Reequilibrar as relações entre China e Estados Unidos - Le Monde Diplomatique

SUPERPOTÊNCIAS

Reequilibrar as relações entre China e Estados Unidos

por Shen Dingli
Maio 4, 2012
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O fulgurante desenvolvimento da China mexe com os poderes estabelecidos e complica seriamente as relações do país com os Estados Unidos. Washington reage adotando medidas que se dizem preventivas, mas podem ser entendidas como ofensivas e pressionar Pequim a uma reação ainda mais agressivaShen Dingli

Ao longo da última década, o PIB da China aumentou quase dez vezes mais rápido que o dos Estados Unidos: ele passou de cerca de US$ 1,1 trilhão em 2000 para US$ 5,88 trilhões em 2010, enquanto o norte-americano, no mesmo período, aumentou de US$ 10 trilhões para US$ 14,6 trilhões. A economia chinesa continua muito atrás, mas os especialistas preveem que em vinte anos ela possa alcançar a dos Estados Unidos. Se essa tendência se confirmar, mesmo com alguma desaceleração, em menos de uma década Pequim poderá estar jogando no mesmo nível de Washington.

O país vem gradualmente adquirindo todos os atributos de uma superpotência em formação. Em 2011, seu orçamento de defesa foi de US$ 91,7 bilhões, 80% superior ao do Japão e 200% ao da Índia. A diferença em relação aos Estados Unidos nesse campo, que em 2000 era de 1 para 20, reduziu-se a 1 para 7. Embora ainda muito aquém, a China ocupa hoje o segundo lugar do mundo em despesa militar, e se Washington mantiver a atual política de contenção orçamentária, a diferença poderá reduzir-se ainda mais.

Desde a década de 2000, as relações entre os dois países mudaram muito. A China investiu cerca de um terço de suas reservas de divisas estrangeiras em títulos do Tesouro norte-americano, tornando-se o maior credor dos Estados Unidos.1 Tendo se tornado a maior nação exportadora do mundo, ela está entre os principais fornecedores da América, o que ajuda Washington a conter sua inflação e permite que os investidores obtenham seus lucros.

Desde a crise financeira de 2008, a China não para de se afirmar na cena internacional e nas relações com os Estados Unidos. Em 2009, na Cúpula de Copenhague, o país contrariou os norte-americanos a respeito do calendário de redução de emissões de carbono. No mesmo ano, a frota chinesa cercou o Impecável, navio da Marinha norte-americana que cruzava sua zona econômica exclusiva no Mar da China Meridional. Em 2010, o poder chinês mais uma vez resistiu às pressões de Washington, que pedia a condenação do ataque da Coreia do Norte contra a ilha sul-coreana de Yeonpyeong. Em 2011, recusou-se a respeitar o embargo às importações de petróleo iraniano, embora tenha sido mais dura com Teerã sobre seu programa de armamento nuclear.

Mas nada disso impede a cooperação entre China e Estados Unidos em diversas áreas: a luta contra o terrorismo, contra a proliferação de armas de destruição em massa (pelo menos até certo ponto, como mostram as divergências sobre a República Popular Democrática da Coreia, por exemplo), ou os esforços de reabsorção da crise financeira. Mas as disputas também tendem a se multiplicar.

Na frente econômica, Washington acusa Pequim de “roubar” empregos norte-americanos e conduzir uma concorrência desleal por meio da depreciação de sua moeda e da violação das regras de mercado. No plano estratégico, os Estados Unidos temem uma China que consideram engajada numa corrida armamentista e que introduz forças na região da Ásia do Pacífico. Ideologicamente, é difícil para o país aceitar que o “consenso de Pequim”2 possa competir com o de Washington.

 

Segundas intenções

No entanto, se a sociedade norte-americana está minada pela perda de empregos e as offshoringsdo setor manufatureiro, ela o deve sobretudo ao liberalismo econômico e ao capitalismo que exige o máximo rendimento. Além do mais, a competição não é apenas entre China e Estados Unidos, mas entre o conjunto dos países industrializados e o dos países em desenvolvimento. E o yuan não importa tanto assim, já que a produção pode ser transferida para o Vietnã, Bangladesh, Índia… Todo mundo sabe disso, mas cada um vai tocar sua música neste ano eleitoral norte-americano.

Do ponto de vista estratégico, os Estados Unidos veem com maus olhos o crescente poder da China. Em plena modernização, sua aviação já dispõe de bombardeiros equipados com sistemas de detecção e comando aeroportado Awacs, aeronaves de abastecimento em voo, porta-aviões operacionais. O programa espacial, pensado para incluir umcomponente de defesa, também foi reforçado, e a Marinha desenvolveu arsenal convencional e nuclear de longo alcance. Sem esquecer o desenvolvimento das habilidades chinesas no ciberespaço. É por isso que, à medida que retira suas tropas do Iraque e do Afeganistão, o Pentágono reintroduz forças na Ásia Oriental e trabalha com aliados e novos parceiros para testar as capacidades da Marinha chinesa, especialmente no Mar da China Meridional.3

Desde que chegou à Casa Branca, o presidente Barack Obama prioriza os canais diplomáticos em vez da confrontação. Um de seus primeiros gestos foi afirmar sua intenção de estabelecer diálogo com a China, o Irã e a Venezuela, entre outros. O método teve algum sucesso, especialmente na Birmânia, onde o presidente Thein Sein pouco a pouco democratiza o país. Essa abertura teve o apoio dos Estados Unidos, simbolizado pela visita histórica da secretária de Estado Hillary Clinton a Naipidau, no dia 1º de dezembro de 2011. Quanto à atual cooperação militar com Japão, Coreia, Filipinas e Vietnã, ela não está isenta de segundas intenções estratégicas e ideológicas contra a China.

O crescente poder da China não tem nada de surpreendente: ele estava inscrito na história a partir do momento em que a sociedade se abriu à economia de mercado exatamente quando a globalização começava a tornar mais fluida a circulação de pessoas, capital e informação. Afinal, Pequim não apontou uma arma para a cabeça de ninguém. Os investidores norte-americanos aproveitaram a oportunidade que se apresentou para tirar vantagem de uma mão de obra de baixo custo. Enquanto os chineses desenvolviam sua indústria, os norte-americanos consumiam mais barato e mandavam para longe suas fábricas poluidoras. A troca gerou benefícios tangíveis, produzindo duradouros efeitos nocivos: nos Estados Unidos, em termos de emprego; na China, de meio ambiente.

Assim, Pequim e Washington estabeleceram uma parceria tão bizarra quanto indissolúvel: a China polui seu ambiente para permitir que os Estados Unidos economizem, mas compra títulos do Tesouro norte-americano para permitir que eles dilapidem fortunas no Iraque e Afeganistão. Quando assumiu o cargo em 2001, o presidente George W. Bush herdou uma dívida de US$ 5 trilhões. No final do mandato, ela dobrou. Em menos de três anos, o presidente Obama levou-a ao nível histórico de US$ 15 trilhões. Embora a China tenha sua parcela de responsabilidade nesse desastre financeiro, também é vítima dele. Seu US$ 1,15 trilhão em títulos do Tesouro norte-americano contribui para amortecer o peso da crise financeira e, assim, permite que os Estados Unidos gastem mais no campo de batalha afegão. A enorme quantidade de moeda derramada pelo banco central norte-americano (o Federal Reserve, FED) permitiu-lhes obter fundos, reduzindo o poder de compra dos dólares adquiridos pela China. Uma dependência tão estranha como insalubre, e que está se agravando.

Direitos e deveres

Desse modo, a necessidade de reequilíbrio das relações sino-norte-americanas parece óbvia. É de interesse da China desenvolver o consumo no mercado interno, observar as questões ambientais e reduzir os excedentes comerciais com seu parceiro norte-americano. Para os Estados Unidos, seria talvez salutar perseguir o offshoringde algumas atividades industriais, mas começando a reintroduzir parte da produção em território nacional, a fim de operar uma nova arbitragem entre finanças e indústria. Os líderes norte-americanos também deveriam reconhecer que as instalações na China geraram receitas maiores, mas aumentaram as disparidades sociais, atingindo sua própria moral a ponto de o livre-comércio ser contestado.

Além disso, os dois países não têm a mesma envergadura estratégica. Os Estados Unidos estão comprometidos com a hegemonia mundial e têm a única força capaz de instalar-se rapidamente em qualquer lugar do planeta, o que não será o caso da China ainda por muito tempo. No fim de 2011, os Estados Unidos decidiram vender novas armas a Taiwan, enquanto no dia 6 de setembro desse mesmo ano o Ministério da Informação chinês publicou uma nota sobre o caminho de um desenvolvimento pacífico (China’s peaceful development), destacando seis prioridades nacionais, entre elas a reintegração da ilha. Pequim considera que em breve terá meios econômicos para isso, pretendendo dominar o estreito e sua região − objetivo que torna indispensável a modernização global de suas capacidades de dissuasão.

Os dois países se encontram em uma lógica de conflito. As vendas de armas a Taiwan impulsionam a China continental a modernizar seu arsenal. Essa militarização, por sua vez, inevitavelmente leva Washington a suspeitar de intenções estratégicas que vão além de sua esfera de influência. Ela não voltou atrás na promessa de se concentrar em Taiwan e na defesa de sua costa, sem introduzir forças no exterior? A China constrói aeronaves cujo alcance não se limita à região, posiciona navios no Golfo de Áden e confirma o interesse em adquirir bases de apoio logístico no exterior.4

Esses sinais levaram os Estados Unidos a multiplicar as missões de reconhecimento nas águas territoriais e no espaço aéreo chinês. Para proteger suas operações em caso de intervenção em Taiwan, o Império do Meio aventurou-se até a reconduzir navios e aviões norte-americanos para fora de sua zona econômica exclusiva. Alguns relatórios também tratam do desejo chinês de considerar o Mar da China Meridional como parte de seu interesse nacional. Essa atitude e a política do país em relação ao Japão5 e à península coreana explicam em grande medida o retorno dos Estados Unidos à Ásia. Esse redirecionamento forneceu o argumento da liberdade de navegação no Mar da China, o que terminou de envenenar a questão.

Essa política de “retorno à Ásia” segue dois objetivos: fortalecer a presença norte-americana na região e evitar qualquer violação dos códigos internacionais no Pacífico. Na verdade, no que concerne à navegação em alto-mar, os interesses dos dois países coincidem, e ambos têm tudo a ganhar com a liberdade de circulação. Não há, portanto, motivo para se exaltar com a presença norte-americana, uma vez que um país não tem a intenção de cortar as linhas de comunicação do outro. É simplesmente o caso de se declararem os direitos e deveres de cada um. Os Estados Unidos deveriam se comprometer a não violar os direitos fundamentais da China. O equilíbrio de poder entre os dois países poderia ser uma das mais importantes questões da década.

Shen Dingli é reitor do Instituto de Estudos Internacionais e diretor do Centro de Estudos Norte-Americanos da Universidade Fundan (Xangai).



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