SAÚDE PÚBLICA

Que saúde queremos para o Brasil?

O debate eleitoral sobre saúde devesse prestar mais atenção a essa distância entre a política desenhada e a experiência de quem dela depende

A saúde costuma ocupar um lugar paradoxal nas campanhas presidenciais. Está entre as maiores preocupações dos brasileiros e, ainda assim, frequentemente aparece reduzida a uma sucessão de números e promessas: mais médicos, menos filas, mais hospitais, mais medicamentos. São, sem dúvida, compromissos importantes. Mas saúde pública não se resume àquilo que pode ser contado na inauguração de uma obra ou na estatística de um balanço.

Há uma dimensão menos visível: a capacidade de um sistema reconhecer quem precisa de cuidado, oferecer esse cuidado no momento adequado e não perder essa pessoa pelo caminho. Isso exige dinheiro e gestão, mas também continuidade, profissionais preparados e uma rede que funcione para além dos limites de cada governo. Os programas dos dois candidatos que chegaram ao segundo turno apresentam propostas para atenção primária, redução de filas, medicamentos, vacinação, tecnologia e saúde mental. Mas vale olhar para essas propostas não apenas pelo que prometem fazer, e sim pelo que exigirão para sair do papel.

Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), que examinou 95 propostas de saúde dos seis candidatos que tinham pelo menos 2% de intenção de voto no primeiro turno, encontrou um dado eloquente: 95% demandariam recursos adicionais e 83% dependeriam de articulação entre União, estados e municípios. Mais da metade, 56%, já corresponde a políticas ou programas existentes no SUS. A diferença entre anunciar uma política e fazê-la funcionar é, portanto, parte da própria política de saúde.

Na saúde mental, essa diferença talvez seja ainda mais decisiva. Pela primeira vez, o Brasil está realizando uma Pesquisa Nacional de Saúde Mental. Coordenado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo, o levantamento já alcançou 197 municípios de 26 unidades federativas e, até o fim de agosto, havia realizado 1.011 entrevistas. A previsão é chegar a aproximadamente dez mil entrevistas com adultos. A pesquisa investiga a ocorrência de transtornos mentais, fatores associados ao sofrimento psíquico, desigualdades sociais e econômicas, experiências de violência e barreiras de acesso ao cuidado.

É um recorte fundamental, um espelho fiel da sociedade atual. Durante muito tempo, discutimos saúde mental a partir de fragmentos: os pacientes que chegam aos serviços, os estudos realizados em grupos específicos, as estatísticas disponíveis. Agora, o país procura construir uma fotografia mais ampla de sua população adulta, mas não pode parar por aí. O valor dessa pesquisa estará também no que fizermos com aquilo que ela vai revelar e seus resultados poderão orientar políticas públicas, acompanhar indicadores e contribuir para a organização da Rede de Atenção Psicossocial. Isso nos leva a uma questão que raramente aparece no centro das campanhas: o que significa cuidar de alguém que sofre psiquicamente?

Uma pessoa em sofrimento não chega ao sistema de saúde como um conjunto de sintomas. Ela traz uma história, relações, perdas, medos, condições materiais de vida. Às vezes chega cedo, mas muitas outras vezes apenas quando a família já não sabe mais como agir ou quando a crise tornou impossível continuar levando a vida como antes. O tratamento pode ser breve ou exigir acompanhamento por muito tempo, pode envolver diferentes profissionais e diferentes momentos do cuidado. É por isso que saúde mental não pode ser pensada apenas como a existência de determinado número de serviços. É preciso saber se há acesso, se há profissionais, se existe continuidade e se o paciente consegue transitar por essa rede sem ser abandonado entre uma etapa e outra.

Ilustração: Lila Cruz

Há outra questão, mais incômoda, que a própria Organização Mundial da Saúde colocou no centro de sua campanha para 2026: quem participa das decisões sobre a forma como cuidamos de quem sofre? O tema deste ano, Experiências vividas ouvidas: vozes reais, mudanças reais, propõe que pessoas que passaram por problemas de saúde mental sejam reconhecidas como portadoras de um conhecimento próprio e participem da formulação das políticas, do desenho dos serviços e da avaliação do cuidado. Para a OMS, a experiência de quem viveu um transtorno e buscou ajuda, muitas vezes sem encontrar, revela aspectos dos sistemas de saúde que não podem ser apreendidos apenas pela formação profissional ou pela pesquisa. Essa é uma ideia que merece ser levada para além da campanha.

A medicina precisa da ciência para avançar. Precisa de evidências, protocolos, formação e pesquisa. Mas nenhum desses instrumentos elimina a necessidade de escutar quem está do outro lado da relação de cuidado. Um serviço pode cumprir todos os requisitos formais e ainda ser difícil de acessar, um tratamento pode estar disponível e não ser continuado. Uma rede pode existir no papel e falhar justamente no momento em que o paciente mais precisa dela. Talvez o debate eleitoral sobre saúde devesse prestar mais atenção a essa distância entre a política desenhada e a experiência de quem dela depende.

No mês em que se celebra o Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro), os brasileiros escolherão o novo governo. As decisões tomadas a partir desse momento terão consequências que vão muito além de encerrado o mandato. Seremos capazes de construir uma rede que não responda apenas à crise, mas reconheça o sofrimento antes que ele chegue a esse ponto? Que trate, acompanhe e escute? Que veja no paciente não apenas alguém a ser atendido, mas alguém que também tem conhecimento sobre o próprio cuidado? A resposta sobre a saúde que queremos para o Brasil talvez seja menos sobre quantos serviços teremos do que sobre que país queremos ser quando alguém precisar deles.

 

Jorge Jaber é psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina.

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