QUEM TEM DIREITO AO DESCANSO?

Raça, gênero, vulnerabilidades e a resistência à PEC 6×1 em Santa Catarina

Por que um estado que se orgulha de seus indicadores econômicos, de sua produtividade e de sua suposta qualidade de vida, produz uma representação política tão comprometida com a preservação de jornadas exaustivas?

O debate nacional sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa extinguir a escala de trabalho 6×1 encontrou em Santa Catarina um de seus maiores focos de resistência política. Dos 22 deputados federais que se posicionaram abertamente contra a proposta em todo o país, nove pertencem à bancada catarinense. Essa expressiva oposição parlamentar contrasta drasticamente com a realidade social do próprio estado: segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, mais de 1 milhão de catarinenses, o equivalente a 44,7% de toda a força de trabalho formal da região, cumprem atualmente essa rotina exaustiva de seis dias de labor para apenas um de descanso.

A insistência na manutenção desse modelo cobra um preço elevado e visível na saúde pública local. Em 2024, o estado registrou mais de 35 mil afastamentos de trabalhadores motivados por saúde mental, ocupando a quarta posição nacional em casos absolutos de ansiedade, depressão e burnout; em 2025, os índices mantiveram-se alarmantes, ultrapassando 25 mil registros até o mês de novembro. Além disso, a sustentação das engrenagens econômicas catarinenses depende cada vez mais de populações historicamente vulneráveis e de fluxos migratórios, das quais, a propósito,  o estado reivindica a reputação de  caso de sucesso: apenas no setor de frigoríficos e abate de carnes, o volume de mão de obra imigrante (composta majoritariamente por haitianos e venezuelanos) saltou de 459 vínculos em 2012 para quase 20 mil em 2022, evidenciando quem de fato carrega o peso das funções mais desgastantes e de menor remuneração.

O estado destacou-se nacionalmente como um dos principais polos de resistência à redução da jornada de trabalho. Enquanto milhões de brasileiros enxergavam na proposta a possibilidade de recuperar parte do tempo dedicado à jornada de trabalho e deslocamentos, a maior parte da bancada catarinense posicionou-se em defesa da manutenção de um modelo que obriga trabalhadores a dedicar seis dias da semana ao emprego para desfrutar de apenas um dia de descanso. O fato chama atenção não apenas pela votação em si, mas pelo que ela revela sobre a sociedade catarinense. Afinal, por que um estado que se orgulha de seus indicadores econômicos, de sua produtividade e de sua suposta qualidade de vida, produz uma representação política tão comprometida com a preservação de jornadas exaustivas? Por que tantos trabalhadores que seriam diretamente beneficiados pela redução da jornada continuam elegendo representantes que se opõem a ela?

A resposta não está apenas na economia. Ela está na história. Está na forma como Santa Catarina construiu sua identidade coletiva em torno do culto ao trabalho, da disciplina produtiva e da ideia de superioridade moral branca associada ao esforço permanente. Em um estado marcado pelo imaginário da colonização europeia, o trabalho deixou de ser apenas uma atividade econômica para se transformar em valor civilizatório. Trabalhar muito tornou-se virtude; descansar passou a ser suspeito. A questão central não é apenas entender por que esses parlamentares votaram contra a redução da jornada. A pergunta mais relevante é por que muitos deles provavelmente não serão punidos eleitoralmente por isso, muito pelo contrário, seguem sendo maioria em todos as esferas representativas do estado.

© Guilherme Jeronymo/Agência Brasil

A “Europa brasileira” e o ethos do cansaço

Santa Catarina construiu para si uma narrativa de excepcionalidade. Vende-se como território da ordem, do empreendedorismo, da segurança e do trabalho duro. Essa autoimagem, frequentemente associada à ideia da “Europa brasileira”, produz um imaginário coletivo no qual o valor moral do indivíduo está diretamente ligado à sua capacidade de produzir. Descansar passa a ser visto como privilégio e luxo reivindicar direitos, como fraqueza; questionar jornadas exaustivas, como ameaça à prosperidade.

A tese da doutora Ângela Della Flora, defendida na UFSC em 2024, é particularmente devastadora. Ela demonstra que em Santa Catarina as categorias “origem”, “sobrenome”, “família”, “cultura” e “trabalho” funcionam como substitutos socialmente aceitáveis para aquilo que não pode mais ser dito explicitamente em termos raciais. A identidade branca não desaparece; ela se reorganiza através do discurso da tradição, da propriedade, da família e da ética do trabalho. Santa Catarina talvez seja o estado brasileiro que mais conseguiu transformar a noção de origem étnica em equivalente a virtude moral. A identidade catarinense não foi construída apenas sobre a celebração da imigração europeia. Ela foi construída sobre a ideia de que determinados grupos prosperaram porque eram mais disciplinados, mais trabalhadores, mais organizados e mais civilizados que os demais. A ancestralidade deixou de ser uma informação histórica para se tornar uma prova de mérito. Mais ainda, indígenas, negros, caboclos e, mais recentemente, imigrantes racializados precisaram ser deslocados para as margens da memória coletiva.

É por isso que o trabalho ocupa um lugar quase sagrado no imaginário catarinense. Não se trata apenas de produzir riqueza. Trabalhar tornou-se uma demonstração de valor moral. O indivíduo não é admirado pelo que pensa, pelo que cria ou pelo que sonha, mas pela quantidade de horas que suporta permanecer produzindo. O cansaço converte-se em virtude. O sofrimento vira medalha. A exaustão transforma-se em identidade.

Essa cultura não nasceu por acaso. Ela está ligada a uma narrativa regional que glorifica os “pioneiros”, os “desbravadores” e os “colonos” enquanto apaga sistematicamente indígenas, negros e caboclos da história oficial. O mito fundador catarinense é simples: um punhado de europeus chegou a uma terra vazia e construiu sozinho uma sociedade próspera através do trabalho duro. O problema é que nenhuma parte desta narrativa resiste à historiografia contemporânea e à materialidade dos fatos.

O que se chama de “orgulho catarinense” frequentemente opera como uma forma sofisticada de branquitude. A palavra raça desaparece, mas surgem seus equivalentes moralizados: origem, sobrenome, família, tradição, cultura e empreendedorismo. Não se afirma que os outros são racialmente inferiores; afirma-se que são menos esforçados. Não se diz que existem povos superiores; diz-se que existem culturas superiores. A linguagem muda. A hierarquia permanece. Por isso a defesa da escala 6×1 encontra terreno fértil em Santa Catarina. A jornada exaustiva não é percebida apenas como uma imposição econômica. Ela é interpretada como um teste moral. Quem suporta trabalhar mais seria, supostamente, melhor. Quem reivindica descanso seria mais fraco. Quem exige direitos estaria tentando obter vantagens sem esforço.

O resultado é um fenômeno perverso: trabalhadores explorados passam a defender a própria exploração porque ela lhes oferece uma identidade. O orgulho de trabalhar até a exaustão substitui a luta por condições dignas de trabalho. A consciência de classe é trocada pela fantasia de pertencimento a uma comunidade de “gente trabalhadora” que se imagina diferente do restante do Brasil, responsável, injustiçada e sobrecarregada pelo progresso nacional. Uma comunidade sobretudo branca. A ironia é brutal. O mesmo estado que se orgulha de sua suposta herança europeia rejeita justamente uma das principais conquistas das sociedades europeias contemporâneas: a redução da jornada de trabalho e a ampliação do tempo livre. A Europa admirada pelo imaginário catarinense trabalha menos, descansa mais, tira mais férias e possui sistemas de proteção social muito mais robustos. O que se cultua em Santa Catarina não é a Europa atual. É uma fantasia colonial branca de disciplina, hierarquia e produtividade permanente. Uma fantasia branca, conservadora e ultra capitalista.

O resultado é uma identidade regional que frequentemente associa trabalho, mérito e civilização a determinados grupos sociais, enquanto naturaliza a posição subordinada de outros. Nesse contexto, disputas sobre cotas raciais, diversidade, gênero ou redução da jornada de trabalho não aparecem apenas como debates sobre direitos, mas como questionamentos à própria ordem simbólica que sustenta a catarinidade.

Em Santa Catarina, essa dinâmica assume contornos particulares que encontram explicação precisa na teoria do sociólogo Pierre Bourdieu sobre o capital simbólico e a violência simbólica. O trabalhador submetido à escala 6×1, frequentemente mal remunerado e pressionado por metas crescentes, passa por um processo de dominação em que a opressão econômica é transfigurada e aceita como legítima. Conforme a formulação de Bourdieu, quando as condições materiais são precárias, o poder dominante opera convertendo hierarquias econômicas em distinções de prestígio e honra. Assim, esse trabalhador é convencido de que possui algo socialmente mais valioso do que melhores condições de trabalho ou direitos trabalhistas: o pertencimento a uma “comunidade imaginada” como mais civilizada, mais europeia e, consequentemente, mais merecedora que o restante do país. A adesão a discursos ultraconservadores e a eufemização da própria exploração convertem-se, portanto, numa via disponível para que esse sujeito preserve e defenda esse capital simbólico de distinção. Trata-se de uma manifestação clássica de violência simbólica, em que o próprio dominado absorve e reproduz as estruturas cognitivas do dominador, preferindo o ganho irrisório do status (branco), ainda que explorado e precarizado, e do orgulho regional à luta concreta por sua emancipação material e física.

O mesmo mecanismo pode ser observado nas relações de gênero. A divisão sexual do trabalho continua funcionando como um subsídio invisível à exploração econômica masculina. A jornada exaustiva é socialmente tolerada porque parte significativa do trabalho doméstico, de cuidado e manutenção da vida, continua sendo realizado gratuitamente por mulheres. Em outras palavras, muitos homens suportam condições degradantes de trabalho porque a estrutura patriarcal ainda lhes garante posições de autoridade e conforto dentro do espaço doméstico. O custo da reprodução da vida é transferido para mulheres que acumulam emprego formal, cuidado familiar e trabalho doméstico não remunerado.

A resistência catarinense ao debate sobre redução da jornada também precisa ser compreendida à luz de sua história racial. A identidade regional foi construída através do apagamento sistemático da presença indígena e negra. A narrativa da colonização europeia frequentemente oculta que o desenvolvimento econômico do estado também se apoiou em formas de trabalho escravizado, em processos violentos de expropriação territorial e na marginalização histórica de populações negras e indígenas. Ao negar essa dimensão da própria história, o estado produz uma fantasia de origem que dificulta o reconhecimento das desigualdades contemporâneas. A defesa intransigente da meritocracia torna-se possível justamente porque as estruturas históricas que distribuíram privilégios e vulnerabilidades são sistematicamente invisibilizadas.

Esse processo ajuda a compreender por que pautas como cotas raciais, redução da jornada de trabalho e ampliação de direitos sociais frequentemente encontram resistência em parcelas significativas do eleitorado catarinense. Não se trata apenas de divergências econômicas. Trata-se da percepção de que qualquer ampliação de direitos para grupos historicamente excluídos representa uma ameaça à hierarquia social existente.

O habitus da submissão: Bourdieu, Du Bois e o paradoxo do trabalho exaustivo no sul do Brasil

Os números revelam a dimensão da contradição catarinense. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, mais de 1 milhão de trabalhadores em Santa Catarina, precisamente 1.042.178 pessoas, estão submetidos à escala 6×1. Isso significa que aproximadamente 44,7% dos trabalhadores do estado vivem uma rotina marcada por seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso. Trata-se de quase metade da força de trabalho catarinense. Não estamos falando de uma minoria residual, mas de um modelo de organização do trabalho que estrutura a vida cotidiana de centenas de milhares de famílias. Ainda assim, quando a possibilidade de reduzir essa jornada chegou ao debate público, a reação predominante de grande parte da representação política catarinense foi a defesa da manutenção do modelo atual. O dado é revelador: justamente um dos estados mais afetados pela escala 6×1 tornou-se um dos principais focos de resistência à sua superação.

Paralelamente, Santa Catarina tornou-se um dos retratos mais eloquentes do custo humano do produtivismo. Em 2024, mais de 35 mil trabalhadores catarinenses foram afastados de suas atividades em razão de transtornos mentais, colocando o estado na quarta posição nacional em número absoluto de afastamentos por ansiedade, depressão, estresse e outros sofrimentos psíquicos relacionados ao trabalho. Em 2025, os registros continuaram em patamar alarmante, superando 25 mil afastamentos apenas até novembro. Não se trata de uma anomalia estatística, mas de um sintoma estrutural. Quanto mais a identidade regional glorifica a produtividade, o empreendedorismo e a capacidade de suportar jornadas exaustivas, mais os corpos e as mentes dos trabalhadores revelam os limites desse modelo. A mesma sociedade que transforma o trabalho em medida de valor moral produz, silenciosamente, uma epidemia de sofrimento psíquico.

A teoria do salário psicológico da branquitude, formulada por W. E. B. Du Bois, oferece uma chave importante para compreender algumas das contradições políticas presentes em Santa Catarina. Du Bois observou que trabalhadores brancos frequentemente recebiam benefícios simbólicos que compensavam parcialmente sua posição subordinada na estrutura econômica. Ainda que não fossem proprietários, ainda que enfrentassem baixos salários e condições precárias de trabalho, podiam reivindicar para si um status social superior ao atribuído a grupos racializados. A branquitude funcionava como uma espécie de remuneração paralela, não depositada na conta bancária, mas incorporada à autoestima, ao reconhecimento social e à sensação de pertencimento a um grupo considerado mais legítimo. Essa percepção ajuda a explicar por que determinados segmentos da classe trabalhadora nem sempre se mobilizam prioritariamente em torno de seus interesses econômicos imediatos.

Em Santa Catarina, essa dinâmica encontra terreno fértil em razão da própria formação da identidade regional. Segundo os dados do Censo de 2022, o estado possui a maior proporção de população autodeclarada branca do Brasil, superando 76% dos habitantes. A construção histórica de uma identidade associada à imigração europeia, ao empreendedorismo, à disciplina e ao trabalho criou não apenas um sentimento de pertencimento regional, mas também uma narrativa de distinção social calcada no ideal branco que opera como  fronteiras simbólicas.

Algo semelhante ocorre no campo das relações de gênero. A resistência a políticas voltadas à igualdade de gênero, à diversidade sexual ou à ampliação de direitos reprodutivos não pode ser compreendida apenas como divergência moral ou religiosa. Em muitos casos, ela está associada à preservação de estruturas de poder que distribuem vantagens simbólicas e materiais de forma desigual entre homens e mulheres. O trabalhador submetido a jornadas exaustivas pode experimentar perdas econômicas concretas, mas continua ocupando posições privilegiadas dentro de determinadas hierarquias de gênero. A manutenção dessas hierarquias oferece reconhecimento, autoridade e sensação de pertencimento, funcionando como uma espécie de compensação simbólica para a precarização vivida no mundo do trabalho. O que está em disputa, portanto, não é apenas renda, mas também status social.

Sob essa perspectiva, a resistência de parte da bancada catarinense à redução da escala 6×1 não pode ser analisada isoladamente de outras agendas políticas defendidas pelos mesmos grupos. Ela revela como privilégios raciais, de gênero e de pertencimento regional podem operar como formas de remuneração simbólica capazes de influenciar escolhas políticas, mesmo quando estas produzem perdas materiais para aqueles que as apoiam.

Existe ainda uma questão raramente enfrentada nesse debate: quem são os trabalhadores que mais se beneficiariam da redução da jornada de trabalho? Quando a discussão é deslocada do plano abstrato para a realidade concreta dos postos de trabalho, a dimensão racial da escala 6×1 torna-se impossível de ignorar. Os setores mais marcados por jornadas extensas, trabalho repetitivo, desgaste físico e baixa remuneração: frigoríficos, indústria de transformação, limpeza, serviços terceirizados, logística, comércio varejista e trabalho doméstico, concentram justamente grupos historicamente mais vulneráveis no mercado de trabalho brasileiro e de origem migratória. Não por acaso, pessoas negras, pardas, migrantes internas oriundos do Norte e Nordeste e migrantes haitianos e venezuelanos que ocupam de forma desproporcional as posições mais precárias da estrutura produtiva.

Como argumenta Mário Theodoro (2022), a desigualdade racial brasileira não é um desvio do desenvolvimento nacional, mas um dos elementos centrais de sua própria formação. Após a abolição, a população negra foi sistematicamente excluída do acesso à terra, à educação e aos mecanismos de mobilidade social, sendo incorporada ao mercado de trabalho em posições marcadas pela precariedade e pela desvalorização econômica. Sob essa perspectiva, a discussão sobre a redução da jornada não pode ser compreendida apenas como uma pauta trabalhista. Ela também envolve a redistribuição de um recurso socialmente desigual: o tempo. O que está em disputa não é apenas a quantidade de horas trabalhadas, mas quem terá acesso ao descanso, ao lazer, à convivência familiar, à qualificação profissional e à própria possibilidade de construir projetos de vida para além da sobrevivência cotidiana. Quando trabalhadores submetidos às jornadas mais desgastantes pertencem sobretudo a grupos historicamente racializados ou marginalizados, a defesa da escala 6×1 deixa de ser uma questão neutra e passa a dialogar diretamente com a reprodução de desigualdades estruturais.

Talvez por isso a resistência à redução da jornada encontre tanta convergência com discursos contrários às ações afirmativas, às políticas de diversidade e aos mecanismos de inclusão social. Em todos esses casos, o que está em jogo é a redistribuição de recursos que historicamente foram apropriados de maneira desigual: renda, oportunidades, reconhecimento e tempo. O debate sobre a escala 6×1 não trata apenas de produtividade. Trata também de quem continuará carregando o peso do trabalho mais exaustivo e quem permanecerá usufruindo dos subornos produzidos por essa divisão social profundamente marcada pela raça, pelo gênero, pela origem e pela classe. Exemplos disso encontram lastro em evidências disponíveis em dados públicos: estudos do DIEESE demonstram que a população negra da Região Sul permanece concentrada nos postos de trabalho menos protegidos, com menores salários, menor presença em cargos de direção e maiores índices de vulnerabilidade ocupacional.

Quando uma bancada parlamentar se mobiliza contra mudanças na jornada de trabalho e, simultaneamente, se opõe a políticas de ação afirmativa, cotas raciais ou agendas de diversidade, o que está em jogo não é apenas uma concepção econômica, mas uma determinada organização das hierarquias sociais. Os mesmos grupos políticos que rejeitam a redistribuição do tempo frequentemente também rejeitam mecanismos de redistribuição de oportunidades.

Nesse contexto, o apoio de parte da bancada catarinense à manutenção da escala 6×1 não deve ser lido apenas como uma decisão legislativa isolada. Ele expressa uma visão de sociedade na qual produtividade vale mais do que qualidade de vida; hierarquia vale mais do que igualdade; pertencimento simbólico vale mais do que direitos concretos. O paradoxo catarinense é justamente esse: uma sociedade que frequentemente se orgulha de sua capacidade produtiva enquanto naturaliza formas cada vez mais intensas de desgaste humano. A manutenção da escala 6×1 torna-se, assim, não apenas uma questão trabalhista, mas um sintoma de uma estrutura social que continua trocando dignidade por produtividade e direitos calcados em uma identidade branca e masculina.

 

Marlon Ricardo de Amorim é bacharel em Direito, Especialista em Direitos Humanos, servidor da Justiça Federal em Santa Catarina.

Magali Dantas é socióloga, Doutoranda em Políticas Públicas e Mestre em Governança e Desenvolvimento pela ENAP.

 

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