, cuja vida é de tal modo massacrada e ameaçada no cotidiano, que a democracia, para estes, fica em segundo plano. Pois não é evidente, para quem tem a sobrevivência sob constante ameaça, que é a democracia, a política, e não o autoritarismo, que deve orientar a vida em comum.

Cultura

A arte entra nesta guerra porque ela joga com os limites da nossa sensibilidade. Não são apenas os nossos juízos e avaliações estéticos que estão em jogo, e sim nossos juízos políticos e morais, isto é, nossa cultura. Diferente do que pensa um badalado físico-economista, pessoa que pontifica com frequência nas páginas da grande imprensa, não se trata de questão privada. A arte nos obriga a uma abertura do mundo, ela amplia nossos horizontes, tanto sensíveis quanto intelectuais, e isto é tudo que este governo mais deseja combater. Foi justamente o potencial político desta abertura que Hannah Arendt viu na Crítica do Juízo de Kant. A arte apresenta uma ampliação do possível, e uma compreensão do contingente, sem abrir mão das conquistas duradouras da civilização. À ideia de uma arte revolucionária, transformadora, que apresenta uma nova linguagem, à imagem de uma revolução no modo de pensar, que nos mostra o limite de nosso ponto de vista, corresponde, no plano da política, a reforma e progresso das instituições. Dizendo de modo claro: ou a arte desafia limites ou ela é nada.

Há todo um mundo da arte e da cultura que, felizmente, passa ao largo do Estado. Não, porém, de um estado autoritário, bem entendido. Mas a pesquisa em arte e cultura, a experimentação de novas linguagens, em especial de linguagens a que o mercado é algo refratário, elas precisam do apoio indireto, não direcionado, não instrumental. Porque só assim, quando ela é livre para, inclusive, definir de modo arriscado os seus próprios critérios, ela é capaz de combater o único mal que ela efetivamente combate: o obscurantismo, a ignorância. A política cultural importante é justamente aquela que consegue apresentar, para a maioria, aquilo que a minoria, os artistas, estão experimentando. Não é simples, há tensão, há incompreensão, mas faz parte do jogo, faz parte da vida.

Nossa cultura está mal, é verdade. Não, porém, a nossa cultura artística, e sim a nossa cultura política. Afinal, foi dela que saíram os monstros que estão no poder e que ela não foi capaz de repelir. Mas a arte irá resistir a eles. A arte, a ciência, a intelectualidade, enfim, nós que produzimos cultura, não vamos ceder um milímetro de terreno a esta monstruosidade que se chama governo Bolsonaro. As forças políticas com compromisso democrático precisam reagir e enfrentar o governo, construindo o instrumento para o seu afastamento. Rodrigo Maia e David Alcolumbre precisam ter claro que o impeachment se faz necessário. E nós precisamos ir às ruas. Precisamos nos manifestar, fazer espetáculos, ganhar a cena e o público. Afinal, este governo que está aí não tem apenas cheiro de coisa velha, de naftalina, de farda que estava guardada no armário. Este governo exala Zylikon B.

Daniel Tourinho Peres é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal da Bahia.

 

1 Coutinho, Carlos Nelson. “A democracia como valor universal”. “Encontros com a Civilização Brasileira, São Paulo, 1979. A reflexão de Carlos Nelson centrou-se na relação entre socialismo e democracia. Mais recentemente quem tem se dedicado, entre nós, a fazer a crítica da relação entre esquerda e democracia, é Ruy Fausto. Ver em especial Fausto, Ruy. A esquerda difícil, Perspectiva, São Paulo, 2007.



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