Diários de quarentenas entre Itália e Brasil: reflexões sociológicas

Brasil - Itália

Reflexões sociológicas da quarentena

por Leonardo José Ostronoff e Massimo Bonato
26 de março de 2020
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Diante da emergência planetária atual provocada pelo Covid-19 mais uma vez o indivíduo da sociedade global contemporânea vai experimentar sua existência em termos de crise. Trata-se de uma nova experiência de crise. Inédita. Que, em razão da magnitude dos efeitos globalizados em níveis sanitários, econômicos, sociais, políticos proporciona às pessoas repensarem suas vidas em relação às dimensões temporais passado, presente e futuro. A atual pandemia as obriga em assumir uma disposição de reflexividade diante de algumas questões fundamentais. Sobressai, entre outras, a da controvérsias públicas em torno das ciências.

Os autores desse artigo um morando na cidade de São Paulo (Brasil), outro na cidade de Varese, região da Lombardia (Itália), procuram expressar suas impressões particulares diante da crise pandêmica atual nas localidades onde vivem. Ambos pesquisadores de sociologia, pensam, a partir de suas sensibilidades, como as pessoas em diferentes condições de isolamento social, na Itália e no Brasil, exercem novas formas de reflexividade que moldam desde já seus comportamentos, ações e até estilos de vida. Tal quadro sugere que os efeitos do Covid-19 terão importantes e duradouras implicações nas diferentes esferas da vida contemporânea para além do fim pandemia. Tanto em termos de dimensão subjetiva de existência no cotidiano, assim como num plano sistêmico mais amplo e geral de arranjos sócio-políticos e institucionais.

A ideia de crise além de possuir vários significados: separação, escolha, julgamento, mudança; aplica-se em vários campos de conhecimento: medicina, economia, política entre outros. Como bem mostrou o historiador alemão Reinhart Koselleck em Il vocabolario della modernità. Progresso, crisi, utopia e altre storie di concetti, o termo crise no decorrer da modernidade “se transforma em um conceito de filosofia da história que indica a aspiração de poder interpretar o inteiro curso da história a partir da própria diagnose do tempo. Desde então, é sempre o próprio tempo a ser experimentado como crise”.

Diante da emergência planetária atual provocada pelo Covid-19 mais uma vez o indivíduo da sociedade global contemporânea vai experimentar sua existência em termos de crise. Trata-se de uma nova experiência de crise. Inédita. Que, em razão da magnitude dos efeitos globalizados em níveis sanitários, econômicos, sociais, políticos proporciona às pessoas repensarem suas vidas em relação às dimensões temporais passado, presente e futuro. A atual pandemia as obriga em assumir uma disposição de reflexividade diante de algumas questões fundamentais. Sobressai, entre outras, a da controvérsias públicas em torno das ciências.

Itália

Na Itália, em janeiro, logo após à epidemia explodida na China, em Wuhan, os debates públicos sobre Covid-19 seguem “normalmente”. E a atenção da opinião pública acompanha este acontecimento mediático com um entre os tantos. Não faltam debates televisivos e jornalísticos em que médicos, cientistas, jornalistas e políticos se confrontam sobre os riscos conexos à difusão do vírus: os impactos sobre os sistemas sanitários e econômicos assim como sua letalidade.

As controvérsias em volta do Covid-19 publicamente postas mostrando como – de acordo com o sociólogo Ulrich Beck em sua obra: Sociedade de risco. Rumo a uma outra modernidade – “no revezamento entre riscos coproduzidos e codefinidos e sua crítica pública e social, o desenvolvimento científico-tecnológico se torna contraditório”. O gerenciamento dos riscos de um vírus como Covid-19 traz à atenção da opinião pública a dimensão definida por Beck de cientificização reflexiva pela qual a “ciência se opõe a ciência”.

O debate público na Itália continua neste arranjo de controvérsias, grosso modo, ao longo de boa parte do mês de fevereiro. Até o dia 21 de fevereiro, quando no pequeno município de Codogno, na região da Lombardia, um jovem de 38 anos, positivo ao Covid-19 é identificado como “paciente 1”. A partir deste momento o caráter contraditório desse debate público que envolve mídias, ciência, medicina, política, economia, ganha outros contornos.

A pluralidade de atores e de posições que haviam animado as controvérsias agora projeta o debate num plano de convergências discursivas. Agora a prioridade absoluta é uma: identificar e aplicar as medidas mais adequadas no enfrentamento do vírus. Diante dos riscos de uma emergência que já não é mais um perigo hipotético mas sim uma ameaça efetiva é à ciência que se demandam soluções. Embora as críticas e autocríticas públicas, internas e externas ao campo científico tenham mais uma vez relativizado o monopólio da verdade dos conhecimentos científicos, vale notar que – até em virtude do próprio caráter reflexivo da dinâmica complexa de cientifização – a ciência volta a ocupar lugar de destaque no desenvolvimento e implementação de medidas políticas e econômicas do governo italiano.

Quarentena em casa (Divulgação)
Obra no artista Nello Petrucci pede que as pessoas fiquem em casa, de quarentena. (Divulgação)
Restare in casa

Evidentemente estes processos envolvendo ciência, suas aplicações e esfera pública se apresentam também em nível individual-subjetivo. De acordo com a reflexão do sociólogo Anthony Giddens, no livro Modernidade e identidade, as pessoas por meio da “incorporação rotineira de conhecimentos ou informação novos em situações de ação”, operam em termos de reflexividade. Na Itália ao longo do mês de março, diante do crescimento do número de óbitos devidos ao Covid-19, o governo, no intuito de garantir a saúde coletiva, determina medidas de distanciamento social para o país inteiro. Para todos agora o lema é: “resta a casa”.

Desta maneira uma nova reflexividade também pautada nos conhecimentos científicos veiculados pelos diferentes canais de comunicação passa a ser interiorizada e operada de maneira difusa na população. Em casa, neste microcosmo, as pessoas passam por um verdadeiro experimento social em que dimensões como a do trabalho, da escola e do lazer configuram novos arranjos de relações sócias e de sociabilidades mediadas mais fortemente pelas tecnologias digitais.

“Restare in casa” também significa pensar a uma reflexividade e a uma vivência que devem ser necessariamente relacionadas com a dimensão da liberdade; sobretudo no momento em que também são diferentes os padrões e as situações de distanciamento social. Neste sentido, se por muitas pessoas a limitação da liberdade de ir e vir acaba sendo confinada – e se resolve, não facilmente – ao espaço da própria moradia, para outras esta condição já difere substancialmente.

Sistema prisional

Vale pensar como essa mesma questão da liberdade é experimentada para quem não tem casa, como os moradores de rua; ou para quem, como os detentos, encontram-se a viver já distanciados da sociedade. Em março, nos presídios italianos vários protestos e rebeliões, que demandam maiores proteções diante ao Covid-19, provocam uma série de vítimas entre os detentos. E assim a nova emergência da epidemia também traz publicamente a tona a situação emergencial (nada nova!) da lotação do sistema carcerário italiano.

O clássico rap “Diário de um Detento” dos Racionais Mc’s, retrata o cotidiano de quem vivia no antigo presídio do Carandiru: sobreviver em privação de liberdade, uma realidade que era contada por Mano Brown. A letra do rap revela uma dimensão praticamente desconhecida pela população de São Paulo, a maior cidade do Brasil. O contato da maioria das pessoas era olhar, da Linha Azul do Metrô, os rostos entre grades nas janelas da Casa de Detenção. Ficar fechado entre quatro paredes era algo de um mundo distante, daqueles que infringiram a lei. Porém, a história da humanidade é feita de crises, não existe uma linha reta e constante.

Dessa vez, quem trouxe a crise não foi uma guerra mundial, mas um novo vírus para o qual ainda não temos vacina. O Covid-19 veio como um furacão em uma ordem mundial que parecia bem estabelecida. Brasil, dia 21 de março de 2020, São Paulo é a cidade mais atingida, justamente porque é a metrópole de maior expressão global do país, com um aeroporto internacional que recebe diariamente milhares de pessoas de todo o mundo. O governador do estado acaba de decretar quarentena até 05 de abril, somente comércios de itens essenciais ficarão abertos após 24 de março. O isolamento dentro das casas já está sendo praticado pela população, aulas foram canceladas nas universidades e escolas. Um cenário de séries de ficção do Netflix acabou por se tornar realidade, estamos confinados entre as paredes dos apartamentos desta vasta cidade. A nossa tão “cantada” liberdade das classes médias, foi posta em suspensão.

Uma experiência que somente “os párias” viviam, agora vivemos em nosso cotidiano, certamente, ainda de forma menos intensa. Talvez essa experiência faça com que nossa sociedade finalmente enxergue os “invisíveis”. Já chegam notícias de possíveis contaminações em presídios no estado do Rio de Janeiro e de casos suspeitos pelo estado de São Paulo. Chama a atenção, o maior risco diante das condições sub humanas nas quais vivem milhões de pessoas nas capitais desses estados. Como diz Foucault, o novo sempre traz em si o velho.

O coronavírus é novo, mas traz o velho dentro da crise que causou: as camadas de menor renda acabam por pagar um preço maior, sendo os “párias” os últimos nessa pirâmide. Privados de sua liberdade pelo estado como forma de punição, os “presos” estão nesse momento expostos a uma situação de risco ainda maior do que viver todo dia em uma penitenciária brasileira, eles estão confinados todos (ou todas) dentro do mesmo espaço, o que faria com que a contaminação de um deles espalhasse rapidamente para os demais. A classe média pode se isolar nos seus condomínios, protegendo-se. Porém, quem está nas prisões não tem essa opção. É momento de enfim levar à sério os muitos escritos sobre encarceramento e sua eficácia, sem dúvida, repensar o modelo prisional é uma urgência que a crise do Covid-19 coloca em cena. Para além disso, é um momento para refletir se o modelo de uma sociedade punitiva como a nossa deve ser mantida, nós autores desse artigo entendemos que não.

Fato é que devido à emergência e à gravidade da epidemia a opinião pública já olha o porvir com a percepção que no futuro a vida e a sociedade não voltarão a ser como antes. Serão diferentes. Terão que necessariamente ser repensadas. Crises são sempre momentos de mudanças, que a atual nos permita construir uma sociedade onde a privação de liberdade não seja um modelo, onde punir não seja a solução.

Leonardo José Ostronoff é sociólogo graduado pela USP. Pós-doutor, Doutor e Mestre em Sociologia pela USP. Vive na cidade de São Paulo atualmente. Massimo Bonato é formado em história pela Universidade de Bologna (Itália). Pós-doutor e Doutor em Sociologia pela USP. Atualmente é post-doc researcher na Università degli studi di Torino. Vive em Varese, cidade da região da Lombardia (Itália).



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