Quando tudo sobe à superfície - Le Monde Diplomatique

O LEVANTE FRANCÊS

Quando tudo sobe à superfície

por Serge Halimi
Janeiro 3, 2019
Imagem por Sébastien Huette
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Com os “coletes amarelos”, um poder seguro de si e querendo servir de modelo para a Europa teve de ceder diante da revolta de grupos sociais até então pouco mobilizados coletivamente. Em um mês, transportes, cobrança de impostos, meio ambiente, educação e democracia representativa foram colocados em questão (ler abaixo). Agora, após reunir os sem-voz, os “coletes amarelos” hesitam sobre a maneira de se organizar ou de convergir com outras revoltas (pág. 6). A forte presença feminina testemunha uma reviravolta sociológica cujas lições ainda estão por serem tiradas (pág. 9). Tudo concorrendo para engordar a carga que a arrogância do presidente Emmanuel Macron detonou (pág. 7)

Em Paris, em 15 de dezembro de 2018, três “coletes amarelos” se revezavam na Casa da Ópera para ler uma mensagem dirigida “ao povo francês e ao presidente da República, Emmanuel Macron”. Já de início, o texto anunciava: “Este movimento não pertence a ninguém nem a todos. Ele é a expressão de um povo que, há quarenta anos, se vê despojado de tudo que lhe permitia acreditar em seu futuro e em sua grandeza”.

Em menos de um mês, a raiva inspirada por um imposto sobre os combustíveis desembocou num diagnóstico geral, tanto social quanto democrático. Movimentos que agregam populações pouco organizadas favorecem a politização acelerada destas últimas– a tal ponto que o “povo” está se descobrindo “despojado de seu futuro” um ano depois de ter levado à direção dele um homem que se jactava de ter varrido os dois partidos que, por quarenta anos precisamente, se haviam sucedido no governo.

E então o líder se perdeu. Como antes dele, outros prodígios de sua laia, também eles jovens, sorridentes, modernos: Laurent Fabius, Tony Blair e Matteo Renzi, por exemplo. Para a burguesia liberal, a decepção foi imensa. A eleição presidencial francesa de 2017 – um milagre, uma surpresa divina, uma aposta certeira – dava-lhe a esperança de que a França se tornaria uma ilha feliz em um Ocidente atormentado, a ponto de, na época da coroação de Macron, tendo como fundo musical o “Hino à alegria”, o semanário britânico The Economist, representante perfeito do sentimento das classes dominantes internacionais, representá-lo como Jesus, andando sobre as águas, em trajes brilhantes e com um sorriso nos lábios.

O mar engoliu a criança-prodígio, confiante demais em suas intuições e desdenhoso demais da condição econômica alheia. Durante uma campanha eleitoral, a angústia social só intervém como decoração, geralmente para explicar a escolha daqueles que votam mal. Mas, quando “raivas antigas” se somam e, sem consideração por aqueles que as sofrem, outras são suscitadas, o “monstro” – nas palavras de Christophe Castaner, ministro do Interior – pode sair da caixa.1 E então tudo se torna possível.

O apagamento da memória de esquerda na França explica o pouco destaque dado às analogias entre o movimento dos “coletes amarelos” e as greves operárias de junho de 1936. Nota-se a mesma surpresa das classes altas diante das condições de existência dos trabalhadores e diante de sua exigência de dignidade: “Todos os que são estranhos a essa vida de escravo”, explicou então a filósofa e ativista trabalhista Simone Weil, “são incapazes de entender o que foi decisivo neste caso. Neste movimento, trata-se de algo bem diferente dessa ou daquela reivindicação específica, por mais importante que ela seja. […] Trata-se agora, depois de ter se submetido sempre, de ter sofrido tudo, aguentado tudo em silêncio por meses e anos, de ousar se erguer e se colocar de pé. De ter a vez de tomar a palavra”.2 Evocando em seguida os acordos de Matignon, que deram origem ao direito a férias, à semana de quarenta horas e a um aumento nos salários, Léon Blum iria relatar essa conversa entre dois dos negociadores dos patrões: “Eu ouvi o sr. Duchemin dizer ao sr. Richemond, quando se colocava diante dele as taxas de certos salários: ‘Como isso é possível? Como pudemos deixar isso acontecer?’”.3

Coletes amarelos: raiva inspirada por um imposto sobre os combustíveis desembocou num diagnóstico geral, social e democrático

 

Um universo sufocante

Macron teria tido a mesma revelação ao ouvir os “coletes amarelos” relatarem o cotidiano deles? Olhos fixos em um teleprompter, tenso, bastante pálido, ele em todo caso admitiu que “o esforço que lhes foi exigido era demasiado” e que “não era justo”. A “pedagogia” pode ser alegre quando muda de destinatário. “Como pudemos deixar isso acontecer?” Todo mundo conhece melhor agora, graças aos “coletes amarelos”, a lista de injustiças cometidas pelo atual governo: 5 euros a menos por mês em 2017 para os beneficiários da assistência personalizada à habitação (APL) e, ao mesmo tempo, a eliminação da progressividade da tributação sobre o capital; a eliminação do imposto sobre as fortunas (ISF) e, ao mesmo tempo, o declínio do poder de compra dos aposentados. Sem mencionar o mais caro: a “simplificação contábil” do crédito tributário para a competitividade e o emprego (Cice) pago às empresas. No próximo ano, o Tesouro pagará, portanto, duas vezes a Bernard Arnault, principal fortuna da Europa, proprietário do Carrefour e da LVMH, do Parisien e do Échos. Essa única medida custará quase 40 bilhões de euros em 2019, o equivalente a 1,8% do PIB ou, se se preferir, mais de cem vezes o montante da redução das APLs. Em um vídeo de internet de cinco minutos que ajudou a desencadear o movimento dos “coletes amarelos”, Jacline Mouraud questionava por três vezes: “Mas o que você faz com o dinheiro?”. Eis a resposta.

Um tanque de gasolina exorbitante caríssimo, um controle técnico automotivo ainda mais custoso, e tudo vem à tona. Os bancos que se gabam de cada crédito que concedem, mas que, por uma questão de economia, “reagrupam” suas agências, isto é, fecham-nas, e encerram as contas de seus clientes quando eles soltam um cheque sem verificar o saldo para fechar o mês. As aposentadorias, já reduzidas demais, de onde o governo retira dinheiro como se fossem a caverna de Ali Babá. Mulheres que criam seus filhos sozinhas e lutam para receber a pensão alimentícia de seu ex-companheiro, geralmente tão pobre quanto elas. Casais que têm de morar junto apesar de não se entenderem porque não podem pagar dois aluguéis. Os novos gastos obrigatórios, internet, computador e smartphone, que são contratados não para o prazer de assistir a filmes na Netflix, mas porque a racionalização dos serviços do correio, do imposto de renda, do serviço ferroviário, assim como o desaparecimento das cabines de telefone, destruiu qualquer possibilidade de viver sem eles. E as maternidades que fecham, as lojas que fenecem, a Amazon que espalha seus armazéns por toda parte. Todo esse universo de anomia social, de imposições tecnológicas, de questionários a preencher, de produtividade a medir e de solidão também existe mais ou menos tanto em outros lugares quanto na França, e se impõe sob regimes políticos diferentes, precedendo a eleição de Macron. Mas o presidente francês parece gostar desse novo mundo e parece ter feito dele seu projeto de sociedade. É também por isso que ele é odiado.

Não por todos, no entanto: aqueles que estão se dando bem, graduados, burgueses, habitantes de metrópoles, comungam do mesmo otimismo do presidente francês. Enquanto o país estiver calmo, ou desesperado, o que dá no mesmo, o mundo e o futuro pertencem a eles. Dono de uma dessas casas que, na década de 1970, representavam um símbolo de escalada social, um “colete amarelo” ironiza com amargura: “Quando os aviões passam a baixa altitude por cima do condomínio, dizemos: ‘Olha, são os parisienses. Eles, sim, podem sair de férias. E, além disso, eles soltam o querosene para nós’”.4

Macron pode contar com outros apoios além daqueles dos burgueses nômades da capital, incluindo os jornalistas. O da União Europeia, por exemplo. Com um Reino Unido voltando à sua insularidade, uma Hungria que demonstra má vontade, uma Itália que desobedece, uma Casa Branca que os encoraja, ela não pode nem prescindir da França nem puni-la como a Grécia quando suas contas derrapam. Porque, por mais enfraquecido que Macron esteja, ele continua sendo uma das raras peças que ainda têm valor no tabuleiro de xadrez da Europa liberal. Bruxelas e Berlim, portanto, garantirão que ele se mantenha.

 

Burguesia sabe se unir quando a casa pega fogo

A ponto de conceder a Paris alguns pecados capitais. Quatro dias antes de o presidente francês anunciar que aceitava várias das exigências dos “coletes amarelos”, o que levaria a uma revisão para cima do déficit orçamentário para além do limite sacrossanto de 3% do PIB, o comissário europeu para a economia, Pierre Moscovici, em vez de repreendê-lo e ameaçá-lo, na esperança de dissuadi-lo de dar provas de tal imprevidência, avisou que não via nisso nenhum inconveniente: “Meu papel, que é o de guardião do pacto de estabilidade e crescimento, não é dizer a esse ou àquele país: ‘Você tem de cortar essa ou aquela despesa social, você tem de mexer nesse ou naquele imposto’. […] Essa regra de 3% não é a principal. Gérald Darmanin [ministro francês das Contas Públicas] afirmou, pelo que ouvi falar: ‘2,9 ou 3,1 não é o inferno ou o paraíso’; nisso ele não está inteiramente errado, e cabe à França decidir o que ela deve fazer. Mas hoje eu não vou dizer: ‘A França está ameaçada de sanções, ela saiu dos procedimentos de déficit’” (France Inter, 6 dez. 2018). Não saberíamos como aconselhar os espanhóis, italianos e gregos a traduzir uma passagem como essa (nossas edições internacionais cuidarão disso…), e a um futuro governo francês, cuja soberania econômica seria mais contestada, e as derrapagens orçamentárias, menos bem aceitas, a manter a transcrição dela em seus arquivos.

“Em tempos de crise, o custo é secundário”, defendeu Macron diante dos parlamentares de sua maioria para justificar os 10 bilhões de euros de déficit adicional que acabava de anunciar. E Angela Merkel quase imediatamente apoiou o recuo de seu parceiro francês, destinado, segundo ela, a “atender às exigências das pessoas”. A oposição de direita francesa também se apressou a pedir o fim das manifestações. A burguesia, que tem o senso de seus interesses, sabe como cerrar fileiras quando a casa queima. Para “salvar o soldado Macron”, os patrões até encorajaram as empresas a pagar um bônus excepcional a seus empregados – e seu presidente chegou a exigir um aumento do salário mínimo! A imprensa de negócios, por sua vez, parou de escarnecer diante de um poder encurralado: “No momento”, resumiu o editorial do Figaro depois do discurso do presidente da República, “deve-se reconhecer ao Executivo o mérito de ter preservado o essencial. […] As medidas fiscais a favor do investimento (remoção parcial do ISF, imposto fixo sobre a poupança…) foram mantidas, bem como as diminuições de encargos e impostos que pesam sobre as empresas. Esperamos que continue assim!”.5

 

Sentimento de desconfiança absoluta

Não se pode descartar que esse voto seja mantido. O poder não está no chão; recuperou-se, protegido pelas instituições da Quinta República e por sua maioria parlamentar, que lhe será ainda mais fiel pelo fato de lhe dever tudo. Ele também deixou claro que seu liberalismo exibido não o impediria de instalar veículos blindados em Paris e de prender preventivamente centenas de manifestantes (1.723, em 8 de dezembro), como já fizera por duas semanas seguidas. O poder também não abdicou da manipulação do medo – o Eliseu evocando um “núcleo duro” vindo a Paris “para matar” – nem da invocação de um complô estrangeiro – russo, é claro. Finalmente, colocando ele próprio em destaque “a questão da imigração”, Macron confirmou sua disposição para o cinismo político.

O poder poderá tirar proveito do fato de os “coletes amarelos” darem pouca atenção ao sistema internacional. As pretensões “jupiterianas” do presidente da República e sua simbiose com o mundo financeiro e cultural dos ricos de fato favoreceram a ilusão segundo a qual sua política era um capricho pessoal e que, portanto, ele estava livre para modificá-la drasticamente. Mas a França não tem mais sua moeda, seus serviços públicos estão subordinados à política europeia da concorrência, seu orçamento é examinado linha por linha pelas autoridades alemãs, e é em Bruxelas que seus acordos comerciais são negociados. No entanto, na lista das 42 exigências mais amplamente divulgadas pelos “coletes amarelos”, o termo “Europa” e o adjetivo “europeu” não aparecem nem uma vez.

Da mesma forma, os ocupantes das praças e seus apoiadores pareciam mais preocupados em protestar contra o número de parlamentares e os privilégios dos ministros que em acusar a impotência de seus governantes. Mas, como acabamos de ver no caso da Ford, o dirigente de uma multinacional norte-americana nem se dignou a conversar com um ministro francês pelo telefone, mesmo depois de sua empresa anunciar o fechamento de uma fábrica em Blanquefort, perto de Bordeaux, e a dispensa de seus oitocentos funcionários (ler mais na pág. 35).

Analisando, vinte anos atrás, o movimento dos desempregados do inverno de 1997-1998, Pierre Bourdieu viu naquilo um “milagre social”, cuja principal conquista era sua própria existência: “Ele destrói os desempregados e, com eles, todos os trabalhadores precários, cujo número aumenta a cada dia, rumo à invisibilidade, ao isolamento, ao silêncio, em suma, à inexistência”.6 O surgimento dos “coletes amarelos”, também “milagroso” e muito mais poderoso, testemunha o empobrecimento gradual de margens cada vez mais amplas da população. Mas também um sentimento de desconfiança absoluta, quase de aversão, em relação aos canais usuais de representação: o movimento não tem líderes nem porta-voz, rejeita os partidos, descarta os sindicatos, ignora os intelectuais, luta contra os meios de comunicação. Daí vem, provavelmente, sua popularidade, que ele manteve mesmo depois de cenas de violência das quais qualquer outro poder teria tirado proveito.

Inútil querer ler o futuro de um movimento tão culturalmente estranho para a maioria daqueles que fazem este jornal e daqueles que o leem. Suas perspectivas políticas são incertas; sua natureza heterogênea, que contribuiu para seu público, ameaça sua coesão e seu poder: o acordo entre os trabalhadores e a classe média se dá mais facilmente quando se trata de recusar um imposto sobre os combustíveis ou a supressão do ISF do que diante da revalorização do salário mínimo, que poderia fazer um pequeno empreendedor ou um artesão temerem o aumento de suas despesas. No entanto, existe uma argamassa unificadora possível na medida em que muitas das exigências dos “coletes amarelos” resultam das transformações do capitalismo: desigualdades, salários, tributação, degradação dos serviços públicos, ecologia punitiva, realocação de territórios, super-representação da burguesia graduada nas instâncias políticas e nos meios de comunicação etc.

Em 2010, o jornalista François Ruffin evocava a imagem de dois cortejos progressistas que, em Amiens, no mesmo dia, se cruzaram sem se juntar. De um lado, uma passeata de trabalhadores da Goodyear. Do outro, uma manifestação de pessoas opostas à globalização contra uma lei antifeminista na Espanha. “É”, escreve Ruffin, “como se dois mundos, separados apenas por 6 quilômetros, se dessem as costas. Sem possibilidade de junção entre os ‘duros’ das fábricas e, como ironiza um trabalhador, ‘os burgueses do centro que fazem um passeio’.”7 No mesmo momento, o sociólogo Rick Fantasia também notara em Detroit, nos Estados Unidos, a existência de “duas esquerdas que se ignoram”, uma composta de ativistas sem perspectiva política; a outra, de realistas sem vontade de agir.8 Mesmo que as clivagens de Amiens e Detroit não se sobreponham totalmente, elas remetem ao crescente abismo entre um universo popular que sofre os golpes e tenta devolvê-los, e um mundo do protesto (muito?) inspirado por intelectuais cujo radicalismo de papel não apresenta nenhum perigo para a ordem social. Foi também esse divórcio que o movimento dos “coletes amarelos” evocou à sua maneira. Não lhe cabe remediá-lo sozinho…

 

*Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.

 

 

 

Armas controversas

Além das oito mortes registradas (sete pessoas atingidas por veículos e uma mulher de 80 anos que recebeu uma granada de gás lacrimogêneo em sua casa), várias centenas de manifestantes, a maioria pacífica, foram feridos durante os protestos de novembro e dezembro de 2018. Muitos deles foram vítimas da agressividade das forças policiais – que também contaram feridos em suas fileiras –, mas também da teimosia de sucessivos governos franceses em dotar a polícia e a gendarmaria de equipamentos inadequados para a manutenção da ordem. Proibidas na maioria dos países europeus, essas armas são regularmente denunciadas por parlamentares, defensores de direitos e ONGs.

Perda de um olho, fratura, hemorragia interna, pulmão perfurado: estudantes do ensino médio, manifestantes e jornalistas foram seriamente atingidos por “balas de defesa” lançadas por um LBD 40 (GL-06 do seu nome original). Encomendado em 2008 para substituir seu concorrente Flash-Ball Super-Pro, esse “lançador de balas de borracha” feito na Suíça propulsiona munições a mais de 300 quilômetros por hora. Considerado capaz de apresentar “baixa probabilidade de causar um desfecho fatal, ferimentos graves ou lesões permanentes”, ele entra na categoria de “meios de força intermediária”. No entanto, ocasiona ferimentos graves, como em Toulouse, onde um “colete amarelo” ainda estava em coma em meados de dezembro, depois de receber um tiro entre o olho e a orelha.

Outras armas “de baixa letalidade”: as granadas que contêm carga explosiva. Entre elas, a granada de gás lacrimogêneo e ensurdecedora GLI-F4 e a granada de mão para desfazer bloqueios (GDM). Elas causam mutilações, queimaduras e perda auditiva irreversível. Entre 24 de novembro e 8 de dezembro, pelo menos quatro pessoas tiveram as mãos arrancadas por esses dispositivos. O modelo GLI-F4 substituiu a granada “ofensiva” OF-F1, proibida após a morte do manifestante Rémi Fraisse no local da barragem de Sivens, em 2014, mas ainda conserva um “efeito de explosão”. Se por um lado o Ministério do Interior não planeja renovar as dotações da polícia e da gendarmaria, por outro as manifestações deixaram claro: o GLI-F4 continuará sendo lançado enquanto durarem os estoques.

*Julien Baldassarra é jornalista.

 

Pó de pirlimpimpim

No discurso televisionado durante o qual Emmanuel Macron decretou um “estado de emergência econômica e social”, em 10 de dezembro de 2018, ele declarou: “O salário de um trabalhador no Smic [salário mínimo] aumentará em 100 euros por mês a partir de 2019”. Problema: essa afirmação rapidamente se mostrou mentirosa. Nós conhecíamos os anúncios seguidos de nenhum efeito. Contudo, raramente vimos um presidente da República, em crise, em uma medida para chamar a atenção, mentir tão descaradamente.9 Nenhum “impulso” foi dado ao Smic: em 1º de janeiro de 2019, apenas a lei foi aplicada – o que é o mínimo –, ou seja, um aumento de 1,5%, que não compensará a inflação.

Os ministros encarregados do serviço pós-venda correram, no dia seguinte ao discurso, para explicar que os 100 euros incluíam os 20 euros relativos à redução das contribuições salariais feita em 2018 (que eram, portanto, uma conquista) e 80 euros adicionais, alcançados pela aceleração do aumento do prêmio de atividade (que se esperava que se espalhasse ao longo do período de cinco anos). Mas também nesse caso os fatos são truncados. Nem todos os smicards vão receber esses 80 euros. É a totalidade dos recursos e a composição da casa que determinam o direito a esse benefício e seu montante. Assim, um trabalhador remunerado pelo Smic, ou não longe deste, não pode ter certeza de receber o aumento prometido ou de recebê-lo em sua totalidade. A enganação é enorme.

Ao privilegiar o bônus sobre os salários, Macron não ilude só os cidadãos: ele também individualiza o aumento da renda e reduz um pouco mais os direitos sociais. O prêmio pode ser reduzido a qualquer momento e, ao contrário de um salário, não gera direito algum (em caso de desemprego, ou na aposentadoria). Além disso, não tem nenhum efeito cascata sobre o conjunto das grades salariais pelo jogo dos acordos coletivos. Esse uso indevido da palavra “salário” no topo do estado não é fortuito.

*Jean-Michel Dumay é jornalista.



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