TRABALHO, TERRA, TEMPO E CUIDADO

Quem constrói os mercados da agricultura familiar?

Experiências de mulheres agricultoras no Brasil e na Irlanda mostram que vender alimentos também envolve confiança, trabalho digital, mobilidade e cuidado 

A feira começa muito antes de as barracas serem abertas. Começa na ordenha, no forno, na horta, na escolha do que será colhido e na conversa com quem espera uma encomenda. Também começa na cozinha que precisa ficar organizada, na criança que será cuidada por outra pessoa, no carro disponível para a entrega e na mensagem respondida ao fim do dia. Entre a produção e a venda existe uma trama de trabalhos. Alguns entram nas contas. Outros permanecem no silêncio das rotinas. 

Crédito: João Victor Medeiros/Wikimedia Commons

Ao acompanhar mulheres agricultoras no Brasil e na Irlanda, uma pergunta retornou de diferentes maneiras: o que acontece quando elas deixam de ser vistas apenas como parte da família rural e passam a construir os mercados pelos quais os alimentos circulam? A pergunta não se limita a saber quem comparece à feira ou recebe o pagamento. Ela exige observar quem transforma, embala, divulga, registra pedidos, conversa com clientes, calcula preços, dirige, cuida e reorganiza o tempo da família para que a comercialização seja possível. 

A reflexão apresentada aqui nasce de uma pesquisa de doutorado em desenvolvimento. O material reúne seis casos irlandeses e oito casos brasileiros, estes localizados no Centro-Sul do Paraná. São trajetórias diversas, ligadas à horticultura, à pecuária, à produção de alimentos, ao turismo rural e a agroindústrias familiares. A comparação não pretende representar dois países nem ordenar experiências em uma escala de avanço e atraso. Seu propósito é colocar situações empíricas em diálogo e identificar mecanismos que atravessam contextos agrários e institucionais distintos. 

Três desses mecanismos orientam este texto: a venda direta como estratégia de permanência na pequena escala, a digitalização como apoio e como nova carga de trabalho, e o reconhecimento das mulheres como agricultoras para além da propriedade formal. Juntos, eles mostram que participar dos mercados pode ampliar renda, decisão e circulação social, mas não desfaz, por si só, as desigualdades que organizam o trabalho, a terra, o tempo e o cuidado. 

Karl Polanyi (2001) nos ajuda a desconfiar da imagem dos mercados como um mecanismo autônomo, separado da vida social. A troca econômica está enraizada em instituições, valores, obrigações, reciprocidades e disputas. Nas experiências estudadas, nenhum alimento chega ao consumidor apenas porque oferta e demanda se encontraram. Ele circula porque há relações de confiança, reputações construídas ao longo do tempo, redes de parentesco e vizinhança, políticas públicas, organizações coletivas e conhecimentos acumulados. 

Essa perspectiva muda o lugar das mulheres na análise. Se os mercados forem reduzidos ao instante da compra e da venda, parte do trabalho das agricultoras desaparece. Se for observado como construção social, tornam-se visíveis as atividades que ligam a propriedade ao mundo: manter clientes, participar de feiras, negociar com restaurantes, participar de reuniões sobre mercados institucionais, apresentar produtos nas redes sociais, receber pessoas na unidade produtiva, administrar documentos e combinar tarefas entre gerações. 

Uma experiência brasileira evidencia essa trama. Em uma agroindústria familiar de laticínios investigada no Brasil, a agricultora é a principal responsável pela transformação dos alimentos e pela relação cotidiana com o negócio. Ainda assim, determinados documentos comerciais permanecem vinculados ao agricultor da família. Em outro empreendimento, a geração mais jovem de agricultoras assume mensagens, pedidos e divulgação, enquanto decisões financeiras e registros formais continuam concentrados nos pais. Os mercados são construídos por elas, mas nem todas as formas de reconhecimento acompanham o trabalho realizado. 

Nos casos irlandeses, a venda direta aparece como uma forma de proteger a pequena escala. Uma horticultora entrevistada escolheu permanecer em uma feira semanal e manter uma pequena venda na propriedade. Sua decisão de se afastar de redes varejistas não expressa recusa aos mercados. Expressa uma disputa sobre quais mercados tornam sua produção possível. Ao vender diretamente, ela preserva parte maior da margem, conversa com quem compra e ajusta a produção sem se submeter aos volumes e padrões impostos por canais de maior escala. 

Outra agricultora irlandesa combinou venda na propriedade, pequenos estabelecimentos locais, grupos de consumidores, mensagens e atividades realizadas na unidade produtiva, como turismo rural. Ela não encontrou um canal pronto que recebesse sua produção nas condições desejadas. Precisou desenhar um circuito no qual preço, volume, proximidade e ritmo de trabalho pudessem ser negociados e combinados com o ritmo da família, que têm filhos pequenos. Neste caso, vender não é a etapa final da produção, é parte do modo como a unidade se organiza e continua existindo. 

No Brasil, feiras, entregas, mercados institucionais e vendas na propriedade também se combinam. Uma agricultora que produz hortaliças e frutas percorreu diferentes canais, da feira ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), do supermercado aos pedidos por mensagens. A diversidade reduz a dependência de um único comprador, mas exige calendários, embalagens diferenciadas, deslocamentos e formas de negociação distintas. Em outro caso, a memória da feira é compartilhada entre gerações: uma agricultora mais velha mantém vínculos com a comunidade, outra conduz a agroindústria e a comunicação digital, e o agricultor se ocupa das entregas e parte do trabalho produtivo. 

A venda direta pode ampliar o controle sobre preço e quantidade, mas ela cobra tempo. A conversa que fideliza o consumidor, a explicação sobre o alimento e a regularidade da presença são parte do trabalho comercial. A proximidade não deve ser “romantizada”, ela produz relações menos anônimas e pode sustentar pequenas unidades, ao mesmo tempo que transfere para a família atividades que, em cadeias longas, seriam realizadas por distribuidores, transportadores e equipes de venda. A questão, portanto, não é escolher entre mercados próximos, apresentados como bons, e mercados convencionais, apresentados como ruins. É compreender quais combinações permitem às famílias permanecer na atividade, quem controla as condições da troca e sobre quais pessoas recaem os custos dessa construção. Nos casos analisados, as mulheres estão presentes justamente nesse trabalho de combinação. 

A digitalização entrou nas propriedades sem substituir os mercados presenciais. No Brasil, WhatsApp e redes sociais ajudam a anunciar produtos, reunir encomendas, manter clientes e organizar entregas. Na Irlanda, o WhatsApp também é importante, principalmente na construção de grupos de consumidores, mas outras formas de comércio digital também surgem, como plataformas de leilão, aplicativos de gestão e redes sociais. A tela amplia o alcance dos mercados, mas não elimina a estrada, o pacote, a ordenha, a colheita ou o cuidado. 

Em um caso irlandês, uma jovem pecuarista utiliza plataformas digitais para acompanhar leilões e realizar negociações em um ambiente comercial ainda marcado pela presença masculina. A possibilidade de participar à distância abre uma passagem por um espaço em que ela nem sempre se sente igualmente reconhecida ou respeitada. Ao mesmo tempo, o acesso depende de domínio técnico, conectividade, informação e tempo para acompanhar ofertas. A tecnologia desloca barreiras, mas não apaga as relações de poder que atravessam os mercados. 

Uma horticultora irlandesa passou a usar redes sociais durante a pandemia, em meio à necessidade de organizar entregas e manter comunicação com consumidores. Mais tarde, avaliou que a recomendação entre clientes e uma boa sinalização na estrada produziam resultados mais concretos. A experiência evita uma conclusão apressada: estar nas redes não significa que elas sejam o principal canal de venda. Em alguns casos, o digital funciona como apoio e divulgação. E geralmente, torna-se uma nova tarefa que precisa ser aprendida, atualizada e encaixada em jornadas já extensas. 

Nos casos brasileiros, esse trabalho digital aparece com frequência nas mãos das mulheres, especialmente das mais jovens. Elas fotografam, respondem, organizam pedidos, atualizam páginas e mantêm a relação com consumidores. Como parte dessas atividades é realizada pelo telefone, entre uma tarefa e outra, seu tempo tende a desaparecer das contas da unidade produtiva. O pedido chega em segundos, mas sua realização reúne produção, separação, embalagem, confirmação, pagamento e entrega. 

A digitalização pode ampliar autonomia quando a agricultora controla o canal, acessa informação e decide sobre a venda. Pode também reforçar dependências. Em alguns casos brasileiros, mulheres que não têm Carteira Nacional de Habilitação (CNH) precisam aguardar outra pessoa para participar de feiras ou realizar entregas. O telefone aproxima os consumidores, mas não conduz o veículo. A distância digital diminui, enquanto a mobilidade material continua distribuída de forma desigual. 

A economia feminista permite avançar onde a imagem convencional dos mercados costuma parar. Benería, Berik e Floro (2016) mostram que trabalho remunerado e não remunerado não pertencem a mundos separados. A produção mercantil depende de atividades domésticas e de cuidado que foram subestimadas pelas estatísticas, pelas políticas públicas e pelas próprias noções correntes de trabalho. Federici (2020) acrescenta que essa invisibilidade não é acidental: a reprodução cotidiana da vida foi naturalizada como obrigação das mulheres, mesmo quando sustenta tudo aquilo que aparece como produção. 

Nas entrevistas brasileiras, o cuidado funciona como uma infraestrutura dos mercados. Em uma família, uma mulher mais velha assume parte do trabalho doméstico e do cuidado com as crianças para que outra permaneça na agroindústria. Em outro caso, a agricultora participa da produção para mercados institucionais, mas continua responsável por toda a organização da casa. Há ainda mulheres que levam filhos para a feira ou ajustam a comercialização aos horários escolares. A autonomia construída fora da casa se apoia em arranjos realizados dentro dela. 

Na Irlanda, o mesmo problema aparece sob outras formas. Uma agricultora participa do manejo, das decisões, dos registros e da diversificação da unidade, enquanto concentra horas diárias de tarefas domésticas e de cuidado, o que diminui a sua participação na comercialização fora da unidade de produção. Outra construiu um circuito próprio de comercialização, mas precisa acomodar produção, atendimento e maternidade em uma mesma jornada. A entrada nos mercados amplia presença pública e capacidade de decisão, porém pode acrescentar novas responsabilidades sem redistribuir as anteriores. 

Nancy Fraser (2016) chama atenção para uma contradição: a economia depende da reprodução social, mas tende a consumir o tempo, a energia e as relações de que esse trabalho necessita. Nos casos analisados, essa tensão não é uma ideia distante. Ela aparece quando a expansão das vendas exige disponibilidade contínua, quando uma feira ocupa o dia e a casa espera à noite, quando mensagens comerciais atravessam o tempo do cuidado. Os mercados se expandem apoiados em um trabalho que raramente remunera. 

Reconhecer essa dependência não diminui a capacidade de ação das mulheres. Pelo contrário, permite compreender o que elas mobilizam para criar mercados e quais condições limitam essa construção. Sem essa lente, a sobrecarga pode ser narrada como dedicação individual e a falta de tempo como problema de organização pessoal. A análise das relações de gênero mostra que ambas têm uma história e uma distribuição social. 

Propriedade da terra, titularidade da unidade produtiva e registro de documentos importam. Eles abrem ou fecham portas para crédito, políticas públicas, representação e sucessão. Mas não esgotam a identidade de agricultora. Entre as entrevistadas irlandesas, há mulheres formalmente reconhecidas que ainda enfrentam desconfiança em bancos, espaços técnicos ou instâncias de decisão. O papel pode reconhecer sem dissolver a hierarquia. A ausência dele pode ocultar uma participação cotidiana. 

No Brasil, o desencontro entre trabalho e reconhecimento aparece na linguagem familiar, na emissão de notas fiscais, no acesso ao dinheiro e na divisão das decisões. Uma mulher pode ser a principal responsável pela transformação e pela relação com clientes, enquanto a documentação comercial está em nome do homem. Pode administrar pedidos e vendas, mas depender de outra pessoa para dirigir. Pode ser apresentada como alguém que ajuda, embora sua ausência interrompesse grande parte do negócio. 

Olhar apenas para quem é titular produz uma fotografia incompleta. Olhar apenas para quem recebe renda também. O reconhecimento envolve terra e documentos, mas inclui autoridade para decidir, controle sobre recursos, possibilidade de circular, domínio de informações e legitimidade para falar em nome da unidade produtiva. Nas trajetórias estudadas, esses elementos nem sempre se encontram nas mesmas mãos. Diante dos casos estudados, há uma conclusão comum: não basta perguntar se as mulheres acessam mercados. É preciso perguntar quais mercados, em quais condições, com que grau de controle e apoiadas no trabalho de quem. 

As experiências do Brasil e da Irlanda não oferecem uma fórmula. Elas mostram que a comercialização pode ampliar a renda da família (e gerar uma renda em separado para a agricultora), a sociabilidade, reconhecimento profissional e participação nas decisões. Mostram também que esses ganhos são frágeis quando dependem de jornadas sem limite, documentos controlados por terceiros, transporte inacessível ou cuidado concentrado em uma única pessoa. 

Políticas públicas voltadas às mulheres rurais precisam enxergar essa arquitetura. Crédito e assistência técnica importam, mas seus efeitos ficam limitados sem documentação acessível, conectividade, formação digital, transporte, serviços de cuidado e adequação das regras sanitárias às diferentes escalas. Também é necessário reconhecer canais de proximidade, compras públicas e formas coletivas de comercialização como espaços nos quais as mulheres não apenas vendem produtos, mas constroem capacidade econômica e presença pública. 

Quando a barraca da feira é desmontada, os mercados não terminam. Permanecem as mensagens, as contas, os preparos do dia seguinte e o trabalho de manter a vida em movimento. Talvez seja nesse intervalo, entre aquilo que aparece na venda e aquilo que a torna possível, que possamos compreender melhor a participação das mulheres nos sistemas alimentares. 

Elas não estão apenas chegando a mercados já prontos. Em diferentes escalas, estão escolhendo canais, sustentando relações, combinando recursos e redesenhando fronteiras entre unidade produtiva, família e espaço público. A pergunta que fica não é apenas como incluir mais mulheres nos mercados. É que mercados estamos construindo quando o trabalho que os sustenta continua parcialmente invisível. 

 

Milena Demetrio é economista, mestre e doutoranda em Desenvolvimento Regional pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), com estágio doutoral na University of Galway (Irlanda). Pesquisa economia feminista, mulheres rurais e mercados alimentares. Ganhadora do Prêmio SOBER de Melhor Dissertação em Sociologia Rural (2023). 

 

Referências 

BENERÍA, Lourdes; BERIK, Günseli; FLORO, Maria S. Gender, development and globalization: economics as if all people mattered. 2. ed. New York: Routledge, 2016. 

FEDERICI, Silvia. Revolution at point zero: housework, reproduction, and feminist struggle. 2. ed. Oakland: PM Press, 2020. 

FRASER, Nancy. Contradictions of capital and care. New Left Review, London, n. 100, p. 99-117, July/Aug. 2016. DOI: https://doi.org/10.64590/nt2. 

POLANYI, Karl. The great transformation: the political and economic origins of our time. Boston: Beacon Press, 2001.

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